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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A obra poética de Iacyr Anderson Freitas

Nilto Maciel


(Iacyr Anderson Freitas)

Conheço a poesia de Iacyr Anderson Freitas desde os seus princípios, em 1982, ano de publicação de Verso e palavra. Um dos melhores poetas brasileiros surgidos no final do século XX. Recentemente, recebi dele quatro volumes: Quaradouro (São Paulo : Nankin; Juiz de Fora,MG: Funalfa, 2007); Primeiras letras (Nankin; Juiz de Fora, MG: Funalfa, 2007); Viavária (São Paulo: Nankin; Juiz de Fora,MG: Funalfa, 2010), os três com o mesmo formato gráfico; e Terra além mar (“Impresso no mês de Abril de dois mil e cinco”, em Portugal, “mantida a ortografia do Português do Brasil”). Os dois primeiros, mais A Soleira e o Século, formam a “tríade” de sua obra poética reunida.

Quaradouro

Primeiras letras são a reunião dos seis primeiros livros do poeta. No prefácio, Donizete Galvão (outro grande poeta publicado a partir dos últimos anos do século passado) explica a gênese deste livro: “Primeiras letras, com livros escritos nos anos 80, preserva o coloquialismo, a concisão, o frescor dos instantâneos da vida quotidiana. (...) O poeta usa o humor, a ironia, o poema piada, o epigrama com mão certeira. (...) Ao lado desta vertente mais fincada na realidade mineira, a voz poética de Iacyr vai se encaminhando para uma dicção mais elevada, ambiciosa, de sondagem existencialista”.

Em Viavária, Iacyr “deambula por muitos caminhos, no espaço e no tempo, nos quais a única coisa fixa, o centro e o cerne, é exatamente a sua voz”, afirma, no prefácio, o poeta Alexei Bueno. Que o encerra assim: “Um dos nomes centrais entre os poetas brasileiros nascidos na década de 1960 – geração à qual auguro, em causa própria, grandes realizações, em meio à aridez intelectual que nos assedia – Iacyr Anderson Freitas acrescenta, com este livro, mais um título de primeira ordem à sua obra de exemplar coerência”.

O quarto livro do pacote, Terra Além Mar, é também uma antologia poética. Em verdade, toda livro é uma antologia (seleção feita pelo autor), no sentido de que se trata do melhor do escritor em determinado período de elaboração de poemas, contos, crônicas, seja lá que gênero for. A “selecção” (trata-se de edição lusitana, ou seja, “para o público português”) desta é de Ozias Filho. A apresentação coube a outro poeta, o português Amadeu Baptista.

Para quem gosta de poesia “densa e limpa”, como escreveu Andityas Soares de Moura; para quem torce o nariz para aquela poesia dita popular, dionisíaca, anárquica, sem eira nem beira, de versos chinfrins, sarrabiscos de clichês, nada melhor do que um poeta como Iacyr Anderson Freitas.

Fortaleza, dezembro de 2010.
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é a reunião de quatro livros de poesia publicados nos anos 1990 por Iacyr: Lázaro, Messe, Primeiro Livro de Chuvas e Sísifo no Espelho. Da mesma época é Mirante (1999), que o poeta decidiu incluir no “primeiro estágio editorial de minha poesia reunida”. Neste Quaradouro há um breve estudo de Affonso Romano de Sant’Anna, assim iniciado: “A poesia de Iacyr Anderson Freitas se insere numa determinada tradição órfica. (...) Nesse tipo de poesia, a voz do poeta se confunde com a voz interior e inconsciente do leitor ou ouvinte. Alguém está falando, aparentemente de fora, mas algo está ecoando no receptor. Assim, o texto órfico faz falar o próprio ouvinte pela voz do outro. (...) Sendo genuinamente órfica, há na poesia de Iacyr algo de hierático, de nobre. Não tem o prosaísmo banal dos textos dionisíacos que despedaçam e fragmentam o cotidiano numa desmesura anárquica e furiosa. Seu texto não compactua com algo que anda sendo publicado por aí como se fosse prosa entrecortada, sem qualquer noção de eficiência do verso como unidade rítmica-formal”.