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sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Conservatórias de Palma (Jaime Collier Coeli)



 
Os Varões de Palma, romance de 1.994 de Nilto Maciel, encaminha o leitor para uma questão cruel: não nos faltam instituições sólidas, mas para que servem? Da grande variedade de conservatórias, resta a dúvida, no mínimo incômoda: conservar o que e para que?

Nilto Maciel nos revela o que aparenta esconder, com muito bom humor. Ele nos escamoteia o tema do conhecimento, nos equívocos dos varões da cidade de Palma, que bem conhecem seus desejos e interesses, mas não os expressam. Inutilmente inventam interpretações, devidas à ignorância ou à hipocrisia, sem conseguir invalidar antiga constatação de Terêncio: homo sunt et nihil humani a me alienum (Sou homem e nada do que é humano me é estranho).

De fato, todos sabem que o tema cultural brasileiro nasceu e viveu durante muito tempo sob a tutela do Nihil obstat. Muito tempo depois o substituiu pelo lema Amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim, imediatamente simplificado para Ordem e progresso, por sua vez traduzido, nas delegacias de polícia da década de 70, por Ordem é progresso. A substituição da conjunção pelo predicativo revelou enorme ignorância filosófica e histórica, além de vocação indiscutível para o interdito cultural. O pior é que a leitura de Comte permitia essa interpretação obtusa, no que diz respeito às artes.

O apaixonado de Clotilde criou o triângulo dos poetas. Consta de um triângulo retângulo, medindo 3 medidas em um cateto, 4 no outro e 5 na hipotenusa. No cateto menor figuram Ariosto, Dante e Homero; no maior, Ésquilo, Milton, Shakespeare e Corneille; na hipotenusa, Cervantes, Molière, Calderón, Tasso e W. Scott. O centro do triângulo é dominado por Tomás de Kempis (Tomás Hemerken), que viveu entre 1379 e 1471 e escreveu uma Imitação de Cristo. A tradição de escrever histórias e imitações do tipo de Hemerken foi seguida por Hegel, Giovani Papini (que a completou com um livro de estética, La corona d’agento), Plinio Salgado e, segundo consta, Frei Beto. Comte admirava e aconselhava a leitura dos clássicos de todos os tempos. Mas propunha versões expurgadas, seguindo a máxima de Tomás Hemerken: consuetudo consuetudine vincitur (Um costume é vencido por outro costume) que, aliás, também foi aplicado com entusiasmo na política cultural soviética.

Um historiador do positivismo nacional, João Cruz Costa, professor da USP nas décadas de 50 e 60, defendia a tese de que o marxismo constituía a continuidade do positivismo, ou seja, que, na arte, deveria predominar a estética do realismo socialista. A resultante, na época atual, foi a existência de um caráter místico aliado a um rapeningue que põe a criatividade numa camisa de força, tornando a arte propagandista do presente histórico. Surgem, então, intelectuais apáticos e/ou niilistas. A arte popular, portanto, encontra maior liberdade, por exemplo, na vigorosa sátira contra a Guerra dos 30 anos, na série Simplicissimus, de Grimmelshausen (1622-1676) ou nos romances anônimus da Idade Média. Talvez também em decorrência da Guerra Fria o mundo nunca tenha sofrido o impacto de tantas inquisições quanto no século XX.

A arte encontraria maior liberdade se não se importasse tanto com freios e observasse com maior atenção o transcorrer da existência no Novo Mundo, completamente liberada para todas as iniciativas, como observa Graça Aranha, in A Estética da Vida: “Mas dessa fúria foi nascendo a civilização, amassada no sangue e na lama sobre a terra maravilhosa. O ouro foi a miragem, depois o poder, a força, a primeira revelação brasileira no mundo cupido e deslumbrado. Foi o ponto de partida de outras miragens, e tudo daí em diante é uma ilusão dourada para o mesmo homem, que antes era subjugado e agora se torna destemido, se coloca em desafio diante da natureza bruta e vai por arrancos devastando e criando (...). A atividade do homem brasileiro, cujo fim será a sua libertação do terror (...)” com certeza não poderá bater de frente contra um paredão construído para servir de muralha de prisão. Mais importante do que esperar lucidez, onde falta até instrução, será arar e adubar o terreno de plantio. Para isso contamos com os esclarecimentos do Varões de Palma, porque não há como deixar de reconhecer a utilidade mesmo dos seres mais grosseiros. Afinal, depois de tudo que foi ensinado pelos homens de ação, não há razões para negar, ao campo cultural, as mesmas liberdades.

(Revista Literatura n.º 18, Brasília, junho de 2000)
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