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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Argonautas (Manuel Soares Bulcão Neto)


Uma noite no século. No meu apartamento, bebida, música, baralho. Comigo, jogam pife-pafe Thiago Pauli e Alves de Aquino - Este, professor de Filosofia e escritor, tem por pseudônimo "O Poeta de Meia-Tigela" (aviso aos gulliveres e liliputianos: a tigela é de "Brobdingnag"). Eis que, numa rádio da Internet, Caetano canta "Os argonautas": "Navegar é preciso, viver não é preciso…". Assim como um estalo, associo a frase (lema da Escola de Sagres) com jogo de azar, ciência e nossas vidas inintencionalmente erráticas, "imprecisas". Nesta crônica, desenvolvo "grosso modo" meu pensamento.

O conhecimento humano, que lida com regularidades, padrões, até meados do século XVII distinguia dois tipos de fenômenos: os singulares ou "a priori" imprevisíveis e aqueles que, por se repetirem, "são legais e merecedores de estudo científico" (John D. Barrow, "Teorias de tudo", Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994, p. 173). Não que os fortuitos fossem desinteressantes, muito pelo contrário: eram tidos como expressões da vontade livre - arbitrária, temível - de Deus ou dos deuses. E, para compreenderem ao menos a sombra desses supostos atos de volição, valiam-se os homens de outro método, o jogo rabdomântico: I Ching, búzios, cartomancia, vareta, Urim-Tumim, dados… (a propósito, a palavra "azar" provêm do árabe "al-zahr", que significa "dado").

Um bom exemplo, "dado que, por acaso" (permitam-me o "jogo" de palavras) evoca a escola náutica portuguesa, é a história mítica do profeta Jonas. Tal como consta no Velho Testamento, o Profeta se esquiva de uma determinação divina, e foge num navio para Társis. Ocorre que, a meio caminho, irrompe violenta tempestade. Os marinheiros, temendo por suas vidas, decidem descobrir o "culpado" pelo infortúnio para lançá-lo às águas. (Impressionante como é antiga - talvez escrita em nosso genoma, de modo que nem eu mesmo escapo - a figura fascistoide do bom-moço, para a qual a solução de todo problema é mágica: achar um "Judas" e aniquilá-lo, seja física ou moralmente.) - O que os marujos fazem, então? "jogam": "E dizia cada um ao seu companheiro: Vinde, e lancemos sortes, para que saibamos por que causa nos sobreveio este mal. E lançaram sortes, e a sorte caiu sobre Jonas" (Livro de Jonas 1: 7).

A Geometria, Álgebra e Aritmética já se encontravam bastante desenvolvidas quando os matemáticos, dando-se conta da abscôndita racionalidade do acaso, ensejaram o cálculo da probabilidade: a Estatística.

E o fizeram inspirados "nos problemas de aposta, dados, cartas e todo tipo de jogos de azar" (J. D. Barrow, op. cit., p. 172). - Cientistas exatos envolvidos criativamente com jogatina pura! Vejam só o que o desespero com a liseira é capaz de fazer.

Quanto à expressão "navegar é preciso; viver não é preciso", bem: por se tratar do lema de uma "escola" cujo objetivo era desenvolver uma ciência - a Náutica - e aprimorar a técnica da navegação, por esse motivo creio que o termo "preciso" é para ser interpretado como "certo, realizável com perfeição, absolutamente seguro"; de sorte que a morte num naufrágio se deve ao fato de a própria vida ser, em essência, "imprecisa", isto é, quase caótica, vagamente previsível, composta por boas e más "surpresas", seja a bordo ou em terra firme. Com efeito, morrer absurdamente beira a normalidade: um tropeção infeliz, um osso de galinha na garganta, uma virose…

O que não quer dizer que a interpretação mais conhecida, aquela de Fernando Pessoa ("preciso" como sinônimo de "necessário"), seja errada. E não o é porque a arte também é gnose. Para confirmar isso, não vou longe: que o diga a poesia de Carlos Nóbrega - que não poderia ter faltado àquele carteado - e a d´O Poeta, bem como a "body art" espontânea do meu compadre Thiago, vulgo - não por acaso… ou sim? - Gaúcho-Show.
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