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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Nosso abril despedaçado (Nilto Maciel)




A tragédia de Realengo abalou meio-mundo. Indignado, como a maioria das pessoas, escrevi um artigo: “Por trás de todo terrorista há sempre um homem de cajado em punho” (título que no Observatório da Imprensa reduziram para “Um homem de cajado em punho”). Ontem assisti, mais uma vez, ao filme Abril despedaçado. Obra-prima! O menino (nem nome tinha, sempre tratado como “menino” ou “Menino”, como se este fosse o seu nome) que lia sem saber ler: inventava histórias enquanto folheava um livro e via as figuras, as letras. Ao redor, a vida seca de sua família, das pessoas do sertão, do povoado, os amores puros e impuros, a tragédia de sua morte. Mas não quero falar desta peça (narrativa e imagens) singular, porque me lembra as crianças assassinadas todo dia no mundo por orientação esquizofrênica. Quero me referir a este abril que se espedaçou em nossas cabeças e me levou a ler mais do que nunca.

Recebo muitas publicações, quase todas de amigos ou conhecidos. Não me pedem nada. São muito refinados e devem imaginar a quantidade de afazeres que me cabe como escritor e blogueiro. Entretanto, sinto-me na obrigação de dizer, pelo menos, duas palavrinhas a respeito de cada uma delas.

No “Decálogo do resenhista”, Nelson de Oliveira (romancista, contista, ensaísta e resenhista muito conhecido no Brasil) dá boas indicações para se redigir uma resenha. Uma delas é esta: “o ideal é que o resenhista evite, numa única resenha, debruçar-se sobre a obra de mais de um autor”. Se assim deve ser, não farei resenha dos seis tomos que li nestes últimos dias. Farei apenas breves comentários.

Para começar, dividirei esta recensão (será isto mesmo?) em quatro partículas: um romance, duas coleções de contos, dois conjuntos de poemas e uma biografia. Os autores são quatro cearenses, um piauiense e um paraense. Esdras do Nascimento (morador do Rio de Janeiro) conheci em Brasília (1978?); Mônica Serra Silveira me entrevistou duas vazes; Inez Figueredo se correspondia comigo e viramos confrades; Rodrigo Marques tem apenas 31 anos de idade; Cristóvam Araújo mandou suas composições por mãos amigas; Dias da Silva edita um jornalzinho literário e nele tem resenhado meus papiros.

O mais conhecido dos seis deve ser Esdras, por sua trajetória na literatura (13 romances, quatro volumes de contos e novelas e dois ensaios) e pelos prêmios recebidos. Estreou em 1960, com Vinte histórias curtas. Naquele ano, eu ainda lia apenas livros escolares. Dele recebi A dança dos desejos, opus 13 (São Paulo: A Girafa Editora, 2006). Mais de 400 páginas. Para Telma Arieta, romance de “construção aprimorada”, com “características que o identificam como marco da criação literária brasileira e como um dos grandes romances do nosso tempo”.

Nelson de Oliveira ainda ensina: “Não repita o que já foi dito em outras resenhas. (...) Resenha crítica não é press release nem coleção de aspas. Um dos piores vícios de quem escreve sobre livros é transformar o texto num apanhado de comentários feitos por outros resenhistas, por críticos acadêmicos ou pelo próprio autor da obra analisada.”

Mais uma vez, estou longe de fazer resenha. Pois nesta partícula dedicada a Esdras do Nascimento repetirei outro trecho da análise de Telma: “A grande particularidade deste livro é uma ambígua linearidade camuflando várias narrativas. Colocadas em cadência rigorosa, por serem verdadeiras, elas se tornam partícipes das tramas, dando-lhes densidade e verossimilhança”.

A narração se inicia com a apresentação de três personagens: Leonardo, Túlio e Roberto de Aquino. Imediatamente se iniciam os diálogos (discurso direto), como no romance tradicional: travessão e verbos dicendi. Porém, na nona página se dá o que Telma Arieta observou: a ruptura da linearidade. Como se de outra publicação se tratasse, de outra história, de outro tempo, o narrador onisciente deixa o Rio de Janeiro de hoje e se volta para a China antiga, do tempo de Confúcio. E assim vai o romancista cosendo a trama (com palavras, narrações e falas) e conduzindo o leitor (pelos olhos) à realidade dos jornais, da mídia e da vida dos seres fictícios.

A segunda parte deste catálogo abrange dois conjuntos de ficções curtas: Eu conto nº 2 (Fortaleza, 1991, sem indicação de editora), de Mônica Serra Silveira, e Palavra por aí, à ventura (Fortaleza: LCR / Edições Poetaria, 2011), de Inez Figueredo. O primeiro é formado de histórias pequenas, bem elaboradas, que podem ser tidas como contos de personagem. Livrinho de cerca de 40 páginas. Ora, tamanho não é documento. Abre a coleção a peça “A bailarina”. Apenas dois personagens: Tamara Iakov, a bailarina, e Rinaldo Ferreira Campos, “acompanhante (dela) no país”. Não há referência ao nome da cidade a que chega a estrangeira. O narrador onisciente descreve, sem piedade, o corpo da artista: rosto “com várias pregas”, “cabelo repuxado”, “pele meio murcha, gasta e sem carne”. Para Rinaldo, “uma figura fantasmagórica, próxima de um espantalho”. A paisagem interior dela é pintada também sem generosidade: “gélida, impassível, como que brigada com o mundo”. Audifax Rios, numa das abas, enfoca os cenários locais (cearenses) e a linguagem simples, sem rebuscamentos. Na verdade, Mônica não menciona nomes de cidades, logradouros ou paisagens que possam lembrar o Ceará ou mesmo o Brasil. Uma ou outra vez, o faz de maneira sutil, como em “Negócios à parte”, ao se referir a seu Chico, “o maior vendedor daquelas bandas do Sertão”. A cor local pode ser vislumbrada no comportamento e no discurso dos personagens, bem como na descrição de ambientes e feições. A escritora é também romancista, mas me parece se realizar mais como contista. Faz bom uso do diálogo, sem se esquecer da narração propriamente dita. Talvez peque pelo uso excessivo de descrições.

As composições de Inez Figueredo se mostram como objeto caprichosamente elaborado por Geraldo Jesuino: sobrecapa solta, capa dura, pós-capa azul sem sinais ou letras, uma gravura de Tiziano, etc. Inez cultua o verso, a crônica e o conto. Não o de feição tradicional, mas o drama despojado de ação, de intriga, como se mostrasse ao leitor, de longe, uma cena quase parada, como uma pintura, um quadro. Ou envolta em “bruma cinzenta e enganosa”. Os títulos são bem uma demonstração disso, como “A paleta de Tiziano Vecellio e o infame dourado da América Latina ou Danae e a liberdade encarcerada”, sem aludirmos ao nome da narrativa que serviu de rótulo para o conjunto. Entretanto, Inez não se compraz em enganar o leitor. Isto é, não o deixa surdo. Mesmo de longe, sem poder ver tudo o que se passa na sala, na camarinha, no sótão, na clausura, onde quer que se encontrem os personagens, o leitor entende a fala do narrador. E vê até os objetos mais secretos, mais escondidos, além de baús, toalhas de linho, guardanapos, talheres de prata, baixelas. Vê o “liquor das nuances”, vê a “pedra em descanso sobre penugens de areia”, vê “cheirosas raspas da madeira inupta”. Como a protagonista de “Palavra por aí, à ventura”, Inez Figueredo dá a luz a formas plurivalentes, cria na ambiguidade, pesca em espaços abertos, “oferecendo-se (sua arte) a inúmeras possibilidades”.

Passemos aos versos: O livro de marta (bilhetes de amor quebrado) (Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2011), de Rodrigo Marques, e Diário de bordo (Belém: Paka-Tatu, 2010), de Cristóvam Araújo. As abas do primeiro estão preenchidas com palavras de Ruy Vasconcelos. Dentre elas, estas: Rodrigo “foge deliberadamente de soluções mais fáceis ou vanguardeiras, optando por versos que parafraseiam velhas formas, como a cantiga de amor ou o soneto”. A epígrafe principal da publicação vem de Ribeiro Couto. No entanto, são apenas dois os sonetos (de métrica irregular). A maioria dos poemas é composta de versos livres. Há até um poema em prosa (bilhete). Talvez Marta não merecesse mais do que isso. Afinal de contas, o amor pode ser “fogo que arde sem se ver” (Camões), ou apenas chama que se apaga ao sopro mais brando. O volume do poeta paraense é mais aceso, tem mais versos do que o do cearense. Traz prefácio de Olga Savary, que visita cada um dos poemas com olhos de poeta e filha da Amazônia. O livro é um caleidoscópio de formas poéticas: quadras (com rimas ou não), dísticos, desenhos, poemas curtíssimos ou longos, metrificados ou não, de duas, três, quatro sílabas ou mais. A presença da floresta não é tão intensa como se poderia esperar do poeta. Pode ser vista em “Insone”, “Olho de Boto”, “Parapaiê” (prosa poética) e outros poucos. Sua voz está voltada para os seres humanos de todas as latitudes: crianças, velhos, parentes, amigos, poetas.

No último ato, uma biografia: Um padre e muitas proezas (Fortaleza: RDS, 2010), de Dias da Silva. Trata-se de homenagem de sobrinho escritor a tio padre. O protagonista é Raimundo Nonato Dias, padre da Igreja Católica Apostólica Romana. Para os estudiosos da História do Ceará, vem a ser publicação fundamental. Talvez não exatamente pelo que fez ou realizou o sacerdote, como ministro cristão. Porque aqui me refiro ao percurso literário de Dias da Silva, que vasculhou cem anos de História, mesmo sem isenção política ou ideológica. Ora, nenhum historiador, nenhum memorialista é imparcial. Para outros leitores, estas memórias têm parentesco com peça de ficção. Poderia ser romance, por que não?

Finda-se meu abril em pedaços. E me lembro de novo daquele Menino assassinado e daqueles pequenos seres despedaçados pela fúria dos monstros criados pela Moral de todos os matizes. Para não chorar mais, olho para meus papiros. Há esperança de que maio venha. Que me desculpem Esdras do Nascimento, Mônica Serra Silveira, Inez Figueredo, Rodrigo Marques, Cristóvam Araújo e Dias da Silva por dedicar tão poucas linhas às suas composições literárias. Que me desculpe Nelson de Oliveira por não saber escrever resenha.

Fortaleza, 20 de abril de 2011

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