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sábado, 26 de junho de 2010

Fugit (Aníbal Beça)


Mas então era isso?
Melhor que não fosse.

Mas como fugir dele
que voa sem asas, mas voa,
enquanto fico fincado
sem ao menos saber
se parto ou se fico
sem o arbítrio da deliberação?

Ah, mel do engano!
Por que me adoçaste
com a prepotência
veloz dos resignados?

Por que não me soltaste
junto à turba perdulária
dos que souberam
queimar etapas
na fogueira da intensidade
caldeirão
de tempero imediato?

Uma andorinha solitária
passa veloz no seu compasso de asas.

Será a mesma do último solstício?

Não importa.
senão o que ela empresta
do impulso viageiro tardio
levando não os meus pés
mas meus olhos
que se alçam sedentos
céleres
para conspurcar
lugares longínquos

O que não ousei com os pés
– caminhos que não pisei –
meus olhos alcançam por mim
deixando pegadas aladas
impressas no lençol do dia
no onírico leito do ócio indormido.

Ele
que descubro
Senhor das coisas
do nada e de tudo
do silêncio e do vazio
me diz sem muita cerimônia:
Passou.

E nada mais disse.
/////

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Minhas leituras de Saramago (Viegas Fernandes da Costa)

Recém havia saído da adolescência e, por uma razão ou outra, li Ensaio sobre a cegueira. Não que isso importe algo, essa experiência que tenho da leitura dos textos de Saramago, mas diante da intransigência da morte e do sentimento de impotência que esta nos imputa, não vejo por onde me rastejar senão pela memória das impressões que o universo saramaguiano me concedeu. Então, como dizia, li o Ensaio sobre a cegueira e pude compreender a potência de uma literatura visceral e honesta. Não se é possível ler tal texto, parábola de nossa condição humana, sem a sensação de se ter vivido uma experiência que lacera o espírito e nos envergonha de nosso individualismo e imobilidade, que mascaramos com gestos vãos e palavras estéreis. Ensaio sobre a cegueira me desloca, sempre, ao genocídio tutsi em Ruanda, ao genocídio palestino perpetrado sob nossos olhos ocidentais e hipocritamente cegos, ao silêncio a respeito do povo de Timor Leste e às vítimas dos desgovernos e terremotos no Haiti, cuja capacidade de comoção duram o tempo de uma passarela, porque enfastiados de vermos as mesmas ruínas, buscamos saciar nossa eroticidade mórbida em outros charcos de sangue, em outras postas de carne humana desmembradas de seus corpos. Assim, sempre houve esta sensação de vergonha e culpa, sim, vergonha e culpa, que este primeiro contato com um texto de Saramago me provocou.

Movido pela inquietude provocada por esta primeira leitura, busquei mais. Foi quando me tocou o corpo o Memorial do convento. Marcou-me a poesia de um certo padre Bartolomeu, inventor de herética geringonça alada movida pelas vontades humanas que seu ajudante, Baltasar Mateus, colhia em um frasco em meio à multidão. Claro está, não há melhor combustível que faça voar um sonho senão a vontade humana. Entretanto, esta escapa-nos do corpo tangido pela necessidade de sobreviver. Memorial do convento ensinou-me que não há humanidade onde as vontades dão lugar à necessidade, onde se confunde sonho com devaneio. Sei que não cabe à literatura dar lições. Não, claro que não. Entretanto, o diálogo que estabeleço, enquanto leitor, com as provocações de um texto, apesar de socialmente construído está profundamente marcado pela subjetividade. Por isso posso reconhecer que sempre serei grato a Saramago por tudo que aprendi com Blimunda, Baltasar e Bartolomeu, personagens centrais desse seu Memorial. Grato por compreender aquilo que afinal nos constitui tão únicos, mas que nos foge quando tangidos qual gado a mover a roda do engenho.

Feitiço lançado, segui estupefato o fio de Ariadne, acompanhando os passos do Senhor José – o personagem – pelo labirinto de prateleiras vergadas e empoeiradas da velha Conservatória, guardiã do esquecimento. Falava Saramago – o autor – nas páginas que me remeteram a um Kafka revivido para concluir sua obra, tão tensa e intensa a trama e a fábula de Todos os nomes. Como possível uma história tamanho extraordinária? – a questão que me incomodava a cada linha sem pontuação que se desdobrava ante meus olhos de criança deslumbrada! Criança deslumbrada, com o perdão do pleonasmo, porque não há infância sem deslumbramento. Pensei ter lido o cume; engano! Indisciplinado, encontrei-me com um Cristo humano e carnado que, reconheço, quase me convenceu. Ironia do insólito! Como um ateu declarado podia reescrever uma história dois mil anos recontada e ainda assim torná-la inédita? E mais, como podia este mesmo ateu, ourives da palavra, construir uma das mais poéticas e profundas passagens da literatura universal, conquista sublime do espírito humano, quando nos transporta para o interior de uma barca atracada no centro de um mar tomado por intransponível nevoeiro? Saramago enfrentou Deus! Desfiou-nos um rosário de martírios e barbáries inconcebíveis e inexplicáveis capazes de dobrar as ambições do Diabo que, como Pastor que é, intervém junto a esse Deus sanguissedento em nome do perdão. A resposta? "Para que eu seja o Bem, é necessário que tu continues a ser o Mal"  – ei-la! Espernearam os guardiões do cristianismo. Saramago não fora o primeiro, é certo. Kazantzakis fizera-o antes, tal qual tantos outros. Entretanto, a lucidez e os argumentos do velho comunista moveram o catolicismo português a tentar intervir no reconhecimento literário daquele que viria a ser o primeiro autor da língua portuguesa laureado com o Nobel de Literatura. Mágoa e exílio na insular Lanzarote, onde o mestre da palavra conheceu a diferença entre estar e não já não mais estar.

Depois do Evangelho não houve texto de Saramago que não me interessasse ler. É bem verdade, reconheço, que nem tudo foi deslumbramento. No Ensaio sobre a lucidez, por exemplo, a impressão de um resvalo planfetário; e em Caim, o gosto de uma sopa requentada. Neste meu rastejar pela memória das impressões que o universo saramaguiano me concedeu não há espaço para o desonesto, por isso o registro. Mas não há nada como o bom estro de um artista que se reinventa, e houve a história do Elefante Solimão e seu cornaca Subhro, escrita após grave enfermidade nos estertores de 2007. Ocorreu-me, à época dessa leitura, o pensamento de que a carícia da morte devolve-nos uma leveza e um certo humor que perdemos com o transcorrer dos anos. Isto porque em A viagem do elefante encontrei um Saramago mais leve, consciente da importância da sua literatura, porém ciente, também, de que talvez já tivesse dito o que havia para se dizer, e que àquela altura da sua vida e carreira importava mesmo o prazer de escrever uma boa história. E que boa história, tão repleta de sutilezas e ironias!

Enfim, soube que já não está mais. Morreu o corpo de José na manhã de uma sexta-feira, ao lado da mulher que amava. A mim ocorreu-me, então, reler o discurso que proferiu quando da cerimônia de entrega do prêmio Nobel, em 1998, e onde inicia dizendo que o homem mais sábio que conheceu em toda a sua vida não sabia ler nem escrever. Conta ali a história dos seus avós maternos que, nos dias de muito frio, levavam os porcos mais frágeis da pequena criação para dormirem consigo, sob o calor das mantas grosseiras. Alertou-nos Saramago, ao narrar a tradição ágrafa da família que o apresentou ao mundo, que o verbo não se determina nos gens. Que o gênio se constrói na experiência e na coerência. E assim o fez! Neste mesmo discurso, reconheceu que sua voz ecoa nas vozes das suas personagens. E se dizia que a morte era a diferença entre estar e já não mais estar, o Saramago que se consagrou à palavra, que se multiplicou nas Blimundas e nos Raimundos, nos homens e mulheres do Alentejo e nos tantos homens e mulheres que encontraram a eternidade no terreno universal da sua Literatura, se já não está mais nesta matéria perecível que nos compõe a todos, continua estando nas criaturas pelas quais falou e se fez ouvir. Por isso não choro a perda do mestre, pois lágrimas estéreis. Simplesmente lanço meus olhos para a estante e escolho o livro que fará Saramago estar novamente comigo.

Blumenau, 20 de junho de 2010.

* Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor, autor dos livros Sob a luz do farol (2005), De espantalhos e pedras também se faz um poema (2008) e Pequeno álbum (2009). Permitida a reprodução deste texto desde que citada a autoria e mantida a íntegra. Blog: http://viegasdacosta.blogspot.com
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domingo, 20 de junho de 2010

Versos Juninos (Silmar Bohrer)

Buenas:
Tem tido estado ausente o escriba das arábias, longe das borrascas de junho em Caçador. Saudoso das areias e dos verdes mares, esteve em Itapoá, na Barra do "meu" Saí, o paraíso encantado incrustado no litoral do extremo norte catarina. Céus azuis de brigadeiro. Tardes nebulosas. Ventinhos soprando do mar. Outros ares. A vida palpitando em câmara lenta. A pressa? Ausente das pessoas...
Mas esperem... não fui lá só para matar saudades. É que encontrei nas areias algumas dezenas de versos marinhos, que trouxe na algibeira e na planilha e agora estou a repassar (alguns) aos distintos amigos. São versos pobres, rimas tortas, inspiração marejada, mas têm a marca do poeta escriba-pensador.

VERSOS JUNINOS

A sinfonia dos mares
barulhentos cá da Barra
segue fazendo a farra
em constantes avatares.

Tardes longas hibernais
nas vacarias do mar,
ventos gemem nos beirais
e os mares seguem a marejar.

Na minha estada na praia
sempre busco companhia,
tenho ao lado uma vigia,
minha santa essência gaia.

Cá nesta paz do meu éden
tantas coisas acontecem,
muitas ondas se sucedem,
versinhos doces florescem.

Para manter a boa média
vamos então versejando,
de verso em verso cantando,
que esta vida é uma comédia.

Delícia, ou excelência
os arezinhos da praia,
com eles respiro a gaia
na sua mais pura essência.

Junho outra vez chegando
idade nova vem então,
e os versos permeando
o adorável sessentão.

O sonido cá dos mares
tem efeitos medicinais,
quand'ouço as ondas tais
renovo velhos pensares.

Ventinho. Céus. Avatares.
Águas. Areias. Praia.
Essência. Pureza. Gaia.
Naus. Ondas. Meus mares.

Estrelas andam ausentes
nesta noite toutinegra,
só um ventinho se arregla,
sorrateiro, entrementes.

Oh águas, oh céus, oh mares
deste mundão de meu Zeus,
abrigai os bons pensares
de tantos pensamentos meus.

Nas longas noites marinhas
fico escutando lamúrias,
as ondas batendo, penúrias
parecendo penas minhas.

Nos devaneios na praia
nem tenho buscado versos,
eles aparecem dispersos
disfarçados de essência gaia.

Escutando... escutando
o marulhar destas ondas,
me ponho sempre a indagar,
oh mar, por que tanto rondas ?

Esses ares cá da Barra
bem parecem salutares,
e de tanto os respirares
tu rirás, fazendo farra.

Chuva miúda, miudeza,
nesta noite mais fria,
vasculho com sutileza
algum versinho agonia.

Oh tormentosos mares
agitando noite e dia,
oh ondinhas singulares
espargindo maresia.

Macambúzia, taciturna
esta tarde à beira-mar,
e nem o céu há de mudar
na paisagem liburna.

Tenho tido a pescar rimas
nestas costeiras de mares,
só tenho ouvido sonares
com suas vozes bem finas.

Andam sonando tranquilas
as águas ali na praia,
até mesmo a essência gaia
fica silente a ouvi-las.
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quinta-feira, 17 de junho de 2010

O miúdo que não gostava de ler (Pedro Silva)

Havia, há muito tempo atrás (sabe-se lá quanto…), um pequenito chamado Rodolfo que, por incrível que pareça, não gostava muito de ler. Parece um pouco difícil de acreditar, mas tantas letras faziam-lhe alguma confusão.

Por outro lado, na escola, não era nada mau a fazer contas!

O seu irmão, que tinha um feitio completamente diferente, gostava bastante de ler e, certo dia, decidiu fazer alguma coisa para mudar essa forma de ser de Rodolfo. Assim, escreveu-lhe um livro com pequenas histórias que ele pudesse ler, sempre que quisesse, e que fossem fáceis de compreender.

Assim foi.

Em frente da folha de papel, as palavras foram surgindo, algumas mais complicadas que outras, algumas com bastante dificuldade, mas o certo é que o irmão de Rodolfo gostava imenso daquilo que fazia, pois, acima de tudo, esperava que todo o seu esforço fosse devidamente recompensado, isto é, que as histórias fossem lidas e apreciadas com alegria pelo seu irmão.

Mas, no dia em que o livro foi entregue a Rodolfo, este ficou muito contente, riu, saltou, abraçou o irmão, mas… não leu quase nada. O irmão, de tão triste que estava, fechou-se no quarto e chorou.

Afinal de contas, tinha sido tão difícil escrever aquelas histórias e, agora que estava terminado, o seu irmão nem sequer tinha grande interesse em ler.

Rodolfo, arrependido, agarrou no livro e atirou-o para um canto, sentindo-se culpado pela tristeza do irmão. Estava enervado, não com o autor das histórias, mas consigo próprio, porque era tão fácil ler, mas tão difícil escrever e, como tal, custava-lhe que o esforço do seu irmão tivesse sido para nada.

No dia seguinte, na escola, a professora, como sabia que o pequeno Rodolfo não gostava de ler, mandou-o fazer uma conta, enquanto que a todos os outros deu livros para passarem uma hora bem entretidos.

Rodolfo, lembrando-se do que acontecera no dia anterior, não queria fazer contas, mas, isso sim, ler um livro que tinha trazido de casa. Na altura, e como era normal, a sua mala carregava sempre os livros escolares e um outro de banda desenhada, pois tinha mais desenhos que letras.

Convencido que era esse o livro que ali se encontrava, começou a remexer a mala e… eis que encontra as histórias escritas pelo irmão. Escondendo-se de todos os outros, começou a ler o livro.

No fundo, ele tinha alguma vergonha de mostrar a todos as histórias que o seu irmão tinha escrito, temendo que os colegas gozassem com a situação.

Porém, bem enrolado na sua mesa, Rodolfo ia lendo as histórias, uma a uma, acabando por ler tudo o que o irmão tinha escrito. Quando terminou, nem tinha dado pelo tempo passar. Tinha sido tão agradável!

Enquanto que os outros estavam já no recreio a brincar, o André manteve-se firme no seu lugar a olhar para o livro escrito pelo irmão. A professora, espantada por vê-lo ainda na sala de aula, foi falar-lhe, desconfiando que algo não estava bem.

Ela perguntou se Rodolfo estava doente e ele respondeu: “Não, estou a ler este livro”.

- Que bonito! – exclamou a professora. – Mas não o conheço… Onde o compraste?

- Foi o meu irmão que o escreveu para mim. – afirmou Rodolfo, orgulhoso.

A professora, curiosa, pegou no livro e deu uma vista de olhos. Ao ler algumas passagens do texto achou muito engraçado e riu-se com gosto. Virando-se para o pequeno aluno, disse:

- Olha, se deixares, este passa a ser o nosso livro de leituras e para fazer ditados. O que achas?

Rodolfo, alegre com tamanha honra, sentiu-se muito mais orgulhoso no seu irmão e naquilo que ele tinha feito. De pronto, disse que ficaria muito feliz que assim fosse e, logo nessa tarde, o ditado foi feito a partir de uma das histórias daquele livro tão especial.

Quando foi para casa, encontrou o irmão muito triste e, envergonhado do que tinha feito no dia anterior, não conseguiu contar o que sucedera. Mas o primo de ambos, que acompanhava sempre Rodolfo da escola até casa, não conseguiu conter-se e acabou por ser ele a dar a notícia.

Nesse momento, ambos os irmãos correram um para o outro, com a lágrima ao canto do olho.

Num grito de paz e harmonia, só possível entre dois irmãos, Rodolfo disse, sendo prontamente apoiado pelo irmão mais velho:

- Vamos jogar à bola!

E assim foi.
/////

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Da injustiça (Pedro Du Bois)

Amaldiçoado em lágrimas
rasgo olhos ao horizonte


poente

inutilizo a noite

na chegada

em refúgio


(os cães ladram)


rememoro a hora

da notícia transmitida

palavra por palavra


revejo minha imagem

cristalizada

no congelamento

da lágrima depositada


(os cães farejam)


as dores se afastam
no distanciamento

necessário ao medo


o corpo estremece

ao se pertencer em dores


no horizonte hostil

da janela aberta

o futuro se depara

com a impertinência

do presente


(os cães comem)


afasto suas mãos das minhas:

o contato é lucidez

inoportuna na desesperança


a oração despercebida

rompe o silêncio

e se perpetua


afago o deslizar da hora

em horas subsequentes


(os cães se defendem)


murmuro o nada acontecido

e desacordo em sonhos


o retorno convive

com o fato

desproporcionado


revivo o outono em folhas

pelo chão


recupero a sanidade

e me faço cristal

de rocha esfacelado


(os cães se diferenciam)


sofro o instante

e gesto

o silêncio


o emudecer transmite

a incerteza da pergunta


na vastidão ampliada

da insensibilidade


(os cães desfazem)


posso perguntar

o que bem entendo:

mas não entendo


posso exprimir

a minha raiva:

mas não pretendo


posso aproximar

os olhos à fotografia:

mas não enxergo


(os cães confundem)


calendários dizem que os anos passam


o exercício diuturno de recuperar

o inconsciente e o aguardar

refulgente: recomposto


o exército lancinante dos ataques

distribuí ossos que estalam


(os cães apavoram)


um dia destaco na pedra

o sinal: acordo


um dia acordo e na pedra

destaco o sinal


um sinal na pedra

é destaque quando acordo


(os cães se acovardam)


olho e enxergo

ouço e escuto

pego e sinto

levo à boca

e o sal amarga

o recesso de onde retirado


avaros dias de permanências

permanentes signos

aparentes esboços


o processo desarruma o fato

em procedimentos


(os cães arfam)


ouvidas as testemunhas

os peritos dizem

das especialidades


nada

nada


a improvável condenação

confundida em versos

na reversão da realidade


(os cães obedecem)


choro atravessar o espaço

desconsolado em fatuidades


remoço a fotografia

e me instalo diante

da orfandade


perder significa atos

ao despropósito

de continuar vivo


(os cães silenciam).


http://pedrodubois.blogspot.com/

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A literatura sob o olhar feminino (Adelto Gonçalves*)

Adelto Gonçalves (*)

I

O mundo quando observado pelas mulheres é visto por outra janela. Acostumado a ler livros de Ficção e História escritos predominantemente por homens, o leitor (de ambos os sexos) nem sempre percebe essa alteridade e suas diferenças. Por isso, pensar criticamente em termos de gênero os textos de ficção brasileira publicados nas últimas décadas tem sido o trabalho a que se propõe o Centro de Estudos em Literatura Brasileira da Universidade de Brasília (UnB), coordenado pela professora Regina Dalcastagnè. O resultado das pesquisas e reflexões que o Centro tem proporcionado acaba de sair no livro Deslocamentos de gênero na narrativa brasileira contemporânea (Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 2010), organizado pela professora Regina Dalcastagnè, em colaboração com a professora Virgínia Maria Vasconcelos Leal, reunindo textos de pesquisadoras de diferentes universidades brasileiras.

Como lembra a professora Regina Dalcastagnè, quando se fala em mulher, é preciso, antes de tudo, lembrar que a condição feminina é sempre plural. Há, por exemplo, uma distância ciclópica quando se lê textos sobre o feminismo marcadamente branco, europeu e de classe média, influenciado pela filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), e as narrativas de Paulina Chiziane, considerada a primeira romancista negra de Moçambique. Até porque, se é correto entender que as mulheres formam um grupo social específico, as experiências e trajetórias sociais de cada uma constituem universos distintos.

Por razões que são explicadas pelas contingências sociais de cada nação, as brasileiras nunca se fizeram representar tanto quanto deveriam na Literatura do século XX, embora o Brasil tenha tido a sua primeira romancista negra ainda no século XIX com a maranhense Maria Firmina dos Reis (1825-1917), uma honrosa exceção num mundo predominantemente machista e preconceituoso, ainda que as elites brasileiras nunca tenham sido tão brancas quanto faziam (e fazem) questão de aparentar. E tenha hoje outra notável romancista afro-descendente, Conceição Evaristo, autora de Ponciá Vicêncio. De qualquer modo, a maioria das mulheres que se destacaram na área sempre foi constituída por brancas e de classe média.

II

Pesquisa realizada pelo Centro de Estudos em Literatura Brasileira da UnB, que leva o título de “Mapeamento de personagens do romance brasileiro: anos 1970, anos 1990”, executada entre 2004 e 2006, procurou fazer um “recenseamento” de autores(as) e personagens com o objetivo de mostrar como a mulher tem sido representada na literatura brasileira contemporânea. Os números constam do ensaio “Representações restritas: a mulher no romance brasileiro contemporâneo”, de Regina Dalcastagnè, abarcando 389 romances produzidos ao longo de dois períodos de 15 anos cada. E mostram que as mulheres, se conseguiram um espaço próprio na literatura brasileira, esse espaço ainda é flagrantemente minoritário.

A partir do acervo das principais editoras de cada época – Civilização Brasileira e José Olympio para o período de 1965-1979 e Companhia das Letras, Record e Rocco para 1990-2004 –, o levantamento constatou que o romance brasileiro é escrito majoritariamente por homens (72,7% dos autores) e sobre homens (62,1% das personagens são do sexo masculino, proporção que sobe para 71,1% quando são isolados os protagonistas). Como observa Regina Dascaltagnè, além de serem minoritárias nos romances, as mulheres têm menos acesso à “voz” – isto é, à posição de narradoras – e ocupam menos as posições de maior importância.

Quando são isoladas as obras escritas por mulheres, mostra o estudo, 52% das personagens são do sexo feminino, bem como 64,1% dos protagonistas e 76,6% dos narradores. Para os autores homens, os números não passam de 32,1% de personagens femininas, com 13,8% dos protagonistas e 16,2% dos narradores. “Fica claro que a menor presença das mulheres entre os produtores se reflete na menor visibilidade do sexo feminino nas obras produzidas”, diz a autora. Além disso, a personagem do romance brasileiro contemporâneo também é branca (79,8%), heterossexual (81%) e rica ou de classe média (82,9%).

Para a autora, apesar de toda a evolução da condição feminina, a literatura – ou, ao menos, o romance – continua a ser uma atividade predominantemente masculina, embora não seja possível dizer se as mulheres escrevem menos ou têm menos acesso às editoras mais importantes (ou ambas as possibilidades). Ainda de acordo com o levantamento, os(as) escritores(as) brasileiros(as) são, principalmente, jornalistas, professores universitários, roteiristas e tradutores. Ou seja, há quase um monopólio de profissionais vinculados ao universo do controle do discurso. Por último, desses autores(as), mais da metade está concentrada no Rio de Janeiro e São Paulo. Na imensa maioria, são homens brancos de classe média.

Como observa Regina Dascastagnè, por mais solidário que seja às mulheres, um escritor homem não vai nunca vivenciar para transmitir o que significa o temor da agressão física tão presente nos lares brasileiros, da mesma maneira que um branco, por mais solidário que se mostre, nunca será capaz de avaliar o que sente um negro ao ser discriminado em seu ambiente de trabalho como também nunca vai entender a revolta de um deficiente físico que chega a um local de votação e tem de se sujeitar a ser carregado no colo escada acima até a urna para depositar seu voto.

III

Com base nesses resultados, é de suma importância o trabalho que vem sendo realizado por autoras ainda jovens e que começam a ganhar seu espaço nas livrarias brasileiras e, obviamente, na biblioteca e no imaginário do leitor brasileiro. É o que mostra a professora Virgínia Maria Vasconcelos Leal no ensaio “O gênero em construção nos romances de cinco escritoras brasileiras contemporâneas”, ao discutir o trabalho de autoras que já conquistaram seu espaço nas principais editoras do País: Stella Florence e Adriana Lisboa, na Rocco, Lívia Garcia-Roza e Cíntia Moscovich, na Record, e Elvira Vigna, na Companhia das Letras

Stella Florence pratica uma literatura de entretenimento, o que não significa que seja superficial. Seus livros de contos (Por que os homens não cortam as unhas dos pés?, Hoje acordei gorda e Ele me trocou por uma porca chauvinista) e romances (Ciúme, chulé e um apelido ridículo e O diabo que te carregue!) , cujos títulos carregam um apelo bem-humorado, são escritos na linguagem da autoajuda, sugerindo mais uma conversa com o(a) leitor(a), que lembra o estilo de revistas femininas, como salienta Virgínia Leal. Adriana Lisboa em seu romance Sinfonia em branco também traz para a literatura questões pouco exploradas como a história de duas irmãs marcadas pelo abuso sexual de uma delas na infância pelo pai.

Lívia Garcia-Roza mostra um modelo de sociedade opressivo, mas sem uma alternativa viável, em que os casais e a família vivem sob o mesmo teto, mas quase não se comunicam entre si. Seus livros tratam de temas pouco comuns em romances, como aborto e menstruação. Cíntia Moscovich, já publicada em Portugal, a exemplo de Moacyr Scliar, recupera histórias de seu grupo étnico, a comunidade judaica de Porto Alegre. Em seus romances Duas iguais e Por que sou gorda, mamãe?, há temas pouco explorados ainda na literatura brasileira, como relações lésbicas.

Já Elvira Vigna procura resgatar um gênero literário policial, o do romance negro, mas o faz em forma de paródia. Seus textos são sempre em primeira pessoa, mas suas protagonistas seriam as criminosas e não o detetive que desvenda os crimes. Por isso, são fontes poucos “confiáveis” porque o leitor nunca fica sabendo se diz a “verdade” ou dissimula os fatos narrados. Mas é exatamente aqui que reside a sua originalidade.

Como observa a pesquisadora, as cinco autoras, cada uma a sua maneira, dialogam em suas obras com questões relevantes da agenda feminista como o corpo e a sexualidade, a violência, os direitos sexuais e reprodutivos e outros. Ainda que recusem o rótulo de “feministas” e não avancem na maré pós-feminista – que, pelo menos no Brasil, um país ainda arcaico sob muitos aspectos, é uma realidade distante –, com suas obras contribuem de maneira significativa para a criação de uma “consciência feminista” entre o público-leitor, “a partir da uma identificação com suas protagonistas em confronto com o poder patriarcal”.

IV

Regina Dalcastgnè é professora titular de Literatura da UnB, editora da revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea e pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), além de autora de A garganta das coisas: movimentos(s) de Avalovara de Osman Lins e Entre fronteiras e cercado de armadilhas: problemas de representação na narrativa brasileira contemporânea, entre outros livros. Para a Editora Horizonte, preparou o livro Ver e imaginar o outro: alteridade, desigualdade, violência na literatura brasileira contemporânea (2008).

Virgínia Maria Vasconcelos Leal também é doutora pela UnB e pesquisadora do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea. Participou dos livros Formas e dilemas na representação da mulher na literatura brasileira contemporânea, Alguma poesia: ensaios sobre literatura brasileira contemporânea e Imagens & diversidade sexual: estudos da homocultura.

Deslocamentos de gênero na narrativa brasileira contemporânea traz ainda textos das pesquisadoras Adelaide Calhman de Miranda, doutoranda na UnB, Bruna Paiva de Lucena, mestranda na UnB, Cíntia Schwantes, professora da UnB, Cláudia de Lima Costa, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Edma Cristina de Góis, jornalista e doutoranda na UnB, Ermelinda Maria Araújo Ferreira, da Universidade Federal de Pernambuco, Norma Telles, professora aposentada da Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo, Rita Terezinha Schmidt, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Sandra Regina Goulart Almeida, professora da Universidade Federal de Minas Gerais, Simone Pereira Schmidt, professora da UFSC, Susana Moreira de Lima Bigio, da UnB, e Tânia Regina Oliveira Ramos, da UFSC.
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DESLOCAMENTOS DE GÊNERO NA NARRATIVA BRASILEIRA CONTEMPORÃNEA, de Regina Dalcastagnè e Virgínia Maria Vasconcelos Leal (org.). Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 239 págs., 2010, R$ 36,00. E-mail: contato@editorahorizonte.com.br Site: www.editorahorizonte.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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quarta-feira, 2 de junho de 2010

Astrolábio (Emanuel Medeiros Vieira)


Para Lucas, meu filho


A bússola e o astrolábio:

velas ao vento.

Existe outro Bojador nestes mapas interiores?

Os navegadores estão no exílio:

há faróis neste degredo?

Findou a aventura no mundo.



Singrando-me, cumpro-me.

Além de mim, além da vida:

do pó que serei.
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