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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Generosidade e sarcasmo na narrativa de Fernando Marques (Geraldo Lima)




A produção literária em Brasília mostra-se cada vez mais intensa e com qualidade, prova disso é o livro Contos Canhotos (LGE Editora, 2010), do jornalista, professor universitário, escritor e compositor Fernando Marques. O volume traz vinte e sete contos, divididos em duas partes: Primeiro Tempo e Segundo Tempo. São textos curtos, de no máximo quatro páginas, com temática variada, focada em situações do cotidiano, nos contrastes sociais e na precariedade da vida humana. Revelam, em suma, a capacidade de o autor captar variados aspectos da vida moderna com olhar crítico e, às vezes, bem humorado.


Na leitura desses contos de Fernando Marques, devemos observar, com atenção, o modo como ele lida com alguns personagens, em especial o tipo metido a esperto, a Macunaíma, ou o quarentão que se comporta ainda como um jovem, enchendo a cara e se metendo em fria. “De fora, lembrava o Piquet com 20 anos de atraso, o adolescente vetusto na pândega irresponsável” (sobre o protagonista do conto No hospital, que, de vítima, passa a réu). O narrador, geralmente em terceira pessoa, mostra-se, às vezes, implacável com essas figuras. É sarcástico e irônico ao ponto de nos fazer rir da desgraça do personagem. “Fiel ao próprio modus operandi, exibidos nos episódios recentes, quebrou o jejum para perguntar quando seria ouvido. Pediu pressa, ora essa. Exigiu pressa da polícia, teve a coragem. Responderam, ríspidos, que se calasse” (do conto Na delegacia, que é, na verdade, continuação dos contos Noturno, Pizzarelli na danceteria, No hospital).

Embora o autor dispense a alguns dos seus personagens esse tipo de tratamento, revela-se, no entanto, generoso em relação a outros. Às prostitutas, por exemplo, é reservado um olhar mais condescendente e cúmplice. Chega a dizer: “Ninguém mais dedicado a seu ofício que as moças de vida fácil. Fossem assim os deputados.” É, no mínimo, divertido ver como elas conseguem depenar os otários ou deixá-los na mão, por exemplo, após a promessa de uma transa em troca de uma carona. É sempre o quarentão perdido na noite, à deriva, ou o jovem classe média desfilando com o carro do pai. Nesse mundo cão, somos levados a concordar com o narrador do conto Pizzarelli na danceteria: “Os pobres se entendem. Ele no carro, à espera. Mas quem sente pena de otário?”.

Como ninguém está imune às influências dos autores com que mais se identificou, impossível seria dizer-se escritor sem ter absorvido essas influências, podemos identificar no texto de Fernando Marques a presença da narrativa elíptica de Dalton Trevisan e o recurso machadiano de se dirigir ao leitor, muitas vezes em tom sarcástico. O estilo de Fernando Marques brota daí, dessa mescla entre os dois grandes autores nacionais. A sua narrativa dispensa os malabarismos verbais, as frases complicadas, o vocabulário rebuscado. Com certeza o leitor se sentirá muito à vontade lendo esses contos canhotos, e talvez se identifique com algumas das situações narradas, tendo vivido algo parecido ou simplesmente presenciado na rua.

Dois aspectos podem ser ainda destacados em alguns contos desse livro de Fernando Marques: a presença de Brasília como espaço onde ocorrem algumas situações narradas e a representação do negro como protagonista. Podemos ver isso na tríade composta pelos contos Pizzarelli na danceteria, No hospital e Na delegacia. Aliás, essa tríade de contos, somando-se a ela o conto Noturno, é o ponto alto do livro. Sarcasmo, lirismo e melancolia mesclam-se aí numa narrativa ágil e arrebatadora. Só esses textos bastariam para provar o talento e a maturidade narrativa de Fernando Marques.





-Fernando Marques é professor universitário, jornalista, escritor e compositor. Publicou Retratos de mulher (poesia, Varandas) e duas peças teatrais:, adaptação em verso do drama Woyzeck, de Büchner, e o livro-disco Últimos – comédia musical em dois atos (ambos pela Perspectiva). Autor da comédia A quatro, encenada em Brasília. www.fernandomarques.art.br

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*Geraldo Lima é professor, escritor e dramaturgo. É autor dos livros A noite dos vagalumes (Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF), Baque (contos, LGE Editora/FAC), Nuvem muda a todo instante (infantil, LGE Editora) e Um (romance, LGE Editora/FAC). Lançará, em maio, pela Editora Multifoco, o livro Tesselário. É colunista dos blogues www.o-bule.blogspot.com e http://portalentretextos.com.br. Mantém o blog Baque: www.baque-blogdogeraldolima.blogspot.com Colabora com o Jornal Opção, em Goiânia.
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