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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Redescobrindo Teresina (Geovane Monteiro*)

De certo ponto adiante não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado. Franz Kafka


(Quadro de Chico Lopes)


Ninguém poderia ser mais obscuro que J. S. à espera do amigo. Havia em causa um encontro de sábado à noite. Na cidade, nada sucedia uma renovação no olhar. Teresina de carros parecendo fugir das próprias avenidas, de luzes atentas e neutras, de prédios fechados a armazenar no concreto frio a semana inteira.

O atraso de uma hora o obrigava a forçar uma falsa desesperança, para sentir-se orgulhoso. Ele obscuro e ingênuo, o garçom concentrado na própria negligência em não apostar em um único cliente. Tudo posto: a inscrição de unhas no isopor da cerveja, a cobertura de plástico indicando uma mesa de bingo, o garçom expedindo milhos na mesa do rapaz, o bar quase deserto destacando as coisas à margem de si mesmas.

O recinto era humilde e consagrava os que bebiam no impulso de quem procura por algum status. Mas ele já não acordava para a mediocridade do bar; o lugar estava justamente para abrigar a escassez de ideias. Frente à BR 316, eram acrescentados, ao atraso, os fregueses aos poucos preenchendo as mesas; Na lateral da cadeira, na qual se sentaria o amigo, a porta do único banheiro, a marquise esmaltada ameaçando cair, mas nem aos clientes, nem ao garçom caberia uma precaução. Afinal era sábado no bar que principia o Bela Vista em confluência com o Parque Piauí, o que sugeria a semana ganha em si, o consolo em envolver-se sem o comprometimento dos próprios gestos.

O próximo gole e a atenção para fora do estabelecimento. O companheiro chegando? Da Vermelha não sairia um último ônibus em menos de uns quinze minutos. Quinze? Talvez vinte ou o tempo necessário de ostentar o atraso. Aconteceu que, depois das vinte e duas horas, a falsa desesperança passava a ser traída pela ausência cada vez maior. Devem-se acrescer as outras vezes sozinho no mesmo bar e com a mesma ausência aos poucos se somando à claridade da noite. Ele não viria? Se viesse despencariam em ambos os mesmos vagos e empolgantes diálogos, um silêncio repentino, sem ruptura e simultâneo aos dois. Restava apoiar-se na noite ainda viva nos postes e no vapor quente trazido dos ônibus ainda a serviço.

Haviam se conhecido no ensino médio; quando transportados para a capital, a amizade se estreitou conforme havia de ser. A faculdade os fazia emergirem de uma amizade adicional aos tempos de Água Branca; tempos de quase nenhum esforço que pusesse J. S. à tona. O gosto da sobrevivência não era cativo do medo, a vida pacata na cidadezinha poupava-o da própria timidez; qualquer curiosidade nervosa ficava metida na tenra idade. É da idade tanto silêncio, diziam aqueles que, por alguma estranha aceitação, apostavam na mocidade. E então os dias se cumpriam sem a ideia de tempo; por entre um mundo vasto, porque ininterruptamente íntimo, a sobrevivência a cargo de seus pares de quem a ele cabia apenas o benefício.

O certo é que o amigo era um homem bom, idêntico a ele na hora em que o papel na vida cedia lugar a um sábado à noite. O hábito de saírem juntos asseverava uma amizade com espaço para carência dos dois numa cidade nova, com semáforos, pontos de ônibus e cumprimentos demarcados; os canudos e os estágios de emprego os fizeram sentir a cidade sob o que lhes sobraria da falta de adaptação, da carência de respostas ironicamente atravessada na conquista de serem filhos adotivos da cidade, como uma riqueza difícil, um obscuro apego.

Desde que recebeu uma chave por entre as ruas do Lourival Parente, e a propriedade reforçou um hábito de vida, nada dizia que fora da casa se reunia a extensão de suas afinidades. Dois provincianos, um esperando do outro uma certeza de vida que, souberam bem, não havia. Dialogavam como se levassem vantagem em não estarem sozinhos no medo de viver. Se um lançasse um questionamento, tímido que fosse, o outro aproveitava de si o aconchego da ingenuidade. J. S. o ouvira falar sobre namoradas, sentira não estar ainda com o mesmo engajamento e isso lhe transmitira insegurança e ternura. Sem contar com qualquer alteração, esperara visitas dele, o sol no horizonte e a vontade de sintonizar tudo o que não sabia da cidade.

Mas não imperaram somente as coincidências. A ausência gradualmente apontava mais que um acaso aos desencontros. Mais e mais se instalava no companheiro a ânsia de querer achar em Teresina alguma liberdade, que nem sempre percorria J. S. Talvez por isso a Vermelha para o amigo já não oferecia somente uma quitinete de universitário; antes, uma gente passou a enquadrar um tímido e sucessivo conforto no qual ele buscaria uma compreensão de si. Os CDs, os livros, e também pessoas, inauguravam novas carências e o horizonte indicava possibilidades e tentativas; a inocência residia em não precisar fugir de J. S. para rejeitá-lo. Quem sabe, por essa razão, nem sempre as semelhanças entre eles indicavam um alívio covarde do que era deixado para trás como uma reserva. Por isso o sábado de espera dava a cisma de trair limitações e desperdiçar a vida anonimamente valiosa.

Ele já não examinava o relógio. A pequena movimentação estaria familiarmente concluída. Faz sinal ao garçom que, harmonizando a simpatia do negócio com a disciplina do ofício, traz outra cerveja e pergunta se pode recolher da mesa o segundo copo, há muito aposentado e enchido ao meio. J. S. olha distraído o termostato do único refrigerador, faz gesto positivo sem nenhuma expressão a não ser do instante de outro copo virado difícil, mas seguro da vez.

─ Mais alguma coisa, senhor? ─ dizia o garçom, sem deixar de observar a presença dos outros fregueses.

─ Não, obrigado ─ retribuía, querendo conciliar o insucesso da noite à resposta mecanizada.

Mas os clientes do bar não o notavam a menos que o amigo chegasse? Por caso não estar mais sozinho quebraria nele o mesmo segredo que fez os outros entrarem no bar sem nenhum pudor?... Todos ali acompanhados, responsáveis pelo planejamento da companhia. Mas a ele não acontecera um planejamento? Sim, a ele tudo também fora planejado. Talvez até a tamanha ausência fosse uma representação das noites presas à sua mão sonsa e vibrante. Agora, os dedos batendo na mesa, as sobrancelhas indicando sucessão de si em goles com alguma prova de contato íntimo. Mas aos demais apenas goles? Talvez os outros bebessem sem nenhuma sede ou sabor, não necessitassem de provas além da completa noite.

─ E eu? ..., perturbava-se, tentando exigir da pergunta um ajuste com a madrugada. ─ E eu? E eu? ..., repetia, para o silêncio em si não lhe despertar uma incompreensível acusação.

Afinal considerou o garçom sozinho também, mas servindo-o, conservando-lhe uma condição social a permitir a compra da bebida, porque se tem dinheiro e se aprende gentileza. O moço servindo-o fazia parte de um alheamento mútuo e necessário ao andamento das coisas. O silêncio entre eles de repente se tornou tão harmônico, tão participativo e terrivelmente justo. Não, não poderia mais esperar ninguém. A negligência com o garçom entregava-lhe um poder que o salvava com vergonhoso proveito e dava a ele a sensação de covardia. Restava-lhe calar-se, fingir um contentamento que fizesse da figura humana a aceitação da espera. Era a forma de apaziguar-se, mas a violenta surpresa estava em precisar humilhar para descobrir o doloroso sucesso. Vingança? Ele conseguia era sucesso, mas considerava apenas o terror de fazer parte de uma liberdade.

Daí a pouco, voz pausada da moça girando o globo, bingo incandescido pelos gritos a querer fazer do entusiasmo a sorte no jogo; uma turma de rapazes reclama da fumaça de cigarro em rodopio, outra se programa para a ressaca na Velha Guarda. Ele esquece o garçom (que importa agora o garçom ser o dono do bar?) e procura no gole a noite finda, a BR 316 a cem-quilômetros-sul. Nada encontra senão o sorriso vagaroso, inútil, como se o castigasse por não odiar os que sumiram para nunca mais. O amigo estaria sim em algum lugar a dizer, dias depois, que a vida é enorme, um descaso só, mas dar para se virar, seja por uma noite tão calma, longa e acolhedora, seja para reencontrar em outro bar a lealdade da face, aquela nunca além de descoberta apenas contida.

─ Bola de número seis, última bola chamada. Não desmarquem suas cartelas ─ esforça-se a moça, suave e fugaz.

Mas a ele qualquer número representaria um alheamento de alegria tão vaga quanto identificar quem sorria ali. Lembrou-se de quando morar e estudar em Teresina não passava de uma conversa secretamente desacreditada para aliviar a insegurança. Lembrou-se das coisas estacadas na própria apreciação.

As cervejas a essa altura traziam as palestras dos dois, a salvação em poder ter uma mesa enquanto todos gozariam de algum cuidado sem culpa; a salvação a cada milho marcando de novo o jogo, a cada grito de bingo a esboçar em um e outro freguês o próximo jogo; a própria perca parecia trazer à tona J.S; a espera, retribuir a imagem e semelhança entre os que integravam o bar.

Mas o que estaria fazendo o companheiro? Também bêbado e sem mágoa em algum lugar da capital? Sim, J. S. embriagou-se e ao outro também haveria de ter acontecido uma surpresa, seja de gritos de bingo, seja de dinheiro na mão e gentileza aprendida. Quem sabe o amigo estaria sonhando sem voltar a 1998, quando “aprender andar na cidade nunca deveria ter acontecido.”

Ainda um tanto embriagado, com o ar distante e sem ruptura com o que não lhe foi oferecido, começou a sentir na vontade própria a essência do lugar. Tudo ali virou força e conservação e já surgia em hábito. Ele próprio se tornou um hábito, uma incorporação da noite. Recuperava a segurança no caminhar, o modo de abordar alguém fortuitamente. Uma ausência de precaução o levava a um refinamento, a uma vulnerabilidade, outrora, o esforço de um dever. Não abordava ninguém, mas era bom contar com a destreza guardada.

Sobre a cadeira, o movimento e o repouso do corpo davam-lhe uma esperança que não o comprometia, apenas continuidade; uma esperança em si, feito uma boa surpresa logo esquecida. J. S. encenava contemplar a música de intervalo do bingo, embora qualquer tentativa de responsabilidade só o fizesse avançar na noite, sem claro entusiasmo. Ao ir ao banheiro ou ao conferir o dinheiro no bolso, surpreendia-se, mas com o quê? Parecia pertencer ao próprio sorriso meramente suficiente, sem fuga, um macio perdão à vida. A sinceridade disfarçada de silêncio amenizara seus dias, mas quem se expressa no próprio silêncio aprende o gole no aconchego de ser – eis o insondável da existência. Aquela gente reunida em mesas, indiscreta e sem necessitar de nenhuma comprovação da noite, aquela gente surgira da confiança no incerto capaz de conceber a vida por puro descuido.

Um pouco antes das certezas confusas, de perder a embriaguez, em si a própria elucidação, J. S., num aceso de estranheza e intimidade, recordou-se do amigo; contudo, a essa altura já não sabia de quem era a espera. A lucidez correspondera ao sol impossível da tarde. No lugar de uma verdade a olho nu, o violento contato do fulgor nos olhos libertara uma cegueira de claridade. Por outro lado, a bebida lhe fazia viver das respostas que nunca tivera, mas não da ausência de respostas. A desordem na cabeça clareava intuitivamente um modo de existir; eis a harmonia da desordem. Distrair-se constituía então o esclarecimento das coisas, como um espanto bom: a vida confiada.

Afinal, não havia mais bebida nem espera; o sol ressurgia apertando-lhe os olhos dentro das mãos. Uma dormência na boca e uma doçura indiferente a tudo lhe davam os primeiros raios do dia sem nenhuma ameaça, senão flagrar uma cidade onde não escaparia dele algum cuidado de vida.

O vago orgulho de morar na capital e a saudade da família fizeram-no retornar violentamente à lealdade da moradia. Sentiu culpa de ter deixado-a sozinha, entregue a uma mobília que ele desconsiderara para aventurar-se no egoísmo de querer estender-se dentro de si. Mas ao amigo não teria acontecido o mesmo: a quitinete estaria resolvida na surpresa com o espaço da morada, embora pudesse haver solidão.

O espaço na vida de J. S. agora era retornar a casa, como se o tempo da chegada lhe desse a última chance. Os postes das ruas ainda acesos evidenciavam conforto e solidão às mulheres varrendo calçadas. Por entre o vento morno, pardais esvoaçavam para atravessar o breu e reinaugurar arranjos da intervenção humana dos quais ele teria a parcela: sua passagem sob as primeiras luzes do dia, a cidade tumultuosa, fervilhante. A essa altura mal imaginava especialmente o que poderia fazer de um domingo qualquer. Na noite havia música, apostas, amores, mas agora toda a gente estaria espalhada na cidade, faria do domingo uma regalia de quintal, uma surpresa do que se compreende bem.

De volta a casa, com a embriaguez começando a também fazê-lo esperar, remexia na memória o caminho diário da faculdade, o Rodoviária Circular de azul já sem segredos, honesto, finito.

─ A hora mais perigosa do dia... ─ balbuciava aturdido, como se conhecesse as próprias inquietudes.

Ao longe, um horizonte pertencendo à manhã ensolarada, um extravio de amizade para um futuro que nenhum garçom investiria sem errar a conta.


*Geovane Monteiro, professor e escritor.
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