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domingo, 7 de agosto de 2011

Sobre histórias e abismos (Eduardo Sabino*)




O realismo como padrão de nivelamento na narrativa

A seção de literatura nacional de uma livraria – aquela a que chegamos após atravessarmos labirintos quase borginianos de autoajuda, não ficção, best sellers, vampirinhos e criaturas afins – apresenta, em geral, o triunfo do realismo urbano. São narrativas que se alimentam de uma estrutura inaugurada por Flaubert e Balzac ainda no século XIX. A prosa realista se caracteriza, principalmente, pelo culto aos detalhes, dinâmicos e estáticos, da realidade nos arredores do olhar autoral.

Sem entrar em detalhes do estilo, a prosa realista pode ainda ser inserida numa categoria mais ampla, agora abrangendo quase a totalidade dos lançamentos nacionais: a narração de histórias. Mesmo fugindo à categoria predominante do realismo, a prosa contemporânea tende a seguir a estrutura clássica da narrativa de eventos fictícios. O narrador, em primeira ou terceira pessoa, descreve a ação de personagens numa trama, administrando, por meio dos conflitos, a intensidade da história para, ao final do texto, tentar ou não surpreender o leitor. Ainda que não haja peripécia, especialmente no caso do romance, só se tem a avaliação do livro pela leitura do todo. Entre a primeira letra e o ponto final, o autor inscreve o seu mapa particular, o panorama de uma história aspirante a universal.

Continuo a ler, de tempos em tempos, histórias sensacionais, mesmo com a estrutura supostamente manjada do realismo urbano. Mas aqui, inegavelmente, é mais difícil inovar. Tudo hoje é narrativa. O autor que se põe a narrar no estilo, digamos, padrão, confronta séculos de histórias bem contadas. Por isso precisa estar atento para não desaguar nos clichês e lugares comuns da produção literária. A história narrada, arrisco, deve ter a cara do hoje, os conflitos de hoje, como um tapa, de luvas ou não, na face oculta da vida contemporânea. Os grandes autores, nem sempre diretamente, captaram o espírito de uma época. Basta lembrarmos de Shakespeare subvertendo o poder dos reis na Era Renascentista, e Faulkner, no início do século XX, captando a alma da guerra física e psicológica entre brancos e negros no Sul dos Estados Unidos.

E quando não se tem intenção de contar histórias?

Apesar de Lobo Antunes e suas belas paisagens interiores, a prosa poética nunca mereceu a devida atenção dos holofotes da mídia. É renegada como se renega, no mundo do rápido e fácil, toda leitura aprofundada das coisas. Essa categoria tende a usar a linguagem como um instrumento para se aprofundar na própria linguagem e, quem sabe, observar mais de perto detalhes da condição humana no tempo e no espaço.

O preconceito e o mecanicismo das academias fez a crítica tomar o realismo, um dos ângulos privilegiados para a expressão da literatura, como um padrão de qualidade e nivelamento. Tudo o que foge disso, antes de ser diferente, é ruim e imaturo.

Em entrevista à Rádio Unesp, em 2010, Milton Hatoum afirma: “Guimarães Rosa esgotou todas as possibilidades do texto experimental.” Primeiro problema desse discurso tão comum: chamar um texto com técnica e lógica próprias, nesse caso, de um mago das palavras, de texto “experimental”. Como se tudo alheio à “arte clássica” fosse meramente um treino, uma experiência irresponsável. O segundo equívoco, ao meu ver, tratar a “proesia”, tão incipiente em relação à prosa tradicional, como uma fonte seca e estéril. A literatura tem um poder incomum de renovação. Se o texto clássico de Hatoum, com recursos explorados há séculos, ainda gera novidades muito além das cinzas do norte, o que dizer das possibilidades da prosa poética?

Nilto Maciel e Márcia Barbieri, dois exemplos

Atendo-me a leituras recentes, cito Nilto Maciel e Márcia Barbieri, dois ficcionistas em atividade no Brasil, um se aventura no universo das histórias, outro, nos abismos linguísticos.

Nilto Maciel é um contador de histórias fora do comum, com obra consistente e um trabalho de resistência, como blogueiro e antologista, na divulgação da literatura brasileira.

Dois volumes de contos do autor, Itinerário (1974) e Tempos de mula preta (1981) são, em boa parte das narrativas, convites à imaginação. Os contos são todos metafóricos, com algum apoio no fantástico, e se desenrolam em estruturas semelhantes às das fábulas e alegorias, mas sem a famigerada moral da história. Nilto se preocupa mais em demolir valores e costumes, sem autoritarismo, pelo poder de sugestão das narrativas.

As frases são curtas, precisas, a leitura caminha com leveza e concisão. Há um cuidado para evitar repetições, e até aQUEle pronome relativo, tão usado na prosa, encontra-se em uso equilibrado nos curtos e interessantes relatos. Às vezes surge também uma ou outra expressão mais comum, como os tais “olhos duros”, mas nada realmente prejudicial à qualidade do texto.

Vejamos dois contos do livro Itinerário, da primeira fase do escritor. Em “Pode me chamar de anjo mau”, dois anjos, Gabriel e Rafael, estão numa conferência angelical. Logo Rafael estranha o discurso do orador, e comenta com o companheiro, desconfiando de estarem no lugar errado: a conferência dos anjos maus. Gabriel, contudo, está gostando da palestra, e recomenda que o amigo tente ir além das aparências. Os dois começam um debate particular sobre a maldade e as aparências, com ecos de Nietzsche, até o palestrante interrompê-los para saber o motivo da conversa paralela. Em “O ouro de um pobre diabo”, um homem pobre e trabalhador, que sempre teve a ambição de ganhar na loteria, está deitado numa esteira, fazendo um balanço da própria vida, vendo estrelas pelo buraco do teto, até uma moeda de ouro cair do orifício. Outras esferas desatam a cair, e o homem, eufórico, começa a encher os bolsos e sacolas. O sujeito senta num canto e observa o espetáculo da crescente riqueza, anestesiado pela certeza de estar rico. Sonolento, mas fixo, o homem acaba dormindo, e, quando acorda, já está com o ouro na altura do pescoço. A fábula se aplica ao materialismo da vida atual, quando tantos se afogam em banalidades luxuosas. Sugestivo, o narrador diz: “Olhei para o teto. Não via mais estrelas. Em compensação, o buraco parecia entupido de moedas, que caíam lentamente, uma a uma”.

Márcia Barbieri investe na linguagem criativa, poética ao extremo, para compor seus contos. Escritora em começo de carreira, ela segue no trajeto sinuoso e pouco recomendado da “proesia”. Em As mãos mirradas de Deus (2011), por exemplo, interessa à autora os rompimentos mais radicais que a linguagem pode oferecer. O seu texto é um conjunto de metáforas organizadas entre os limites de um tema. Há personagens e tramas, matança de porcos e outros animais, artistas intensos, mulheres no espelho, amores frustrados, mas tudo soa poético, propositalmente difuso. Através dos vultos, a prosa de Márcia dialoga com questões universais da condição humana: o tempo, a morte, a velhice, o medo, a infância, a dor e a estranheza do existir.

Citemos alguns achados visuais. “Às vezes, minha dor são pássaros negros, de olhos furados e canto triste”, “O tempo é uma puta despencando filhos de sua vulva raivosa”, “A autopiedade fez ninho nos meus olhos mortos”. Os contos exploram o contraste entre os detalhes pulsantes (vivos) e os mórbidos. “Repicam no solo os sinos enferrujados da vaca já morta. Enquanto o feto se remexe na placenta, procurando o útero morto”. Elementos comuns na ilustração da vida, do sexo à cor predileta, surpreendem o leitor em contextos de morte e violência: “Vísceras desmontam e se espalham. Púrpuras. Minha cor favorita”.

Em As mãos mirradas de Deus, a leitura tende a seguir vagarosa, com muitas paradas para vislumbrar paisagens. Talvez um dos poucos incômodos seja o excesso de afirmações (O tempo é, a morte é, a vida é, o amor é...), mas não chegam a atrapalhar a viagem a um raro abismo linguístico. Diz Márcia em “A rotina do tempo”, definindo bem a própria busca autoral: “Jamais deixei de ler um livro porque conhecia o seu final; ninguém consegue retratar as minúcias e são exatamente elas que me atraem”.

Contar histórias ou encantar palavras?

Narrar histórias com competência ou exorcizar o encanto do ventre das palavras? Fico com as duas opções. Tanto numa categoria como na outra, há autores bons e leitores exigentes, ainda que não muitos em tempos de banalização cultural.

Falta, contudo, respeito ao que é essencialmente novo, e existe uma estrutura montada para a exclusão: receitas literárias na mídia, prêmios literários unidirecionais, oficinas para formar leitores e autores viciados.

Há também quem consiga se situar no meio termo, na ponte balançante entre as histórias e os abismos. A esses camaradas – os Joyces, Guimarães e Prousts deste mundo – minha sincera devoção.

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*Escritor e jornalista. Colunista da revista Plurale, contribui regularmente com revistas literárias, jornalísticas e científicas. Contato: eduardosabino@caoseletras.com.
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