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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Um escritor cearense mostra seus contos (Carlos de Souza)

(Tribuna do Norte, Natal, 7 de Dezembro de 2011)

Antes de mais nada, quero pedir desculpas aos leitores e ao poeta mossoroense Antonio Francisco, que teve o nome trocado na coluna anterior por Francisco José. O escritor Franklin Jorge me enviou este livro para dar uma olhada. Luz Vermelha Que Se Azula, de Nilto Maciel, Expressão Gráfica Editora, 212 páginas, sem preço definido. É um livro de contos que você vai folheando devagarinho e sendo fisgado pela prosa concisa deste cearense, praticamente desconhecido entre nós potiguares. Vivemos ilhados neste Nordeste sem porteiras. Outro dia comentei aqui W. J. Solha, o paulistano mais paraibano do Brasil. Agora é com prazer que comento aqui o livro deste nosso irmão cearense.

(...) este livro Luz Vermelha Que se Azula é vencedor do Prêmio Moreira Campos de Contos, do Governo do Estado do Ceará. E os contos são bons? São ótimos. Se você já teve a felicidade de ler O Laboratório do Escritor, do argentino Ricardo Piglia, sabe que lá ele tem a receita definitiva para o conto. Todo conto tem que ter mais de uma história, como camadas de cebola que o leitor vai descascando mentalmente. Há o tema principal e uma ou mais histórias subjacentes que vão se desenrolando junto com a narrativa. Eis o segredo. Nilto Maciel conhece bem o macete e o faz com maestria.

As frases são compostas de forma telegráfica e cortantes. Veja o exemplo no conto O Retrato de Brigite Bardot: "Sentou-se George no sofá e ligou a televisão. Um homem-bomba entrou num restaurante. Suzana saiu a resmungar. Queria ver a novela. Restos de corpos humanos, poeira, fumaça, correria. A Lua brilhava no ângulo direito da janela. George coçou a cabeça. Brigitte Bardot, cercada de repórteres, caminhava pelas ruas de Paris. Ainda bela aos 72 anos. George arregalou os olhos. Esqueceu a tragédia no Oriente e não quis mais saber da Lua. O locutor falava das atividades da atriz." Quantas histórias têm aí, meu compadre?

Eu sabia que um livro indicado por Franklin Jorge já tinha uma grande chance de me agradar. Mas Nilto Maciel me surpreendeu. Considero o conto uma das mais difíceis artes literárias. Nunca me arrisquei neste gênero por saber de suas armadilhas. Quando comecei a ler os contos de Júlio Cortázar eu pressenti o que viria a seguir. Então mergulhei nos contos de Guimarães Rosa, Jorge Luiz Borges e Franz Kafka. Depois disso ficou difícil encarar qualquer livro de contos, viu? Agora estou aqui me deleitando com essas histórias de Nilto Maciel, como este conto intitulado Agora sou Agnóstico, que começa assim: "Belisário deixou de frequentar restaurantes desde o dia em que, ao se sentar diante da mesa, coberta com uma toalha colorida, borboletas passaram a voar ao redor de sua cabeça. Catarina se espantou. O que foi? Ele, assustado, não quis dizer a verdade. Precisava lavar o rosto suado. E se dirigiu ao banheiro. Os insetos o acompanharam esvoaçantes. Quis correr, mas se viu ridicularizado: um homem correr com medo daqueles bichinhos inofensivos!"

Pois é, são esses tipos de escrituras que me prendem a atenção, não sei explicar por que. O leitor há que me perdoar a falta de método analítico. Não sou um crítico literário rigoroso. Escolho minhas leituras mais por instinto do que por qualquer outra coisa. Quando o texto não me oferece qualquer atrativo, abandono a leitura e dou o livro por perdido. Por isso, talvez, não goste de fazer críticas negativas aqui neste espaço. De vez em quando me atrevo a fazer isso, quando o autor não é daqui mesmo de Natal. Não gosto de criticar meus colegas de ofício que moram na mesma cidade que eu. Acho pedante. Mas tenho senso crítico sim, senhor, não se engane. Quando pego o um livro ruim de algum autor local, fico com pena do cara. Evito comentar aqui.

Tudo bem, recomendo a leitura deste Luz Vermelha Que se Azula, sem medo de estar errado. Gosto da imaginação deste escritor que fala sobre Chang-Kai chek e Alfred Hitchcock com total desenvoltura. Todo bom escritor tem que ter bagagem de leitura, conhecimento, domínio da técnica, sim. Tem que saber rir de si mesmo. Não precisa ter medo de ser chamado de intelectual.

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