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quarta-feira, 13 de julho de 2011

O avesso das coisas (Eduardo Sabino*)


Com Do avesso (ECA-USP, 2010), Renato Tardivo estreia na literatura. O livro reúne 19 contos, as narrações divididas entre a primeira e a terceira pessoa (nesse caso, com o uso constante do discurso indireto livre). Os textos são muito breves, concisos, e buscam a captação de paisagens interiores. Mesmo as descrições ambientais refletem, em algum nível, o comportamento e a personalidade dos personagens.

A linguagem é aparentemente simples, descrições curtas, ágeis, permeadas por frases de efeito que quase sempre trazem à tona alguma poesia. Em “Maria Lúcia”, por exemplo, Renato diz: “O amor nasce, cresce e padece de vestígios das coisas”.

Quase todos os contos se desenvolvem em curtos espaços de tempo. Renato está mais interessado em clicar detalhes do que narrar jornadas. Por isso mesmo, foge da estrutura clássica do conto, “início, meio e fim”. O texto opta por não contar tudo (e por dizer muito), deixando lacunas, o antes e o depois do momento narrado, que dão liberdade, por meio da sugestão, para o leitor preencher os espaços em branco.

Os contos do livro perseguem o avesso das coisas, e alguns chegam a elaborar inversões de papéis. Em “Equívoco”, enquanto coordena a terapia de grupo com pacientes, um psicólogo é assaltado por um deles. Motivado pelos outros pacientes e pela necessidade de admitir o próprio fracasso, ele resolve dar queixa do crime. Mas a segurança do assaltante frente ao delegado e o discurso das testemunhas, que passam a negar o ocorrido, colocam o psicólogo na condição de louco e também nos leva a questionar a veracidade da narrativa que, desde o início, se atém ao ponto de vista do psicólogo. Em “Desempate”, uma mulher chega em casa, após trair o marido, e o encontra vidrado na programação da tevê. Sem tirar os olhos da tela e alterar a mansidão da voz, ele se mostra ciente da traição. A indiferença do homem coloca a esposa, nitidamente ansiosa por alguma reação violenta, na condição de traída. Em “Cinema diário”, o narrador-personagem parece estar satisfeito com a vida leviana que leva. O seu passatempo predileto: assistir ao anoitecer da cidade, pela janela, enquanto desfruta de uma hidromassagem. O que corta as viagens diárias na banheira é sempre a chegada da mulher e do filho. Na mesa de jantar, ele observa a aparente tristeza da mulher e a necessidade da criança de lhe chamar a atenção. Tudo lhe surge distante e irrelevante. Durante o sono, porém, a simulação se desmancha, e ele sofre com o vazio da própria vida.

Em “Queda livre“ e “Mr. Trautman”, Tardivo reflete sobre o fazer literário, especialmente no primeiro, em que a escrita se torna a metáfora do cartório, um local onde o protagonista inventa identidades, forja vidas e mistura o real e o fictício. “Graça” é uma narrativa muito bela sobre as paixões da infância e a perda da identidade infantil.

Em “porta do quarto”, encontramos o ponto alto do livro. Uma família em confronto direto com a morte, “filho mais velho”, “pai” e “filho mais novo”, assim mesmo, sem nomes ou artigos definidos. O caçula à beira da morte, os outros dois atrás de uma porta “que é, em toda sua opacidade, translúcida”. A narrativa se prolonga mostrando os pequenos gestos de agonia dos personagens diante da morte, retomando sempre, de forma circular, a aposta dos três sobre quem morreria primeiro, os gestos de desespero, os objetos da cena, especialmente a misteriosa porta branca e impenetrável que os separam do filho mais novo (e da morte). As repetições propositais na linguagem do conto lembram a confusão mental dos personagens e a própria redundância da condição humana, nesse ciclo constante de nascimento, vida e morte.

Tardivo que, além de escritor, é mestre em Psicologia, toma de empréstimo alguns temas muito investigados nesse campo: a difícil relação entre pais e filhos, a infância sempre latente e irrecuperável, a loucura, as disputas conjugais, a difícil convivência entre realidade e desejo, entre outros. Alguns contos, inclusive, referem-se claramente aos consultórios, analgésicos, espelhos, sonhos e terapias. O autor o faz, contudo, sem recorrer a termos técnicos. Ao transitar na ponte entre a Psicologia e a Literatura, Renato parte de um pressuposto extremamente importante para o fazer literário: deixa para trás as respostas científicas. Os personagens estão perdidos, em busca do “eu”, mas o narrador foca o conflito, a travessia, não a chegada ou o encontro.

Do avesso caminha no sentido oposto de um certo realismo quase jornalístico que domina parte considerável da literatura contemporânea. Eis a estreia de um autor brasileiro dos mais promissores.
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*Escritor e jornalista. Colunista da revista Plurale, contribui regularmente com revistas literárias, jornalísticas e científicas. Contato: eduardosabino@caoseletras.com.
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