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quinta-feira, 26 de abril de 2007

“Te odeio, Fortaleza...” (Edmílson Caminha*)




Assim começa Fortaleza voadora, a seleção de crônicas de Pedro Salgueiro - boa a partir do título, que tanto nos evoca o B-52, bombardeiro americano da segunda guerra, quanto o surrealismo de uma cidade a sobrevoar sua gente... Difícil escrever sobre a terra natal sem a pieguice da louvação, do derramamento fácil, do encanto que transforma em qualidade o que defeito é. Mas, como diria Nelson Rodrigues, ninguém com mais direito de falar mal do ente amado (seja cidade ou mulher) do que o amante... Falar mal, explique-se, com refinamentos de arte, segundo o título da coluna assinada outrora, no Correio da Manhã, por Carlos Heitor Cony.

Na Fortaleza voadora, resgatam-se do esquecimento bairros como Gentilândia e Parque Araxá, criaturas pitorescas como o “homem da cobra” e tipos que não deixam morrer a instituição do “pino”, costume cearense que deveria ser tombado como patrimônio imaterial, à semelhança do frevo em Pernambuco e do acarajé na Bahia. Não há, para os pinadores que têm na prática uma das razões de viver, barreiras cívicas ou mesmo religiosas: há quem declare tê-los visto em ação na platéia das paradas da Independência e até junto às beatas na procissão do Senhor Morto... De figuras assim é que se faz o espírito de uma cidade, a essência de um lugar, a natureza de um povo, por dizerem mais que os monumentos históricos e os discursos políticos.

Com suas crônicas, não desmerece Pedro Salgueiro a tradição do gênero na literatura cearense, em que se destacam nomes com o valor de Rachel de Queiroz, Mílton Dias, Ciro Colares, Guilherme Neto, Caio Cid, Lustosa da Costa e Juarez Leitão, além de outros. Somente obra desse quilate para ter, como revisores, ninguém menos do que Ana Miranda (também autora do excelente prefácio), Tércia Montenegro e Sânzio de Azevedo. Um verdadeiro luxo, dessa Fortaleza voadora que decola possante para voar em céu de brigadeiro...

*Escritor e jornalista, autor de Villaça, um noviço na solidão do mosteiro (1998), Drummond: a lição do poeta (2002) e Pedro Nava: em busca do tempo vivido (2003).
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