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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Batista de Lima e a arte de seduzir (Nilto Maciel)

(Nilto, Aíla Sampaio e Batista de Lima, na UNIFOR,Fortaleza, Ceará)



Meu irmão Edinardo cursava Letras na UFC, desde 1970. Falava-me dos professores e dos colegas. Porque sabia do meu interesse por Literatura. Mostrava-me livros, cadernos e trabalhos escolares. Um dia, me apresentou o colega Batista de Lima. “Ah, você também escreve? Já conhece o Clube dos Poetas?” Num sábado, tomei umas cachaças, peguei o ônibus na Bezerra de Menezes, desci na Praça José de Alencar e, sorrateiramente, me encaminhei para a Casa de Juvenal Galeno, onde se realizavam os encontros dos jovens poetas. E lá estava Batista, risonho, empertigado, bem vestido, solícito. Fez-me travar conhecimento com Carneiro Portela e outros. Não sei se (ou de quê) me aborreci. Não voltei mais à casa e, durante muito tempo, perdi o contato com Batista. Meu irmão fez concurso para a Caixa, foi convocado para assumir o emprego em Salvador e abandonou o curso. Surgiu O Saco, Batista reapareceu, perguntou por Edinardo. Pouco tempo depois, em 1979, meu irmão faleceu, em acidente automobilístico. Batista concluiu suas letras, tornou-se professor e, em 1977, publicou o primeiro livro, Miranças.

Por esse tempo, mudei-me para Brasília. Minhas amizades, no entanto, se fortaleceram, de longe. Correspondia-me com Batista e outros amigos. Acompanhava-lhes os passos como escritores. Mandava-lhes meus livros, eles me enviavam os seus. Tanto os mais velhos (Moreira Campos, Francisco Carvalho, Alcides Pinto, Artur Eduardo Benevides e outros), como os mais jovens. Diligente sempre, o poeta, vez por outra, publicava uma resenha, um artigo, a respeito de meus livros.

Batista é um cavalheiro do sertão, na sua fala mansa de caririense, no seu jeito de tratar os outros. Elegante no vestir-se, educado no diálogo, bebedor de bom vinho, nem por isso esquece suas origens. Apaixonado pelas coisas do Ceará e, principalmente, pela nossa literatura, leva nossos livros para sala de aula. Quantos e quantos alunos (mas, sobretudo, alunas) tem encaminhado à minha casa, jovens ciosos de conhecer os escritores aqui nascidos. Chegam desembaraçados, sabedores de quase tudo, mas curiosos: “Professor Batista me pediu para ler seu livro tal. Disse tratar-se de obra-prima. Como surgiu esse romance?” Tento corresponder às expectativas do estudante e não decepcionar o amigo.

O poeta de Lavras da Mangabeira, quando tira férias, não vai conhecer a Amazônia, as cidades históricas de Minas ou a Europa. No poema “Conselho”, ele se explica: “Se queres chegar mais longe / para com tantos andares / o mais longe está aqui / perto dos teus calcanhares”). Sabem para onde ele viaja? Para países muito distantes de nós, reinos fora do mapa, como Taquari (“um sítio perdido / entre saudades e distâncias”) e Sipaúbas, onde vivem os trabalhadores dos engenhos. Sua poesia e seus contos estão repletos de povo: “Conheço este povo / porque carrego seu jeito / esquisito de dobrar esquinas / e desdobrar as dores / como se de fibras fossem”. Batista vai a Lavras para ver e ouvir esse povo e, depois, contar (ou recontar) suas histórias. Vai rever primos, tios, parentes distantes, os viventes da Serra Negra.

Ao contrário de muita gente, não anda por aí a falar mal dos outros escritores. Se não pode falar bem (da literatura), prefere se calar. Ou mudar de assunto: “E o novo livro de fulano?” Ele olha para um lado e faz outra pergunta: “Vamos tomar café?” Onde quer que o ouça, seja em palestras (sabe como poucos se comunicar com os ouvintes e os cativa, com seu humor), seja em meros bate-papos em portas de livraria, bares, restaurantes, está sempre de bem com todos. Por isso, para o Mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal do Ceará escolheu como tema a obra de um escritor nascido no Ceará, cuja dissertação resultou no livro A ordem e a desordem na escritura de Moreira Campos.

E das mulheres o que ele diz? Ao contrário de muitos machistas ditos marxistas, só lhes tem elogios. Não vê nelas demônios, como muitos de nossos piedosos cristãos. São todas lindas, inteligentes, sensíveis. São todas Florbela, Rachel, Clarice, Ana Miranda, Tércia. De igual modo, ama as mulheres comuns, as sertanejas. Estão todas elas em seus poemas e contos.

Batista é um sedutor de mulheres e homens. Não há quem dele desgoste. Se há quem não se encha de admiração por sua literatura, essa pessoa certamente o admira como ser. Batista é um enamorado das palavras, de versos e prosas. É um encantador de platéias também. Quase mágico. Certa tarde, em Sobral, num auditório da Universidade do Vale do Acaraú, estivemos no mesmo palco. Falei, aos tropeços (lendo, porque não sei falar de improviso) por alguns minutos, de nossos narradores mais antigos: Oliveira Paiva, Adolfo Caminha... Os cinquenta ouvintes do início da palestra se reduziram a vinte, quando alcancei o Grupo Clã. E eu ainda pretendia falar da revista O Saco, do grupo Siriará, dos contistas novos. Olhei para a platéia. Restavam dez estudantes sonolentos. Então Batista veio em meu socorro. Sem precisar de microfone, sem uma folha de papel, de pé (eu me achava sentado, desde o início, porque as pernas tremiam), pôs-se a falar do Cariri, do povo sertanejo, de suas miranças. E logo o recinto se foi enchendo de estudantes, professores e funcionários. Passados cinco minutos, não havia mais cadeira vazia. E os aplausos ressoavam fortes, vibrantes. Pediu uma salva de palmas para mim.

Fortaleza, 1º de setembro de 2009.
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