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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Conversa com Wilson Gorj

Nilto Maciel


(Wilson Gorj)

Conheço Wilson Gorj há pouco tempo. Encontrei-o em omuroeoutraspgs.blgospot.com (mantido por ele). Sua dedicação ao microconto me chamou a atenção. Passamos a trocar ideias e livros. E o convidei a me conceder uma entrevista. Em sete dias deste novembro de 2010 enviei-lhe perguntas e recebi respostas, por correio eletrônico. E aqui está a teor da conversa.

Wilson Gorj (1977 - Aparecida, SP) é autor dos livros Sem contos longos (2007) e Prometo ser breve (2010), ambos constituídos de micronarrativas. Tem participação em várias antologias, revistas e sites. Obteve alguns prêmios, como o de finalista do Mapa Cultural Paulista 2010 (categoria: crônica). Por seis vezes esteve entre os premiados do Concurso de Contos “Aconteceu em Aparecida”, classificando-se, por três anos consecutivos, em primeiro lugar. É membro-fundador do Grupo Valefoco, formado por poetas e escritores que buscam fomentar a literatura no Vale do Paraíba. Escreve para os jornais O Lince e Comunicação Regional. É editor do selo 3x4 microficções, da editora Multifoco/RJ.

Entrevista

NM – Quando/como começou em você a "vontade" de escrever contos curtos, curtinhos, os chamados minicontos, microcontos, nanocontos? Quem/o que detonou o estopim em você?

WG – Alguns fatores contribuíram para que eu me concentrasse nos minicontos. A prática deles começou meio sem querer. Sempre me ocorreram ideias literárias, as quais eu transformava em sinopses e, mais frequentemente, em episódios e fragmentos, aproveitáveis talvez em algum conto futuro ou quem sabe (imaginava eu) num possível, para não dizer improvável, romance. Creio que assim, involuntariamente, ensaiava meus primeiros passos na direção dos minicontos. Depois, com a prática e a confiança em minha escrita, apliquei-me na confecção de contos mais elaborados. Ganhei alguns concursos, mas me sentia muito insatisfeito com a qualidade dos meus textos. Tal insatisfação levou-me a procurar auxílio nos conselhos de escritores renomados: tornei-me um leitor compulsivo de entrevistas literárias; fuçava a internet à cata de possíveis técnicas e recursos que pudessem melhorar o estilo e aprimorar a escrita; adquiri livros sobre a arte de escrever. Dos conselhos dados pelos autores percebi que o mais recorrente era a busca pela clareza e concisão. “É preciso saber cortar”, “corte sempre”, “não tenha dó de extirpar do texto aquilo que não lhe faz falta” – eram as dicas com a quais eu mais me deparava. Resolvi seguir o conselho. Amolei meu senso crítico e me pus a cortar as excrescências de alguns contos alongados. Um deles, então, após uma boa podada, chegou a faturar o primeiro lugar num concurso municipal. Com o prêmio, recebi o convite para escrever em um encarte cultural, que depois se transformou no Jornal O Lince, para o qual até hoje escrevo (quase sempre, minificção). Do dono do jornal, o prof. Alexandre Barbosa, também veio o incentivo para publicar meu livro, o Sem contos longos, todo feito de micronarrativas – boa parte delas publicadas anteriormente nas páginas d’O Lince. E foi assim que os textos minimalistas tomaram conta da minha produção literária.

NM – A prática do miniconto pode levar o escritor a se repetir ou a se tornar chato? Muitos "minicontistas" (este vocábulo já foi cunhado?) se tornam meros piadistas. Você não teme se tornar um escritor de piadas?

WG – Tornar-se chato e repetitivo é um risco ao qual estão sujeitos escritores de todos os gêneros. Chatice e repetição não decorrem necessariamente de formatos e tamanhos, mas principalmente da falta de motivação e criatividade. Muitos autores se forçam a escrever sobre qualquer coisa que lhes ocorra durante a escrita; não partem de uma idéia para escrever seus textos; em vez disso, vão encadeando palavras e palavras na expectativa de que a ideia surja em meio ao emaranhado de frases gratuitas; certamente reside aí o perigo da repetição, da chatice. De uns tempos para cá, tenho recorrido à escrita apenas quando me ocorre uma ideia que valha a pena, ou melhor, a tinta, pois meus textos são paridos à caneta (o computador é onde se desenvolvem). Às vezes passo dias sem escrever uma única linha; a mente seca, estéril. E mesmo quando ela entra no cio, depois de fertilizada por algum pensamento, evito precipitar no caderno a ideia concebida. Deixo-a em processo de gestação. Se for fraca, o aborto será espontâneo; se não, a caneta fará sua parte. A maioria das minhas ideias nascem travessas, brincalhonas. De onde concluo que o humor seja meu gene predominante. Daí muitos dos meus minicontos soarem como piada. Alguns, suponho eu, conseguem transcender este caráter meramente anedótico. Nestes casos, o humor é apenas um meio, não o fim. A piada, então, torna-se uma máscara a encobrir algo mais profundo.

NM – A criação do blogue “O Muro & outras páginas” é consequência de sua dedicação ao miniconto. Imaginemos os muros das cidades, as pichações. Os muros são o papel onde se escrevem frases de amor, de protesto ou de mera revolta dos desajustados socialmente, dos renegados, dos que não têm voz. É isto ou não? O miniconto é um gênero literário ou um subgênero?

WG – O nome do blog é uma referência a um dos minicontos do meu primeiro livro, o Sem contos longos. Conta a história de um escritor que não consegue encontrar publicação para suas obras. Isso o leva a recorrer às pichações. Termina assim: “Até ser apanhado em flagrante, fez dos muros da cidade as suas melhores páginas”. Obviamente que o escritor deste miniconto pertence a uma época anterior à internet. Afinal, nos dias de hoje, há meios mais eficazes de os escritores exporem seus textos. Os blogues se prestam melhor à literatura do que os muros.

Em resposta à outra pergunta, lamento, mas não tenho muito a acrescentar. Saber se o miniconto é um gênero ou subgênero, é uma questão à qual sou indiferente. A mim, interessa escrever minhas histórias da melhor forma que posso, sempre me norteando pelo critério da concisão. Busco ser conciso sem, no entanto, me prender a convenções de tamanho como, por exemplo, o número de caracteres que distingue um microconto de um miniconto, ou este de um conto. São regras que não me interessam.

NM – Quem você destaca na prática do miniconto? Dalton Trevisan está entre os seus mestres? Fora do Brasil onde mais se pratica este gênero?

WG – Sem dúvida, há em nossa literatura autores que se destacam como minicontistas. Alguns deles, inclusive, foram publicados pelo selo 3x4 microficções, da editora Multifoco, RJ. A quem quiser conhecê-los recomendo o blog do selo: . Além desta, outra referência on-line é a Revista Veredas, editada pelos escritores Marcelo Spalding e Ana Mello, também expoentes da micronarrativa brasileira. A bem da verdade, não nos faltam autores cujos minicontos merecem destaque: Marina Colasanti, José Eduardo Degrazia, Eno Teodoro Wanke, Elias José, Leonardo Brasiliense, para citar apenas os nomes que agora me ocorrem. Dalton Trevisan também é outra referência. No entanto, prefiro identificar meus mestres para além dos minicontistas. Machado de Assis, Graham Greene, Galeano, Borges, Nabokov, Quintana, Pessoa... Enfim, busco tirar proveito de tudo que leio. Desta leitura variada se nutre a minha escrita e, consequentemente, meus minicontos.

De fato, o Brasil não é o único lugar onde o miniconto tem encontrado praticantes. Argentina, Colômbia, México, Venezuela, Espanha e Portugal são países em que a microficção vem se projetando significativamente e, pelo que apurei, alguns deles levam vantagem em relação à projeção em nosso país.


(Wilson Gorj)

NM – No início desta conversa, você falou em romance. Há mesmo o projeto de escrever um romance? Na fala acima, você diz que prefere identificar como mestres Machado, Pessoa e outros poetas, romancistas e contistas que não são (ou foram) praticantes do miniconto ou minipoema (exceção, talvez, do Quintana). Há, em você, o entendimento de que romance, conto longo e poema mais encorpado são obras mais elaboradas do que minicontos e minipoemas?

WG – Por enquanto não tenho nenhum projeto de romance. Tenho, sim, algumas ideias, um monte de esboços e rascunhos. Pode ser que um dia eu empreenda a produção de um enredo com mais fôlego e elaboração. Pode ser, mas não me frustrarei se isso não ocorrer. No meu entender, não é a extensão ou a categoria de uma obra que a torna superior à outra. Se há uma escada de evolução literária, os degraus certamente não são formados por gêneros ou tamanhos. Evoluir como escritor é aprimorar-se, elevar o nível da escrita, buscar um texto cada vez envolvente e eloquente, não importa se curto ou longo. A mim é preferível ver uma idéia estourar em uma única frase a vê-la diluída em muitas. Prefiro a certeza de que escrevi alguns minicontos bons a suspeita de ter publicado contos ou romances ruins.

NM – Há minicontos famosos, repetidos, imitados, como aquele do dinossauro (Monterosso), um de Hemingway, além daqueles mais espichados, com cerca dez linhas, como alguns de Kafka. Apesar disso, o miniconto parece não ter alcançado o prestígio do haicai. Como você isso?

WG – O miniconto (ou micronarrativa, como se convencionou chamá-lo) ainda terá o merecido reconhecimento. Em outros países isso não está longe de acontecer. Na Colômbia, por exemplo, há seis anos realizam um Congresso Internacional de Minificção. Pelo visto, ao menos por lá, os minicontos alcançam prestígio. Por aqui, é só uma questão de tempo. Até porque o haicai, a que você se refere, não se firmou da noite para o dia. De Bashô a Leminski permeiam quase dois séculos e meio de literatura. Cito, ainda, outro grande poeta nosso, igualmente associado ao haicai: Guilherme de Almeida. O que poucos sabem é que este deixou um pequeno livro cujos textos podem perfeitamente passar por minicontos (Histórias, talvez – Edições Melhoramentos). Aliás, não só o “Príncipe dos Poetas”, mas até Drummond publicou uma obra semelhante: Contos plausíveis, Editora Record. À época dessas publicações, esses textos curtos não eram apresentados (como atestam os referidos títulos) como minicontos. Tivessem sido lançados agora, aposto que não escapariam a essa associação.

NM – Em entrevista publicada recentemente, Vítor Nascimento Sá, do site Verbo 21 fez a seguinte pergunta a Astrid Cabral: “Nesse tempo de muita informação em pouco tempo, proliferam-se as modalidades de literatura curta (o miniconto, o microconto, os haicais) e o uso de diversos suportes como alternativas ao livro (os sites, blogs, microblogs). Qual o destino da literatura? Isso é algo que lhe preocupa?” E a poetisa respondeu assim: “O futuro da literatura não me preocupa. Acho que o ser humano, em que pesem as mudanças contínuas, preserva uma identidade de eterna insatisfação. Assim sendo, a arte e a religião são sempre absolutamente indispensáveis para suprir a sede da alma. A remotíssima história sempre nos apresenta formas do uso superior e não utilitário da palavra, hinos religiosos, oráculos, cânticos de trabalho, de guerra, de embalar crianças. Digamos que as formas e os suportes mudam ao correr dos tempos. Passamos dos tijolos cuneiformes da Babilônia aos e-books cibernéticos, mas o ímpeto criador e o pensamento feito palavra sempre sobreviverão”. Como se participássemos de um debate, como você responderia a pergunta?

WG – Não creio no fim da Literatura, mas prevejo-lhe, talvez, um destino parecido ao da Música Clássica, hoje delegada a um público ainda mais restrito do que em outras épocas. É notório que a Literatura vem perdendo terreno para outras formas de entretenimento e expressão como a televisão e a internet (embora esta última também lhe conceda novos espaços). Mas isso não chega a me preocupar, pois sei que a Literatura é insubstituível, insuperável. É mais do que divertimento e fonte de informação. É, sobretudo, libertadora. O convívio com os grandes livros nos liberta da estupidez: dos limites que esta nos impõe. Reafirmo o que disse em outra entrevista: no meu conceito a Literatura está acima da religião; se esta pretende nos salvar, tornando-nos melhores, aquela realiza esse propósito com mais competência e profundidade. A Literatura nos melhora porque potencializa nossas faculdades (expande nosso conhecimento, aguça nossa sensibilidade, dilata-nos a capacidade de compreensão e discernimento) e descortina novos horizontes, outras perspectivas.

NM – É possível alguém escrever mil minicontos bons? Ou, de um total de mil, poderão se salvar apenas dez, vinte ou mesmo cem? Parece-me que minicontos são meros exercícios de escrita. Entretanto, toda obra literária (artística, lato sensu) tem muito valor para seu autor. É o possível para ele. Os Lusíadas, para Camões; Dom Casmurro, para Machado; Ulisses, para Joyce. Pois o poeta português “só” escreveu “um” grande poema, embora sejam grandes todos os seus sonetos e poemas menores (em número de versos). Machado “só” escreveu quatro ou cinco romances excelentes. Joyce compôs “apenas” dois ou três romances fundamentais. São obras canônicas. Por outro lado, milhares de romances dos fulanos, milhões de contos dos beltranos, bilhões de poemas dos sicranos, que não são reconhecidos pelo cânone literário, são publicados infinitamente em livros, jornais, revistas e agora em blogues. A grande maioria dos minicontos não é apenas isto: o lixão da literatura?

WG – De certa forma, todo texto é um exercício de escrita, principalmente para quem está começando. Os minicontos, porém, são mais do que isso; pelo menos, para mim. Muitos dos meus textos demoram meses para ficar prontos. Dedico a eles o mesmo tempo e empenho que dedicaria a um conto ou romance. Às vezes acerto com eles, outras não. A probabilidade de escrever mil minicontos bons não é menor do que a de escrever mil poemas bons. Contudo, acho natural que se aproveite pouco do muito do que se escreve. Também é natural que dos textos aproveitados para publicação nem todos encontrem reconhecimento ou, quiçá, alguma permanência. A mim, no entanto, não me preocupa “permanecer” como escritor. Afinal de contas, se a posteridade não se lembrar de mim como tal, não estarei aqui para me frustrar. Mais do que o futuro, interessa-me o presente. Interessa-me escrever – e fazê-lo da melhor maneira que posso, eis tudo. Se escrevo minicontos é porque me dão prazer, me instigam, me provocam e, sobretudo, me estimulam a investir na literatura. Agora, se o que escrevo merece apreço ou desprezo, se deve ser mantido ou descartado, caberá o leitor decidir. Aliás, se encontrássemos este tal “lixão da literatura” seria difícil retirar de lá os minicontos imprestáveis, pois esses se perderiam na esmagadora profusão de outros textos ruins – romances, contos, poemas, crônicas – que nele já foram depositados.

Fortaleza/Aparecida, novembro de 2010.
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