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domingo, 19 de outubro de 2008

Cidade (Emanuel Medeiros Vieira)

(Em memória do amigo Pingo, que nos deixou nesse outubro)



“A verdade é feia. Temos a arte a fim de que a verdade não nos mate.”
(Friedrich Nietzsche.)


Avisto a cidade – o dia surgido,
planalto seco.


Já não consigo contemplar a vida,
soberano exílio,
em busca de outro mar,
da penúltima gaivota,
da ilha do coração ausente.


Sim, avisto a cidade,
céu sem mediação (parece um teto),
azul pleno,
sol de outubro,
à espera do cheiro de terra molhada depois da seca
(mangueiras em flor),
sempre esperando, sempre.


Avisto a cidade,
os primeiros ruídos,
o cerrado e uma flor retorcida,
um cheiro de morte,
sim, aquele cheiro.


A morte ganha sempre.
(Tem mais tempo.)


Então: uma noite sucedendo-se à outra noite:
sempre.

(Brasília, outubro de 2008)
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