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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Se não quer livro meu “nem de graça” (W.J. Solha)


(Capitao Solha by Fabrini)

Se for o caso, esta é uma oportunidade de NÃO virar a casaca. Como aconteceu com Relato de Prócula, meu trabalho anterior, estou editando Arkáditch, determinado a não fazer sessões de autógrafos e a não colocá-lo à venda. Portanto, para NÃO obtê-lo, basta que você NÃO passe o seu nome e endereço postal para wjsolha@superig.com.br, pois, se o fizer, receberá o livro pelo correio, livre, inclusive, da despesa de remessa.

– E se chover pedidos, como poderá atendê-los?

– Não choverá. Ainda tenho sessenta, setenta exemplares do Relato de Prócula encalhados, depois de meticulosa operação em que não deixei de fora ninguém que quis o romance. Tenho a consciência limpa: ganhei uma bolsa da Funarte para escrever esse livro, obtive um prêmio da UBE – União Brasileira de Escritores – do Rio, depois de vê-lo publicado, mas parece que, como sempre, fiz uma obra que agradou a poucas centenas de leitores, alguns poucos jurados, e só! Não tenho como consertar isso. Fiz o que pude.

O QUE É ARKÁDITCH?

Trata-se de romance de 220 páginas, editado – por encomenda minha – pela Ideia, daqui de João Pessoa, sem prefácio ou coisa parecida, pois – do mesmo modo que me encabula cobrar pela posse de um exemplar dele – chateia-me a simples possibilidade de incomodar algum amigo intelectual para elogiar um trabalho que, talvez, nem lhe entre no goto, comprometendo sua reputação de expert, etc. e tal. Afinal, nenhuma das grandes editoras do país se interessou pela publicação. E talvez tivessem razão, pois confiei seus originais, algum tempo atrás, a dois escritores: Hugo Almeida e Esdras do Nascimento – o primeiro de São Paulo, o outro, do Rio – e, se Hugo o aprovou in totum, do Esdras recebi esta mensagem:

– Não vou permitir que perca um livro importante desse com sua mania de referências e citações!

Quando entreguei os mesmos originais ao Magno Nicolau, da Ideia, sem qualquer releitura, surpreendi-me quando ele me ligou dizendo-me que consertara um bom número de erros de digitação e de outros tipos, mas acabara desistindo da revisão, pois eram muitos.

– É possível?

Só então me dei conta de que escrevera Arkáditch antes da última reforma ortográfica. Mas isso foi o de menos. Botei o computador para substituir todos os “vêem” por “veem”, “pára” por “para”, “ü” por “u”, “éia” por “eia”, etc. E aí me toquei nos “eruditismos” que tanto haviam incomodado o Esdras e saí fazendo um rapa, deles, deixando o Arkáditch com seis páginas a menos. De quebra, de tanto reler o livro, acabei alterando muitos de seus detalhes, amarrando-lhe pontas soltas. Isso é exasperante, porque nos amplia a certeza de que a perfeição, realmente, não existe. Ou, pelo menos, está fora de meu alcance.

MAS DE QUE TRATA O ROMANCE?

Em alguns livros meus, tratei da vida contemporânea aqui no Nordeste. Israel Rêmora, meu primeiro editado, lançado pela Record em 75, registra muito do que vivi em Pombal, no alto sertão paraibano, entre 63 e 70. A Cidade e as Serras, do Eça de Queirós, me motivou a escrever Relato de Prócula (A Girafa, 2009) juntando Pombal e João Pessoa, também nos dias atuais. A Batalha de Oliveiros (Itatiaia, 1989) veio ao mundo para que eu trabalhasse minha angústia de não participar da luta armada, no tempo da ditadura. Passa-se no interior do Pernambuco. E Arkáditch se concentra na capital paraibana. Curioso pensar que, no final do ano passado, trabalhei como ator em dois longas do Recife, com estreias marcadas para o começo de 2012: O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho, e Era uma vez Verônica, de Marcelo Gomes, ambos também abordando (e pela primeira vez, no cinema) a classe média urbana nordestina contemporânea.

E O ENREDO?

Certa vez, nos anos de chumbo, conheci um casal de jovens brasileiros formados pela Universidade dos Povos, de Moscou, por isso sem direito a exercer suas profissões no Brasil, e vivendo em certa clandestinidade. Por coincidência, eu lera, em Pombal, um calhamaço de cartas amareladas de um tal de Manoelzinho à minha amiga Nena Queiroga, parente de minha mulher e dona do primeiro cartório de lá, em que se via toda uma vida – a do cara que, na ficção, dei o nome de Stiepán Arkáditch (coisa de pai esquerdista, como o de Vladimir Carvalho) – nascido nas brenhas de uma aba de serra dali por perto, de repente com uma guinada surpreendente, pois – analfabeto até os quinze anos – apareceu lendo tudo, pelo que foi encaminhado ao seminário de Cajazeiras, com batinas, livros e tudo mais patrocinado pela “madrinha” Nena, que – refinada e culta – gozava, ainda, do conceito de “muito católica”. Aí Manoelzinho se manda pro Recife, de lá para o Rio, passa nos concursos da Petrobrás, Banco do Brasil e Banespa, escolhe a primeira empresa, é demitido por envolvimentos com comunistas, no tempo de Goulart, ganha bolsas de estudos pra Sorbonne e pra Patrice Lumumba (Universidade dos Povos), sai do país pra Paris e, de lá, se manda pra Rússia, onde se torna seu melhor aluno... até que um tumor cerebral – razão de sua genialidade – o mata.

A partir desse alicerce – o passado – construí o presente de meu romance. “Presente” em termos: comecei a criar o livro depois de participar de uma passeata pelo impeachment do Collor, em 92, evento que me empolgou tanto, que em 94 fiz uma mostra, Caras Pintadas –pra campanha contra a fome, do Betinho – exposição cujo carro-chefe era o quadro abaixo, de 160 X 220 cm, infelizmente numa foto tão desfocada, que em seguida reproduzo alguns de seus detalhes.





http://wjsolha.deviantart.com/gallery/#/ddmbym

Bem, os personagens de meu romance são como essas pessoas, cujas fotos reproduzi em tinta acrílica sobre tela. Tudo gira em torno da figura principal – Zé Medeiros – professor da UFPB em seu último dia de aula, quando vem à tona seu passado, que inclui diplomas na Sorbonne, acusação de um assassinato na Patrice Lumumba, etc, etc.

O resto é o resto.
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