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sábado, 2 de julho de 2011

Fundamentos da arte poética

Entrevista com o escritor, editor e poeta João Carlos Taveira. Por Marco Polo*.

(João Carlos Taveira)

O poeta João Carlos Taveira, nascido em Caratinga, MG, reside em Brasília desde 1969. Ao longo dos anos, tem participado de vários movimentos culturais, contribuindo ativamente com suas ideias e ações para a consolidação de algumas das mais importantes entidades literárias da Capital da República. Com formação em Letras Neolatinas, trabalha atualmente como revisor, copidesque e conselheiro editorial. Tem publicados os seguintes livros de poesia: O prisioneiro (1984), Na concha das palavras azuis (1987), Canto só (1989), Aceitação do branco (1991), A flauta em construção (1993) e Arquitetura do homem (2005). Participa com seus poemas de várias antologias nacionais e estrangeiras e figura no Dicionário de Escritores de Brasília, de Napoleão Valadares, no Dicionário de Poetas Contemporâneos, de Francisco Igreja, e na Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa. Pertence à Academia Brasiliense de Letras, à Associação Nacional de Escritores e ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. Em 1994, recebeu do Governo do Distrito Federal a Comenda da Ordem do Mérito Cultural de Brasília, pela relevância de serviços prestados à comunidade artística e cultural.




MARCO POLO – Como você vê a poesia nesse mundo ultramoderno da Internet?

JOÃO CARLOS TAVEIRA – Do ponto de vista da divulgação, vejo com bons olhos. A Internet propicia rápido acesso aos poetas e seus poemas, com maior facilidade de procura e economia de tempo. A leitura acaba sendo favorecida também pelo conhecimento deste ou daquele nome que, de outra forma, dificilmente chegaria ao público comum do livro impresso.

MP – A poesia segue firme com o seu papel revolucionário?

JCT – Primeiro é bom que se diga uma coisa: a poesia só é revolucionária dentro da linguagem escrita, área a que está circunscrita enquanto criação artística. E por isso continua seu papel revolucionário de subverter a linguagem, enriquecendo-a e muitas vezes garantindo a sobrevivência da língua escrita.

MP – Muitos jovens rapidamente se veem deslumbrados com o mundo literário e também rapidamente se desiludem com ele. A maturidade ainda é essencial para a bagagem literária, ou perseverar nesse meio é quase impossível?

JCT– Nada é impossível, desde que haja trabalho e dedicação. O que o jovem precisa saber é que sem estudo, sem conhecimento, nada neste mundo será possível. A literatura está cheia de grandes exemplos de jovens que souberam perseverar e que venceram. Quando há aptidão, não há desânimo, não há cansaço. Só desiste de alguma coisa aquele que procura certos caminhos por comodismo ou por questão de vaidade. O que vem de dentro, nascido de uma visão sincera do mundo que nos cerca, certamente encontrará um porto seguro de afirmação e cristalização. E digo isso com relação a todo tipo de manifestação artística, mas principalmente com relação à literatura, que é a área de nossa atuação.

MP – A poesia tem como material os sentimentos. Existem sentimentos nobres que devem ser tratados na poesia ou para a poesia não existe nobreza?

JCT – Marco Polo, você me fez lembrar Manuel Bandeira. Em princípio, todo tema é válido. O que dá nobreza ou não a um tema qualquer é o tratamento oferecido dentro da linguagem. Nas mãos de um mau poeta, um tema nobre pode cair na vala comum do mau gosto. Quanto aos sentimentos, posso dizer que são necessários, mas não primordiais. Aliás, às vezes até atrapalham. O mundo está cheio de falsa poesia, de falsa literatura, e tudo em nome dos mais puros sentimentos.

MP – Além da musicalidade, do ritmo e da métrica, o que mais não pode faltar na poesia moderna? Ou a poesia moderna não precisa de nada disso?

JCT – Toda poesia precisa de ritmo, de musicalidade. Veja a poesia barroca, a poesia clássica. Talvez a poesia moderna precise um pouco mais dessa estrutura básica, pois hoje vivemos num mundo cuja base é a tecnologia, a rapidez das comunicações. Imagine um texto desengonçado — de poesia ou não —, sem ritmo, sem pé nem cabeça, veiculando à sua frente. Quem irá lê-lo até o fim, principalmente na Internet? Creio que será abandonado pelo primeiro leitor. Quanto à métrica, diria apenas uma coisa: esse substantivo, para certos poetas, como eu, é interpretado ao pé da letra como “a arte que ensina os elementos necessários à feitura de versos medidos”. E verso medido não tem nada a ver com escola, estilo ou período histórico. Não fico aborrecido, mas me torno um pouco repetitivo toda vez que essa pergunta me é feita, pois acho muito estranho poeta não conhecer os fundamentos da arte poética; músico não conhecer os fundamentos da música; médico não conhecer os fundamentos da medicina; jogador de futebol não conhecer os fundamentos desse esporte dentro e fora das quatro linhas do campo. Em toda área das atividades humanas é necessário um mínimo de conhecimento dos fundamentos básicos.

MP – No livro Arquitetura do Homem, você trabalha o verso de maneira esmerada. Isso é uma coisa especificamente sua, ou uma característica da sua poesia?

JCT – Olhe, toda a minha poesia procura síntese, desde o primeiro livro. É basicamente uma característica minha. A contenção alcançada nos meus poemas é o resultado de um esforço e de um trabalho ao longo da vida. Nada cai do céu. Tudo é resultado de procura, de abnegação, de entrega. Vivo poesia vinte e quatro horas por dia e o resultado não podia ter sido outro: uma poesia simples, direta e objetiva.

MP – Agora, uma última pergunta: quando sairá o próximo livro?

JCT – Quem sabe? Tenho quatro livros prontos para edição. Mas tudo depende de uma série de coisas que você conhece bem. O mercado editorial anda muito confuso em nosso país, que ainda não se libertou de certas dependências externas. Por isso, publicar aqui não tem sido fácil, mas a gente vai pelejando… Este ano estou pretendendo ver publicado um livro de artigos sobre autores e livros, com textos escritos nos últimos trinta anos. No mais, tudo são sonhos que o tempo se encarregará de transformar ou não em realidade.

(*Publicado em www.nosrevista.com.br revista Nós – Fora dos eixos, Editora Thesaurus, Brasília)/////