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sábado, 18 de agosto de 2007

Restos de feijoada (Nilto Maciel)




















Depois do almoço, Alexandre dormiu. E logo se viu rei. Sim, rei de verdade, rei negro, rei ardente. Seu corpo ardia como nunca, mais do que nos dias de muito calor, de muita febre. Punha a mão no espaldar da cadeira real e logo os súditos gritavam: tire a mão daí, rei nosso, senão o trono pega fogo. Por onde passava, tudo se queimava. O chão se fazia vermelho, feito brasa. Ninguém ousava se aproximar dele. A rainha se esquivava a todo momento. Longe do pai, os príncipes corriam pelos campos, aos gritinhos. Alexandre se irritava com tanto medo. “Têm medo de morrer, desgraçados?” Furioso, agarrava até a morte os súditos mal-educados, mentirosos, impiedosos, desleixados, vaidosos... Aos prantos, os mais covardes se ajoelhavam aos seus pés, pedindo misericórdia. E mais ele os abraçava, ardorosamente. Amarrados pelos pés, os inimigos tremiam ao vê-lo. “Aproximem-se de mim.” Eles não saíam do chão, como se pregados. Os algozes os arrastavam. Os inimigos choravam, berravam, pediam clemência. Porém o rei os atraía e, vagarosamente, os ia queimando. Os inimigos viravam montes de carne assada. “Joguem tudo nas panelas. Hoje teremos feijoada para todo o reino.” Os cozinheiros do castelo haviam posto à sua frente panelões de água temperada. Para que isto, majestade? Para cozinhar os perversos, os maus, os inimigos do nosso reino. Fabricassem grandes caldeirões. Cozinharia todos os inimigos. Faria grandes feijoadas. Plantassem mais feijão preto, engordassem os porcos. Trouxessem feijão, água, toucinho, lingüiça, paio, orelhas e pés de porco, todos os ingredientes da melhor feijoada. E ria, gargalhava, bebia, enchia-se de cachaça, água, ardente como sempre. Súbito alguns de seus melhores amigos, conselheiros e parentes o agarraram e ameaçaram lançá-lo ao fogo ou dentro de um dos caldeirões. Iriam comê-lo com arroz, farofa e cachaça. E gargalhavam.
Então Alexandre acordou, aos gritos, o corpo em brasa. Assustada, Maria correu para junto dele, mãos na cabeça, olhos esbugalhados. Estava doido? Parasse de gritar. Talvez estivesse doido mesmo. Porém sentia muita febre, o corpo em chamas. Assim desde o começo do dia. Havia acordado tarde, a cabeça doendo, o corpo moído. Então voltasse a dormir. “Vou fazer um chá.” Não, não podia ficar em casa, enquanto o carnaval fervilhava na cidade. “Eu sou sambista, minha negra.” E pôs-se a cantar um samba medonho. Maria se irritou. Só podia ser a bebida. Andava bebendo muito. “Eu queria ser jogador de futebol, negra. Queria ser outro Pelé. Jogar no Flamengo. Virar estrela no Maracanã. Não deu certo, não me quiseram.” E os meninos? Ora, os meninos não comiam, não brincavam, não estudavam? Mal, muito mal. “E eu mais mal ainda.” Vivia fazendo faxinas nas casas das grã-finas, por uma ninharia. E ele se embriagando, sambando, sonhando com samba e fama. Acordasse enquanto era tempo. Os meninos se chegaram, chorando. Alexandre se meteu no banheiro. Somente um banho frio, gelado, para aplacar o fogo do corpo. Sentiu tonturas. Febre, muita febre. Maria se apavorou. Nunca um banho. Queria morrer? Fosse direto para a cama. E Alexandre se abraçou aos lençóis. E logo se viu rei. Por onde passava, tudo se queimava.
Um bloco de sujos desfilava pelos becos. Vamos, Alex. É carnaval, negrão. Ele pulou da cama e saiu porta fora. E gritava: eu sou o rei do fogo, eu sou o rei do fogo. Os foliões não paravam de pular, dançar, cantar. Maria gritava: volta, Alexandre, volta, você está doente. Ele dançava, se retorcia, se requebrava. E subitamente caiu, a contorcer-se no chão. Os foliões se puseram a dançar ao redor dele, como num ritual macabro. A mulher e os meninos acorreram e agarraram-lhe pernas e braços. Os dançarinos sumiram. Maria e seus filhos depuseram o corpo no chão da sala. O rei morria, a vomitar pequeninas cabeças, minúsculas mãos, despedaçados corações humanos – restos de feijoada.
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