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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Conversa de Nilto Maciel com João Carlos Taveira

(Nilto, Taveira e o editor Victor Alegria, em Brasília)


Muitas vezes estive com Taveira, em Brasília. Desde os primeiros tempos de minha chegada ao Planalto Central. No entanto, nunca o entrevistei. Ele, sim, me entrevistou. É que não me passava pela cabeça me fazer entrevistador. Depois, ao tempo da revista Literatura (na sua fase derradeira), resolvi fazer perguntas a escritores. Chegado o tempo do blog, esse defeito moral (o de meter-se na vida alheia) se apossou definitivamente de mim e tenho feito perguntas cada vez mais indiscretas a meus amigos. E assim chegou a vez de João Carlos Taveira (cuja biografia aparece ao final desta conversa), que não deixou de dar resposta a nenhuma das perguntas que lhe enviei por correio eletrônico, em junho de 2011.



A entrevista

Nilto Maciel – Você acredita em amizade?

João Carlos Taveira – Não só acredito como não sei viver sem meus amigos. Agora, existe um detalhe importante que é preciso dizer: amizade sincera, leal e verdadeira é joia rara no mundo de hoje. Tanto que os amigos que tenho são praticamente de vinte, trinta anos atrás. Recentemente fiz poucos amigos, uns três ou quatro, se muito.

NM – Desde quando nos conhecemos? Lembra a ocasião?

JCT – Lembro que vi você pela primeira vez na época em que acabava de sair publicada a sua novela A guerra da donzela. E eu ainda nem tinha publicado. Três ou quatro anos depois, fomos apresentados num dos encontros promovidos por Almeida Fischer, no Bar e Restaurante Macambira, na 406 Sul. Isso lá pelos idos de 1986. À época você estava com um livro novo na praça, talvez Punhalzinho cravado de ódio.

NM – Você tem boa memória?

JCT – É o que tenho de melhor. Graças a ela, nem preciso de papel, lápis, computador para escrever meus poemas. Já fiz vários sonetos decassílabos de memória. Praticamente, meus poemas nascem e tomam forma na memória, para depois ganharem o espaço definitivo no papel.

NM – As primeiras pessoas com quem mantive contato ao chegar a Brasília em 1977 foram Nicolas Behr, Danilo Gomes (que me entrevistou para o SLMG) e Salomão Sousa. Você deve ser do tempo da ANE.

JCT – Leia minha resposta a uma pergunta anterior. Foi justamente na ANE que nos conhecemos, pois os encontros no Macambira eram continuações das reuniões da ANE que não tinha sede própria e vivia em espaços alternativos, alugados ou cedidos.

NM – Você é sempre categórico, sem papas na língua, ou consegue ser educado, civilizado, bem comportado em algumas ocasiões? Quando?

JCT – Nilto Maciel, você conhece bem o meu temperamento, a minha personalidade. Nunca fui hipócrita nem falso. Procuro ser leal comigo mesmo e com as pessoas com quem convivo. Creio que isso é o mínimo que um homem honrado deve ter como parâmetro de convivência. Digo o que penso, mas só dou minha opinião quando sou chamado a externá-la. Vivemos num mundo em que as pessoas, por questão cultural ou por alguma deformação psicológica, acabam se rendendo à mentira, à hipocrisia, às dissimulações e não conseguem ser honestas nem consigo mesmas. Imagine com os outros! Mas, voltando às suas perguntas, afirmo que consigo tranquilamente ser educado, civilizado e bem comportado nos ambientes que frequento. Pelo menos, em minha casa, não tenho o hábito de mandar meus convidados calarem a boca. Procuro ser um anfitrião agradável e descontraído, atendendo a todos solicitamente com a mesma simpatia.

NM – Você é capaz de puxar a toalha da mesa do palácio, se não gostar da fala de um conviva?

JCT – Não. Quando não gosto da fala de algum conviva, deixo o ambiente o mais rápido que posso. Puxar a toalha da mesa seria uma grosseria, uma demonstração de fraqueza. E isso eu não me permito.

NM – Por que tantas mulheres? Porque é bom ter muitas mulheres ou porque é ruim viver muito tempo com uma mulher?

JCT – Essas perguntas não são fáceis de responder, pelo menos para mim que tive oito casamentos. Mas tentarei de alguma forma não decepcionar o meu interlocutor. Não sou de fugir de nenhum tipo de embate. O porquê de tantas mulheres na minha vida talvez seja pelo fato de gostar muito do sexo oposto, e sentir-me atraído pelo jeito, pelo cheiro, pelo corpo e pelas ideias que só as mulheres têm. Como a convivência não é fácil e eu sou um pouco impaciente com tudo, a troca muitas vezes é inevitável. Mas cada uma foi especial, no seu tempo; mesmo aquelas duas que não me deram filhos deixaram marcas profundas no meu ser e foram tão amadas quanto as demais. As outras seis, aquelas que me deram nove filhos, são hoje talvez as minhas melhores amigas. Conseguiram superar muitas mágoas e alguns ressentimentos e, com o tempo e os filhos crescidos, aprenderam a perdoar. Quem ganha com isso sou eu, que nunca estou sozinho. Costumo dizer que gostaria muito de estar casado com a minha primeira mulher, mas que isso teria me privado de ter conhecido as outras. E esse dilema só não permanece devido à grandeza de personalidade da última, que é a mãe dos meus dois últimos filhos e é uma pessoa cuja integridade está acima de tudo.

NM – Literatura, música, cinema, teatro: em que palco você se sente mais feliz?

JCT – Gosto das quatro artes mencionadas, mais a pintura — que frequento menos amiúde. A literatura certamente está na raiz de todas elas, pois comecei a ler muito pequeno e isso teve grande importância na minha vida. Mas a música, a pintura, o cinema e o teatro também estão de certa forma muito ligados à leitura que faço do mundo. Assim sendo, fico muito à vontade em todos esses palcos, com possibilidade de felicidade em todos eles. E escrever poesia acaba sendo consequência natural desse meu amadorismo em todas as artes.

NM – Existe pecado? Você é pecador?

JCT – Não acredito em pecado, embora tenha formação cristã. Portanto, não me sinto um pecador. Estou mais para uma espiritualidade ecumênica de resgate e purificação. Nascemos medíocres e o meio em que vivemos tende a nos manter cada vez mais medíocres. É preciso muita força de vontade, muita luta para vencer os obstáculos de uma vida opaca, sem cor. O nosso planeta tem hoje sete bilhões de seres humanos cada vez mais iguais, cada vez mais conformados... numa proporção tão desigual que está fazendo a festa do capitalismo, sistema que despreza os supranormais, os verdadeiros gênios da raça.

NM – Há ou haverá punição?

JCT – Só se for da própria consciência. O indivíduo tem o livre arbítrio para escolher, realizar e transgredir. Ser bom ou ser mau é uma escolha pessoal de cada um de nós.

NM – Você tem medo de quê? Da morte, do passado, do futuro, da realidade, do sonho, do desconhecido, do vizinho?

JCT – Costumo dizer que só a ignorância me assusta, esteja ela em que nível estiver. Mas não tenho medo de nada, nem da morte — que para mim é apenas uma passagem. Viver pode ser muito perigoso, como disse Guimarães Rosa, mas amo a vida de tal forma que não me sobra tempo para temer as adversidades nem o desconhecido.

Dados biográficos de João Carlos Taveira
João Carlos Taveira (Caratinga (MG), 17 de setembro de 1947) é um poeta brasileiro. Em 1969 mudou-se para Brasília, onde trabalhou na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) e na Viação Aérea São Paulo (VASP).
De 1987 a 1989 foi diretor da Divisão de Desporto, Lazer e Turismo, na Administração do Núcleo Bandeirante, no Governo José Aparecido de Oliveira.
De 1999 a 2002 trabalhou com o Engenheiro e Físico Paulo Gontijo, na organização de obras literárias e na construção do Templo da Ciência. Com formação em Letras Neolatinas, trabalha como revisor e coordenador editorial.
Durante 10 anos, foi editor da revista Literatura, de Nilto Maciel, e editou também a revista DF-Letras, da Câmara Legislativa do Distrito Federal, por cinco anos.
Pertence à Academia Brasiliense de Letras, à Academia de Letras do Brasil, à Associação Nacional de Escritores e ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, de que foi vice-presidente.
Em 1994 recebeu do Governo do Distrito Federal a Comenda da Ordem do Mérito Cultural de Brasília, por relevantes serviços prestados à comunidade artística e cultural.

Obra poética publicada
- O Prisioneiro, 1984, Brasília: Ed. Regional;
- Na Concha das Palavras Azuis, 1987, Brasília: Thesaurus;
- Canto Só, 1989, Brasília: Ed. Regional;
- Aceitação do Branco, 1991, Brasília: Thesaurus;
- A Flauta em Construção, 1993, Brasília: Thesaurus;
- Arquitetura do Homem, 2005, Brasília: Thesaurus.
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