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domingo, 1 de abril de 2012

Os escritores e a crítica – 2 (Franklin Jorge)

(continuação)

(Grahan Greene)

Do crítico que não discorda nem põe em dúvida, disse Grahan Greene que está apenas pensando em comer e beber de graça. A assertiva há de aplicar-se também aos editores e jornalistas que se comprazem em reportar os fatos sem questionamento, em contradição com o exercício intelectual sério que se nutre, antes de tudo, mais da dúvida do que da certeza.


Ao afirmá-lo, Greene concorda que escrever – como o resultado de um trabalho do intelecto – é, por sua natureza reflexiva, interpretação e análise; algo, enfim, muito distante da complacência e da credulidade que devem ser colocadas à prova a todo instante por aqueles que fazem uso da palavra escrita para exprimir suas ideias e concatenar seus pensamentos em sentenças repletas de significados.

Eis porque o ato de escrever, quando realizado em plena consciência, nunca é desprovido de culpa. Talvez por isso um escritor francês, de cujo nome não me recordo neste momento, tenha concluído que não se pode ser bom católico e bom escritor ao mesmo tempo. Afinal, escrever é um ato impiedoso, pois originalmente praticado com o estilo, espécie de instrumento cortante usado pelos antigos escribas para lapidar as letras e formar as palavras nas primitivas tabuinhas que antecederam o papel como suporte da escrita. Escrever é, repita-se, inscrever e esculpir.

O intelectual que recalca a crítica – seja por esperteza, covardia ou conveniência – tem naturalmente motivos de sobra para fazê-lo. Mascara ou oculta dessa forma interesses dos quais se envergonha ou não pode exibir em público para não se desmoralizar nem dar vexames. Devemos, portanto, nos acautelar de todos aqueles que falam mal da crítica e, de alguma maneira subreptícia, pois nunca ousam jamais se mostrar às claras, perseguem os críticos que ousam em busca do que é bom e belo, que instrui e acarinha a nossa fome de arte. Afinal, bom e belo têm, semanticamente, como sabemos, o mesmo significado.

Além disso, a crítica só se realiza plenamente quando baseada na exigência de qualidade que, segundo Lênin, citado por Marx, deve estar presente em tudo. Por isso, o artista cônscio do que cria – e não apenas do artista, mas qualquer profissional de talento que não dá trela à vaidade nem se deixa dominar pelo amor-próprio, que é um dos outros nomes da mediocridade –, não pode prescindir de sua luz.

Todas essas lições, generosamente prodigadas por Grahan Greene, expõem à admiração um escritor que sabia discernir o trigo do joio e o ruim do apenas razoável. E que, por seu talento aprimorado pela cultura e pela experiência, enobrece indelevelmente a literatura em língua inglesa.


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