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quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Para escrever a caminho do nada (Nilto Maciel)

























A pequena obra de Tácito Bonifante, intitulada “A caminho do nada”, pode ser considerada conto, embora alguns críticos tenham falado em novela, conto-novela, novo-conto e quase-conto. O drama principal envolve dois personagens: Agnelo e Beatriz. No entanto Agnelo se confunde com Beatriz, como se fossem um só personagem: “Agnelo saiu de casa ao meio-dia. Vestia paletó preto. Subia os primeiros degraus do patamar da igreja, parou subitamente, ajoelhou-se e gritou: Sou pecadora!” Segundo um professor de literatura, ocorreu aí um erro editorial ou um cochilo do escritor. Para outro estudioso, Agnelo é, na verdade, a própria Beatriz. Lembra este trecho do conto: “Nas noites de sábado ele se transforma. Não bebe álcool, não fuma maconha, mas em seus olhos se vê o brilho das estrelas novas.” Isto é, Agnelo, o cordeirinho, se veste de Beatriz, a que faz feliz alguém.
A história, se é que se pode falar em história, se constitui de intenso conflito interior ora de Agnelo, ora de Beatriz. Contudo não é possível saber qual a relação de parentesco, de afinidade, de amizade entre o homem e a mulher. Seriam casados, namorados, irmãos, pai e filha, mãe e filho, vizinhos, amigos? “Enxugava o rosto Beatriz quando Agnelo passou pela calçada”. Onde se achava a mulher? Terá ela visto o homem? Terá este visto a mulher a enxugar o rosto? Estaria ela chorando? Por que estaria chorando? As manhãs domingueiras de Agnelo são de puro desespero: “Nunca mais me exilarei no reino do Muito Longe. Aqui, neste mundinho, viverei até a morte. No entanto outros sábados virão e eu não terei forças para me agarrar às estacas de minha casa.”
O conflito interior não chega a ser narrado, mencionado com clareza. “Agnelo fechou os olhos. Nunca mais poderia ver aquela mulher.” A que mulher se refere o narrador? Três parágrafos adiante o leitor tem uma vaga idéia de por que o personagem nunca mais veria a mulher: “A viagem se iniciava. Mais dois passos e alcançaria o mar.” Um crítico se refere a suicídio. O homem iria se jogar ao mar. De onde terá arrancado tal conclusão? Desse trecho: “A canção de Dorival me deixa triste.” Refere-se à frase: “É doce morrer no mar.”
Durante toda a narrativa há uma só referência ao mar, o que não credencia o leitor a julgar que o personagem viva no litoral. Em um momento o narrador se refere a seres e objetos, ao ambiente de uma fazenda: “Os bois mugiam e Beatriz se enroscava no lençol. O cheiro de leite inundava o quarto; a mulher gemia. Um galo cantou. Uma voz de mulher cantarolou uns versos antigos. Quando a aurora começou a aparecer, fustigando as vacas rútilas, a alma da mulher desprendeu-se-lhe.” Estaria Beatriz sonhando? Ou imaginando a tranqüilidade de uma fazenda? Veja-se Machado de Assis, do conto “As academias de Sião”: “Quando a aurora começou a aparecer, fustigando as vacas rútilas, Kinnara proferiu a misteriosa invocação; a alma desprendeu-se-lhe, e ficou pairando, à espera que o corpo do rei vagasse também.”
Na verdade, os personagens pervagam, pelo menos psicologicamente, diversos lugares: “Na praça um mendigo dormia debaixo de um banco. Agnelo amassou o jornal e saiu às pressas.” Mais adiante “subiu a escada rolante, a olhar para os lados. Uma jovem descia pela escada ao lado. Mascava chicle. Sorria, como se se lembrasse de um beijo. Ao chegar ao fim da escada, Agnelo parou e sondou o andar de baixo. A moça havia sumido.” Como se monologasse sempre, o personagem deixa a escada e logo está em casa: “Retirou o paletó e se jogou na cama. Virou-se para o teto. A luz da lâmpada lembrava um grande sol.”
Também é impossível medir o tempo da trama, se é que há trama. O homem está sempre de paletó preto ou nu. Terá diversas dessas vestes? Beatriz, porém, aparece de vestido vermelho, de calça azul e blusa branca, de saia amarela, sem roupa, no banho, etc. Ora, poderá ter usado num só dia todas essas roupas. Há referências vagas a pelo menos cinco jantares, que podem ser o mesmo: “Passou mais de cinco minutos a ler o cardápio. O garçom ia e vinha, impaciente.” Em outra cena monologa: “Bife de coelho?” E o narrador reapresenta Beatriz: “Adorava coelhos. Não como iguaria, certamente. Preferia-os vivos, brancos, saltitantes. Olhou para o gato deitado no sofá. Vem cá, meu amor.” Cenas de carnaval há pelo menos três: “O homem arrependeu-se de ter saído de casa. Os foliões olhavam para ele como se vissem um ser estranho. Aquela camisa amarela não combinava com a grande festa.” Sendo assim, seriam pelo menos três anos de história. Ou seria o mesmo carnaval? Talvez não, pois mais adiante “Agnelo vestiu uma camisa listrada.” Poderia ter sido no mesmo dia ou no seguinte?
De volta à questão principal: Beatriz e Agnelo se conheciam? Não há um só diálogo deles. Ela dialoga com um homem sem nome explícito e com outra mulher. Ele parece sempre só. Ela não se refere, nas narrações, a ele, a não ser neste breve trecho: “Um homem chamado Agnelo não poderá jamais gostar de borboletas.” Não explica o porquê dessa afirmativa (ou negativa?). Veja-se o início da narração: “Na floresta vivia um sapo que gostava de borboletas. Ele saltava, pulava, e nada de capturar borboletas. Chamava-se Agnelo. Se fosse homem, talvez colecionasse borboletas.” No entanto o sapo Agnelo não é o personagem do conto. Também ele, Agnelo, narra pelo menos três episódios, e em nenhum deles se refere a Beatriz. A não ser quando dá a uma mendiga o nome de Beatriz: “A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão e saiu. Deixou no chão um cobertor sujo e rasgado. A mendiga se aproximou do banco, olhou para as costas do mendigo, que ia longe, e se apoderou da roupa. Por acaso és dona destes trapos, Beatriz? Como sabes o meu nome? Está escrito em teus olhos. Conduzes a felicidade.” Veja-se a vampirização deste trecho do conto “O Suave milagre”, de Eça de Queiroz: “A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha.” Mas somente isto, porque no mais os dois contos nada têm em comum.
Não há propriamente um desenlace: Agnelo se avizinha da ponte e olha para baixo: “Ninguém é dono de nada.” A frase pode ser dele ou do narrador. Do outro lado da ponte surge Beatriz. Alguns críticos vêem nesse momento o encontro dos dois. Há um sapo na água e dois mendigos à beira da lagoa ou do rio, a banharem-se. Frases sem aparente sentido se embaralham: “Eu sou o que não sou” (Agnelo?), “meus passos me seguem e seguirão” (Beatriz?), “a água se turva e o céu agradece” (narrador?), “desta água beberei” (mendigo?), “banho, véspera da morte” (mendiga?), “o caminho, feito de passos, abria-se para todos os lados, em círculo, como um sem-fim” (narrador?), “aqui estou” (Agnelo? Também a última fala de Jesus, no conto de Eça).
“A caminho do nada” é, talvez, o conto mais enigmático de Tácito Bonifante, uma narrativa que aceita as leituras mais diversas e abriga o doce prazer de ler e querer escrever a história lida.

Fortaleza, 17/6/2004.
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