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sábado, 6 de novembro de 2010

Dois livros de Cláudio B. Carlos (Nilto Maciel)



Até o mês passado, eu não sabia de Cláudio B. Carlos, como não sei de dezenas, centenas ou mesmo milhares de escritores brasileiros que publicam livros por pequenas editoras ou se contentam (talvez este não seja o verbo apropriado) com mostrar suas obras em blogues (revistas eletrônicas). Muitos nadam há anos nas águas turvas da mediocridade. E se sentem semideuses. Outros conseguem alcançar lagos de águas límpidas. E se sabem capazes de nados olímpicos. Cláudio B. Carlos é um destes. No entanto, aqui não falarei dele. Quero apenas me referir a dois de seus livrinhos (cerca de cinquenta páginas cada; e seria muito menor o número, se a parte impressa da página fosse maior): Um arado rasgando a carne (2005) e O uniforme (2007), ambos pela Editora Maneco, de Caxias do Sul.

Não sou lá muito apreciador dos chamados minicontos. Muitos deles não passam de piada. Qualquer frase curta vira microconto (na cabeça do milagreiro escritor). Realizar boa narrativa curta é tarefa das mais custosas. Nem o melhor dos santos encontra facilidades nela. Cláudio não é santo, não faz milagre, mas consegue fugir do dito engraçado. Em primeiro lugar, porque sabe escrever, manejar as ferramentas do idioma, mesmo quando quer ser gaúcho autêntico, como em “Ao estilo Julián Murguía” (escritor uruguaio que não conheço). No mais, escreve como brasileiro, sem sotaque sulista, embora sejamos todos filhos da mesma pátria: Simões Lopes Neto, Alcântara Machado, Guimarães Rosa, José Lins do Rego...

Saber escrever não é tudo: Cláudio sabe ser contista, do título ao desfecho. Vejamos “Réquiem para Adalberon”. Em 17 linhas, pinta – parecem rabiscos, traços fortes, como se rasgassem a tela – um momento da vida de alguém (narrador sem nome explícito): a visão do corpo de Adalberon “pendurado na velha figueira”. Nenhum comentário, nenhuma fala. Quase nada: “Galinhas, ao derredor da casa, ciscavam alheias”. Mais duas ou três frases (“enrolei no poncho e o plantei próximo aos eucaliptos”) e fim do fim: “O cusco seguiu-me na modorra da tarde que se extinguia...”.

No conto breve, o escritor precisa não ser apressado. Não contar tudo no título. Esconder do leitor o desenlace, sempre necessário. Conto não deve parecer notícia. Nesta, não interessam ao leitor as galinhas que ciscam no terreiro. No conto, são essenciais.

Contraditoriamente, na peça mais longa, o narrador até poderá acelerar o passo, para não enfadar (como nos contos de fada) o leitor. Muitos romances bons causam enfado. Porque assim deve ser. Ou só assim pode ser.

Há, nos dois volumes, narrativas (assim Cláudio denomina suas pequeninas histórias) de alto teor literário, poéticas, insubstituíveis: “Chão de pregos em brasa”, “O jantar do comendador”, “O que se chama amor”, “O Deus”, “Anandaiê”, “Quem ama o feio...”, “Putrefacto”, “Olhos de cortar cebola”, “O espetáculo”, que destaco. Algumas curtinhas; outras, nem tanto.

Cláudio B. Carlos não é um contador de histórias. É um contista. Entretanto, como tantos outros, aqui e ali se deixa levar pelo enredo fácil ou óbvio e até pela piada, como em “O sorriso do avô Arthur”, “A nossa senhora”, “O novo santo”, “Cão que ladra...”, “O cu” e mais alguns. Ou seja, nem tudo são flores. Do caule rugoso ninguém escapa. Machado não escapou.

Fortaleza, 5 de novembro de 2010.
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