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quinta-feira, 29 de março de 2007

Dentro do sempre navegado mar (Laene Teixeira Mucci)



Este é o espaço poético de Nilto Maciel. Local e tempo. Dele nos inteiramos, nele penetramos, nos banhamos em seu amanho de rio – e nos identificamos ou não, com a matéria (corpo/alma) de seu belo sensível. O campo poético não se encontra fechado – possui muitos braços prendedores, pernas distendidas para o longo alcance e um grande peito que se entrega e recebe proximidades e lonjuras, todas elas atuando sedutoramente. Está presente em uma ação polarizadora, que imaniza, completa e parte, e estremece, a unidade mistéria – pélago, ninho, volume e superfície, profundez e comprimento, condensação de nuvens... Para caminhar sobre um espaço poético, é mister usar calçados leves ou pés levitados e descalços, ou nem uma coisa nem outra, senão o movimento rítmico de um perpasso de alma. Nilto Maciel nos perpassa de alma pela visão interna e externa, mágica e transformadora, de um Poeta que permite solver e dissolver em suas retortas de vidro frágil, seivas de girassol e trevo proibido, fundir em seu alguidar de barro sibilante, o líquido suspiro da hematita e da libélula. O Poeta tem “os olhos cegos de não-ver; os olhos mudos vislumbradores da loucura de uma babel tempestuosa em oceano largo; os olhos surdos, que não escutam – vêem cantos doloridos e assustados de morte e solidão...” e como se não bastasse, a “própria imensidão de ser...” Suas palavras tentam traduzir enigmas congênitos em suas redomas e labirintos inarredáveis e conspiradores. O Poeta compõe seus versos de milagre profundo, mergulhados numa humanidade atormentada, por vezes contraditória em figurações características. Não se digladiam – colocam-se esses pontos de procura, quiçá de encontro, em porções e camadas que se amontoam e se revezam, pesadas e leves. São olhos que se lançam e só se apaziguam doloridos na última visão – a da terceira estrofe – dentro da vasta praia erma – região/país/continente – longínqua/próxima, de ser; de ser, de ser...

A força do decassílabo, principalmente heróico, é o suporte, aporte – para o conteúdo emocional que soa e traz até nós forças e fraquezas exacerbadas de um Poeta – aquele que “faz versos como quem se vai...” Se lemos e ouvimos Nilto Maciel, percebemos a insistente batida de sua linha poética que se determina inequívoca em suas unidades de sílaba, vocábulo, palavra, verso, estrofe e, finalmente, poema. É importante que ouçamos o som de sua passada e voz, o toque de seus pífaros e púcaros, o canto dos faunos e sátiros, náiades, ninfas, sílfides e sereias, que o habitam e perseguem. Apenas duas rimas declaradas inteiras: a) sem timão e solidão – (sintagma semântico de algo dizível/indizível...(?) – à considerável distância de um terceiro a um oitavo verso; b) ver e ser. Se por um lado outras rimas não se manifestam consoantes, por outro, nada impede que se faça um equilíbrio sonoro o tempo todo, e se registre uma harmonia duradoura no texto “Navegador”, harmonia essa que se desprende dos blocos fonéticos. Podemos chamá-la de rima harmônica, nascida e ouvida, através da sensibilidade, como respiração e transpiração de cada estrofe.

O poema está armado sobre reservas de profundidade, centrado em três pares de olhos que alcançam, primeiros, segundos e terceiros, áreas que aturdem em sua tormenta, com seus monstros e vaguidão, com sua solidão e morte, através de uma cegueira, de uma mudez e de um ensurdecimento, com certeza, de vaticínio. Nem um vocábulo perdido em sonoridade, nem uma palavra desperdiçada em formação e idéia. São versos corajosamente declamados, arrematados por uma reflexão que se detém constatadora e final. O ânimo está vigilante durante quase todo o texto e cede esse lugar de vigília à permanência que pertence à alma, na frase que a tudo define: “...imensidão de ser...” As imagens que nos chegam de um campo poético vêm com o poder de iluminar todas as reclusões da complexa criatura que somos em nosso tropel de eus. Vêm soltar, muitas vezes, nossas fantasmagorias, desnoitadas e madrugueiras, dançarinamente filtradas de lua. Vêm sem procedência e a explicação que lhes dermos poderá tocar de rápido nos detalhes minúsculos que nem de perto correspondem ao corpo inaugural desse campo. Para tal, as imagens hão que ser poetizadas – provindas, escorridas dessa fonte que não pára de jorrar, desse mar que não se basta, dessa pedra que mina o fio da água maravilhada. Trazem o próprio rosto, um rosto que não é de mais ninguém, feição e fotogenia, nuances e variações de seu corpo flexível e de sua alma navegada e navegadora.

Nunca terminamos de ler os belos poemas. Vamos até eles, retornamos, adentramos, mergulhamos em seu caudal de inspiração, colhemos algas e sargaços, conchas nostálgicas e rendadas, as mãos escorrendo de areia, flores boiando aleatoriamente... De cada vez que vamos, em cada vez que estamos, existe algo de novo ou de antigo para registrar mais, descobrir redescobrindo – nervuras de cartomancia, fetiches lunares, polidas unhas esmaltadas, revigorado velho coração... Do mesmo jeito que chegamos ao poema, ele chega até nós, nos incomoda e atinge, aloja-se no bolso do culote, pendura-se na lapela como adereço sinalizador e xifópago... Isso quer dizer que o belo poema atrai sempre, chama muitas vezes, eletriza e deslumbra, convida ao devagar, ao navegar, ao patrulhar caminhos/descaminhos de seu Poeta.

“Navegador” é um texto curto em seu tamanho físico, e desdobradamente longo em seu percurso poetizador. Haja pés e chão pra se tocarem velozmente! Ora é pelo som que o poema age, ora pela idéia, ora pelo não-se-sabe-o-que-seja. Tudo muito solto e preso na gente, sem proezas de intelectualidades: intelectualizar a Poesia é amordaçá-la, algemá-la até, privá-la de seus espaços de libertação... “O conceito dando estabilidade à imagem poética iria asfixiá-la...” O Poeta nem sabe que sabe, e às vezes nada sabe mesmo de contábil e lúcido, desconhece fórmulas e gráficos, extensões e capacidades, velocidades de som e luz... porque o que sente – sente por inteiro, e o abrasa e pacifica, desconforta/conforta, inebria, com suas porções de ar e fogo, seus elixires controversos, transparentes/alucinógenos de água e lua. A busca de expressão é sua guerra/paz que, dessa ou daquela maneira, ajeita sua alma e tenta alcançar aquela de quem lê e ouve. O sonho do Poeta é comum por um lado, porque é mortal e humano, de pura labareda e barro, pó; e incomum do outro, quando convida a ir além de além, ultrapassando normas e barreiras iguais de um cotidiano óbvio. Seu espaço é diferente dos demais e nele, Poeta e sonho se infundem, se confundem, intersolvem e coexistem sensivelmente invisíveis. Para chegar a esse extremo tal de devaneio, não há que se aparelhar de projetos e projetis...Simplesmente é o deixar-se, o consentir-se – sob sentidos apaziguadores guerreiros em uma comunhão total. Trata-se aqui do silêncio da Poesia, que confere a si mesmo o poder de pairar e transcender completamente – naquele que o experimenta.

O título do texto de Nilto Maciel dá nome ao livro a que pertence. É frase temerária, concentrada nominal, sincronicamente adjetiva e substantiva, derivada indiscutível de um termo verbal ao qual se acresce a determinação do sufixo agente – dor (aquele que age...no caso, aquele que navega e dirige sua embarcação – nave/corpo-espírito, através da amplidão do território surpreendente e vário do todo-existir). Visto por outro prisma, o título, nos oferece a possibilidade de um encaixe para duas peças diferentes: navega (verbo) e dor (substantivo-núcleo do sentimento/molde para o sofrimento...) E um acalanto de oceano conduzindo as duas...

Ideias e sonhos amparam os versos do Poeta e neles se inscrevem. Não podem ser radicalmente fortes, romantizadamente fracos e pueris, porque se perfazem e levam consigo o espírito da imaginação, que é titereira, sim, mas não escraviza nunca. Pelo contrário, irá libertar os dois, luminosa e oniricamente, em suas propostas fiéis. Refugiam-se no verso e se salvam, porque esse verso irá recebê-los em seu amplexo e colo de poema, idéias e sonhos que possam crescê-lo no desempenho de infinito.

(Revista Literatura n.º 17, Brasília, dezembro de 1999)
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