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sábado, 12 de agosto de 2006

O confessor lascivo (Nilto Maciel)



O primeiro livro de Frederico Ozanam fez muito sucesso. Talvez em razão do título: Histórias indecorosas.

Começa por onde poucos terminam — chegaram a dizer. Na verdade, o livro foi editado pela empresa editorial mais rica do país. Os direitos autorais foram pagos antecipadamente. Jornais, revistas, televisões se referiam, diariamente, ao novo fenômeno literário. Nunca um livro vendera tanto em tão pouco tempo — meio milhão de exemplares em questão de dias.
Ozanam teve que se esconder, viajar para a Europa. Não suportava mais tantos repórteres à sua porta. Queriam entrevistas, depoimentos, fotografias, um simples alô. Pagavam fortunas por uma palavra sua. Ozanam dizia não. Lessem o livro. Bastava isso. Não entendia de política, economia, comportamento.

O editor se irritava, coçava a cabeça, praguejava. Uma entrevista no canal 10 valia mais meio milhão de exemplares. Ozanam enlouquecera. Um idiota!

Saiu o segundo livro. Título também muito sugestivo: Gemidos de amor. O grande público, porém, virou a cara para seu ídolo. Passado um mês do lançamento, uns cem exemplares haviam sido vendidos. As livrarias brigavam com a editora. Queriam devolver tudo. O editor coçava a cabeça, praguejava. O público enlouquecera. Idiotas!

Ozanam escancarava as portas de casa. Onde andavam os repórteres, os fotógrafos? Telefonava para as redações. Desligavam o telefone na sua cara. Insolentes!

O mal de Frederico Ozanam — diziam críticos e leitores — era meter latim na cama. Referiam-se, de maneira geral, a seu eruditismo. Apesar da vulgaridade dos títulos e da tradicionalidade da técnica de narrar.

O editor, que não lera os livros de Ozanam, ameaçou: ia requerer indenização. O prejuízo poderia levá-lo à falência.

Dedicado ao terceiro livro, o escritor esqueceu os dissabores e deixou a briga por conta dos outros. Escrevia à noite, pacientemente. Buscava a perfeição. O erotismo mais requintado. Nada de Sade, Laclos, Henry Miller.

Passados alguns anos, deu por concluído o trabalho. Restava cuidar da edição. Menos pelo editor dos primeiros livros. O homem ainda ameaçava matá-lo, se o visse.

Dois ou três anos depois, conseguiu convencer um pequeno editor a financiar a publicação de O pecado do prazer. Não importava a quantidade de exemplares. Podia ser cinco mil. O editor propôs mil. Chegaram a um acordo: três mil.

Nenhum dos dois tinha razão: ao cabo de um ano, venderam-se duzentos livros.

Nos vinte anos seguintes, Frederico Ozanam escreveu muitos outros contos eróticos. E gastou muito dinheiro. Pagou a impressão de todos eles. Em pequenas gráficas de máquinas obsoletas.

Já não ouvia bem e discutia com os tipógrafos. Diziam-lhe uns preços, ouvia outros. Resmungava, irritava-se com facilidade, envelhecia.

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Frederico Ozanam é o pseudônimo de Vicente de Paulo Azevedo. O padre Vicente. Religioso recatado e erudito. Nunca fez sermões, nunca celebrou missas solenes, nunca visitou o bispo. Em compensação, sempre leu a Bíblia, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino. E também Virgílio, Júlio César, Horácio. No original.

Confessa ele só ter tido interesse por escrever depois de sua ordenação. Muito depois. Quando seminarista, mal rabiscava as redações escolares. Nem cartas escrevia. A caneta caía da mão, o papel se enchia de desenhos enigmáticos. Não negava, muitos desses desenhos escondiam mulheres nuas. Seios de todos os feitios, ventres exuberantes, coxas e pernas cheias de curvas.

A vontade de escrever só se manifestou mais tarde. Ia para o confessionário e passava horas seguidas a ouvir pecados. Ouvido grudado na boca do pecador. Aquele cicio, aquele balbucio medroso, quase mudo, como se vindo de muito longe, do mais fundo da alma.

Todo dia, rosários e rosários de pecados desfiados. Homens e mulheres repletos de pecados. Uns mais acanhados, discretos. Falavam pouco, medindo as palavras, temerosos de pronunciar obscenidades. Outros mais francos. Abriam a boca e contavam as mais íntimas cenas de alcova.

Nos primeiros tempos, Vicente ouvia, perdoava, esquecia. Vinha outro fiel. E assim o tempo passava.

Algumas cenas, porém, ele não conseguia esquecer com facilidade. Por mais que lesse os salmos, os evangelhos, a guerra gaulesa. Repetiam-se aos seus ouvidos, como se os pecadores não parassem de ciciar seus pecados. Vicente lia e relia, rezava, ajoelhava-se, martirizava-se.

Ouvir confissões tornou-se um hábito, um passatempo, um prazer. Se não havia pecadores a confessar, Vicente se amofinava. Não sossegava enquanto não chegava a hora das confissões. Ia e vinha pela casa, impaciente. Corria à igreja, excitado. Postava-se diante do confessionário, a morder os lábios.

Via de regra, a confissão de cada cristão não durava menos de meia hora. Vicente se valia de um caderno de perguntas, por ele mesmo elaboradas. Interessavam-lhe os grandes pecados, os atos incomuns, os hábitos esquisitos. A história em si. A biografia dos personagens. Do narrador, sobretudo.

Os mentirosos, os desonestos, os perversos, esses recebiam pronto perdão. Rezassem, jejuassem, resistissem ao pecado. Os gulosos, os preguiçosos, os gananciosos, esses também não precisavam contar muito. Pecados leves, penas brandas. E fossem com Deus.

Contudo, se o fiel tinha a confessar pecado da carne, padre Vicente se enchia de ouvidos. Contasse tudo, tintim por tintim. E fazia perguntas, reperguntas, insinuações. Falasse devagar e com clareza. Não queria confundir dedo com gelo, chutar com chupar, gemer com tremer. Muito menos alhos com bugalhos.

Os ouvidos de Vicente, porém, já não ouviam direito. E os pecadores foram, pouco a pouco, se afastando dele. Preferiam outros padres, outras igrejas.

Desiludido, o velho sacerdote tirou a batina. Em compensação, mandou publicar mais um livro: Memórias de um confessor lascivo.

Frederico Ozanam deixava de ser autor para se tornar um amargo personagem.

Como de costume, não faltou latim. Desde a epígrafe: Cornu bos capitur, voce ligatur homo. (*)
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(*) O boi se pega pelo chifre, o homem pela palavra.
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