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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Complexo e imperfeito (Manuel Soares Bulcão Neto)

(Michelangelo, A criação do mundo)


Dias atrás assisti ao filme “Reflexos da Inocência”, do diretor britânico Baillie Walsh. Surpreendeu-me o trecho em que uma menininha, sentindo-se injustiçada em casa, pergunta ao jovem Joe Scot (Daniel Craig): “Quantos dias Deus levou para fazer o Mundo?”. Joe respondeu conforme a letra do Livro: “Em seis dias. No sétimo descansou.” A criança, então, blasfemou: “Se Ele fosse menos apressado, teria errado menos. Eu mesma faria melhor!?”

De fato, assim é o mundo: complexo, imperfeito e, provavelmente, incognoscível em seus fundamentos. Quanto a Deus, creio que somente o fato de existir algo em vez de nada ainda O sustenta como hipótese logicamente válida: seria o Deus razão-de-ser de Leibniz ou, consoante os Upanixades (seções conclusivas e filosóficas dos Vedas), “a base de todo o ser; a realidade última que possibilita o tempo, o espaço e a ordem natural.”

Ocorre que tal divindade não dá sinal de qualquer benevolência, preocupação com nosso bem-estar ou atenção às orações dos crentes. Comporta-se tal como a Vênus colossal de Baudelaire: enquanto nós, bufões aos seus pés, imploramos atenção, ela, “a implacável, olha para longe, vagamente, com os seus olhos de mármore”.

Por isso que – sustentam os deístas – se Ele ainda atua em Sua criação, o faz de forma indireta, através das leis naturais.

Mas como operam essas leis? O biólogo François Jacob, referindo-se especificamente às da evolução (seleção natural, mutação e deriva genética), afirmou que seu modo de operação nem de longe lembra a atividade inteligente de um engenheiro. Na verdade, sua astúcia e imprevidência é algo típico de um “engenhocadeiro” que, sempre que surge um problema, resolve-o com improvisações e meias-solas. Por isso que os organismos vivos, em boa parte dos casos, consistem em geringonças cheias de gambiarras e à beira de um curto-circuito. (É o que explica, em parte, o número enorme de espécies já extintas, muito além do razoável.)

O mesmo vale para o mundo dos homens, a começar por seu sistema cérebro-mente: a estrutura mais complexa de que se tem conhecimento, talvez mais complicada que o sistema matéria-gravitação (universo) que lhe deu origem. Não é necessário gastar muito verbo para demonstrar quão precário é o nosso artefato de sentir e pensar. Para tanto, basta lembrar o seguinte: a) Os paleontólogos calculam em milhões de anos a média de vida das espécies de vertebrados fósseis; b) O “Homo sapiens” moderno é uma espécie infantil: conta com apenas 200 mil anos de idade, aproximadamente; c) Não obstante isso, devido à nossa inteligência “irracional” – característica equivalente à “burrice” de certos vírus, que destroem seus hospedeiros e, consequentemente, a si mesmos – já criamos as condições para o nosso extermínio prematuro: mudanças climáticas antropogênicas que apontam para catástrofes iminentes; um arsenal bélico capaz de destruir a vida na Terra não uma ou duas, mas dezenas de vezes. — Destarte, só com muita sorte sobreviveremos por mais mil anos.

Há, no entanto, algo inusitado no complicadíssimo espírito humano: o fato de que, embora imperfeito, anela a perfeição, razão pela qual, como indica a tristeza da menininha da película inglesa, sentimo-nos desconfortáveis dentro deste universo, pequeno demais para acomodar nossa imaginação matemática e poética. (Sim, Drummond, você tem razão: o mundo é vasto, porém mais vasto é o coração.)

Para concluir, volto à questão da existência de Deus, só para dizer que, como agnóstico, concordo com Buda. — No romance “Criação”, de Gore Vidal, há um trecho em que um discípulo pergunta ao Mestre se os deuses existem. Buda, sem pestanejar, responde: “Pode ser que os deuses existam, mas não devemos nos preocupar com eles, já que eles não se preocupam com a gente.”


Crônica publicada no jornal Diário do Nordeste em 24/10/2010.