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quarta-feira, 13 de abril de 2011

A ressurreição de um grande escritor (Ronaldo Cagiano *)



A editora paulista letraSelvagem, por iniciativa de seu editor, Nicodemos Sena, relançou recentemente, com apresentações críticas de Nelly Novaes Coelho e Raquel Naveira, na Casa das Rosas, em São Paulo, o romance “Deus de Caim”, do matogrossense Ricardo Guilherme Dicke, obra que foi um dos vencedores do prestigiado Prêmio Walmap (1967). Referendado por Jorge Amado, Guimarães Rosa e Antonio Olinto, integrantes do júri, que o consideraram uma revelação e um marco na literatura brasileira, o romance vem sendo objeto de redescoberta pelos ensaístas, críticos e estudantes, que atestam não só a monumentalidade do texto e a importância da bibliografia do escritor, como repudiam a imperdoável negligência e o injusto esquecimento a que foram relegados.

“Deus de Caim” surgiu num momento de transição: na política, nas artes, na moral e nos costumes, com reflexos na própria linguagem (musical, teatral e literária). Vivíamos uma época de rápido escalonamento de valores, em direção a uma suposta modernidade em todos os sentidos.

A ficção ainda vinha de uma experiência bastante canônica, ainda muito fortes os ecos do modernismo na poesia. A prosa caminhava para o deslocar-se dos modelos machadianos ou do realismo-naturalismo, quando primeiro surgiu um tufão na narrativa contemporânea, impulsionado por “Grande Sertão: veredas”. Uma década depois, “Deus de Caim” emerge como um outro furacão estético.

Em Pasmoso, cidade criada pelo autor, com sua habilidosa capacidade de recuperar a mitologia popular ou o inconsciente coletivo – como o fizeram com Macondo, Komala e Yoknapatawpha, García-Marquez, Rulfo e Faulkner, ao espalharem as experiências de um mundo arcaico e burguês – Dicke deu ressonância a um conflito ancestral, repercutindo na vida de pobres almas do centro oeste brasileiro. os dramas, picuinhas e disputas da família Amarante constituem o epicentro do romance, pano de fundo de um permanente desassossego, culminando no amor entre Lázaro e Minira, interditado pelo seu irmão Jônatas, por meio de sedução e tentativa de estupro. A tensão que vai perpassar todo o livro, com seus tirmos e rupturas verbais, vai impactar e comover o leitor.

A partir do enfrentamento entre irmãos é que se instaura uma profunda discussão sobre o homem, sobre o amor, sobre a traição, sobre o poder, sobre interesses escusos e difusos, como o desejo de apropriação do outro (que na verdade soa como uma metáfora da apropriação injusta da terra, num momento em que o tema da reforma agrária e da quebra de paradigmas morais eram um tabu).

Muitos acontecimentos se intercalam, ou se interpenetram, nesse romance, como alegoria ou como recurso da intertextualidade, como no caso dos embates filosóficos travados entre os personagens Grego e Cirillo Serra sobre o mundo, a verdade, a religião e a cultura, assim como isidoro, ao discorrer sobre a música e poesia.

Essa faceta do romance também exterioriza o diálogo que Dicke estabelece com outros gêneros e reflete a sua preocupação existencial e sua relação muito íntima com a Filosofia, as artes e o pensamento culto, uma vez que ele foi filósofo, professor, tradutor e pintor, e é também como pintor, que reverberam sua visão impressionista desse mundo interiorano, atrasado, resistente às mudanças, característica de um país até então confinado a uma cultura e uma economia agrárias e estigmatizadas por totens, tabus e mitos que sustentam a vida e a memória do homem comum e do homem que controla política, ideológica e religiosamente a vida das pessoas, como os velhos coronéis do passado.

“Deus de Caim”, ao fazer uma releitura do mito bíblico, na verdade está fazendo uma incursão na atualidade, porque o mundo não mudou, apesar da tecnologia, do avanço das comunicações e das ciências, do desenvolvimento material e econômico das pessoas e das nações. os mesmos conflitos, dramas; as mesmas questões, dissensões: as mesmas controvérsias e polêmicas – estão aí -, desde a fundação do mundo, desde que Adão e Eva, experimentaram do fruto proibido, e levantaram guarda para viver o próprio caminho, atraindo o que na lógica cristã seria chamado de maldição. De Adão e Eva, passando por Abel e Caim, até hoje, o entrave humano é a luta pelo poder e contra a morte. Seja o poder do que quer roubar o amor de outro; seja o poder arbitrário dos que detêm o controle político e financeiro de um país. Ou, ainda, o poder de decidir, obrigar e impor sanções, sem defesa (como os ditadores); e o poder intríseco, que é o desejo de ambicionar o poder maior, e memiúrgico, de um mestre (que pode ser Deus ou o Diabo) e que, na verdade o tempo, despistar a morte e, se possível, vencê-la, a qualquer preço.

Com “Deus de Caim”, Dicke cutuca as feridas da humanidade, que estão abertas até hoje, desde a fundação do mundo. E seu processo criativo contempla o caos, e esse caos se reflete não só as histórias repletas de cizânia e perigo, mas prioritariamente se explicita numa linguagem vigorosa, densa, que não deixa o leitor sair indiferente ou ileso, pois nada atenua, senão expõe a violência que atravessa os séculos, sem estereótipos e sem meias palavras, revelação e reflexo da própria desordem mental e intelectual do homem.

O elo entre os passado genético da humanidade e a modernidade tumultuada em que vivemos – homens, governo e mundo – mereceu em Dicke uma releitura surreal, não como fantasia pura e simples criação de uma historieta de sertão, mas como recurso para entender-se a loucura individual e coletiva, e acima de tudo, mostrar que o real supera a si mesmo, que são necessárias as tintas da ficção pelo viés do absurdo para poder entender esse intricado e violento sistema que é a vida, aquela que, segundo Guimarães Rosa, é perigoso viver.

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*Escritor. Vive em São Paulo