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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Enigma Du Bois (W. J. Solha)



Brevidades (Passo Fundo, 2012), de Pedro Du Bois, é um livro cifrado, aparentemente obscuro. Minha primeira reação ante seus poemas foi a de supô-los resultado de um retorno ao dadaísmo, conforme esta receita de Tristan Tzara:

Pegue um jornal.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.
Não estou exagerando. Veja os dois versos finais do poema 36 e os dois, iniciais, do 50:

Sou da submissão o desenlace
das estrelas em novas armas.

No primeiro sinal obedeço a ordens.
Cego em entrelinhas, súbito em aventuras.

Mas o próprio Du Bois dá suas coordenadas ao dividir o livro em cinco partes, sendo as duas primeiras Breve apanhado sobre a (minha) lucidez, e Breve anotação sobre a (minha) sanidade. No poema 21, esclarece: Nas religiões encontro santas pessoas \ e sobre elas debruço em busca\ da sanidade.
Curiosa essa vinculação sanidade\ santidade.
Brevidades é, na verdade, um poema longo ou livro-poema, pois todas as cinco partes, subdivididas em 58 poemas curtos,sem títulos, numerados como capítulos de um romance, têm um tema só, com certo sequenciamento narrativo, cuja fragmentação tem por objetivo confundir e criar, assim, a sua aura poética.

O poeta diz no poema 11:
Condenso minha história
em episódios fantasiosos
Fantasiosos.
No poema 1:
A lucidez me repete\ fatos intercalados.\\Invado o lúdico e (...) cumprimento a sombra\do que sou e deixo arrolado o tanto procurado.
Mas ele alerta, no poema 16:
Estou acordado
e sei sobre o que escrevo.
Claro, está jogando conosco.
Apesar do rumo onírico – lúdico – do livro, estes versos reiteram a afirmação dele no poema 10:
Sei da equivalência
entre quilômetros e milímetros.
E sobre que escreve?
A respeito de qualquer coisa vital em seu passado, real ou não, cujo relato lhe é extremamente penoso.
Poema 13:
A campainha\desperta. Dispenso os pés\sobre a mesa\ e recuo os olhos \ ao recesso.\\ Esperto, desconsidero o som\ e o transformo em risos.\\ A porta impede\ o ingresso. A campainha \ ressoa.\\ Durmo o sono \ injusto do enclausurado.\\ \ A campainha cessa o contorno\ do som sobre o sonho.
Nessa nebulosa cena, rindo, (o que, como veremos adiante, é a marca de sua irresponsabilidade ), dorme novamente, o sono injusto do enclausurado.
Por que enclausurado?
O riso é meu segredo.
Reitera esse poema 13 no 17, que o remete à infância com uma clareza inesperada:
Todas as manhãs\ dos dias úteis\ sou acordado: está na hora, \ dizem. \\ O banho\ o uniforme\ os livros e os cadernos\\ café com leite\ o pão dormido\ a manteiga.\\ Porta a fora, o caminho\ recolhe colegas.\\ A sineta e a fila.\O silêncio.
Poema 2:
mantido do lado de fora observo
o permitido.
O permitido.
A porta é a divisória entre o poeta lúdico e o lúcido.
Poema 3:
A porta permite o traço entre mundos.
Saio e entro.
Já acordara com os pés sobre a mesa no poema anterior. Já no 4, lúcido ao acordar: pés sobre a cama\ corpo deitado\ mente livre\ dos compromissos.\\ Vago(...), debruço-me sobre a realidade no cavalgar \ inexistente da permanência: vago – o termo\ apreende o tom com que serenam \ nuvens em tempestade.
Há um permanente perigo no ar, nesse estranho clima de sonho. A metáfora da tempestade prossegue no poema seguinte:
Olho estrelas (a noite iluminada da cidade)\com pesar e ansiedade: procuro identificar\ os deuses oferecidos na infância e a desdita prevista na adolescência.
A imagem é forte: na contramão da santidade-sanidade – a cidade iluminada como estrelas de um céu em que há deuses oferecidos na infância – ele vê a insanidade e a desdita prevista na adolescência.
Converso com a noite (...) e sobre mim recaem\ raios inimagináveis.
Por que?
Poema 6:
Sugo a vontade\inconsciente de me ser cortada\ oposta\ fechada\\ a solidão do corpo.
A solidão do corpo!
levanto e saio\ em passos breves\ de adulto ser.
Segue-se um verso mais inesperado que os outros:
Ser desprezado em vida.
Aí reside o nó da coisa. Decide-se, no poema 7:
Escolho o sofrimento recorrente\ no descarte coeso da permissão: \\ permito o depósito\ do voto e a náusea\ real da inconfidência.
O uso de palavras inusitadas como “voto”, dificultando-nos a compreensão, parece-me confirmar essa “náusea da inconfidência”. A imagem visivelmente erótica que vem no poema seguinte, também:
Apanho o centeio: pão assado\ ao pé do forno
O terror o detém:
Embarro o trajeto, \ desconcerto a estrada, a casa, a paisagem.
(...)
Aguardo da criança o sorriso.
Jung divisa em nós um processo de individuação, em que o impulso para a autorrealização criadora nos arrasta para o que ele chama de self – o si mesmo, a totalidade da psique, seu ponto central. Cavalos selvagens, segundo ele, simbolizam, inúmeras vezes, impulsos instintivos incontroláveis que podem emergir do inconsciente. Vai daí que Du Bois, em seguida – Poema 9 – conta, num corte cinematográfico, que Na parede o cavalo grafitado\ atropela as cores e as descasca.\\ Tento acompanhar seu galope\ e ele some ao contato.\\ sobra (resta) a parede\descorada sobre o vão\ onde o cavalo esteve.\\ O vão permanece na minha memória\ como elemento histórico da veracidade.
E, como se pressentisse que seria analisado:
(Vejo pintores recompondo a parede
e o cavalo – sei – não retorna).
Du Bois parece um analista que, analisado, ri das deduções do colega. No poema 11, diz:
Condenso minha história\ em episódios fantasiosos: o não acontecido\ cai sobre a terra em chuvas (...). Calço a porta\ e o vento despercebido do estratagema \ entre vãos discursa: induz ao sono a verdade.
O não acontecido.
Poema 14:
A mulher espia através da janela.
(...)
Desviando os olhos (...) retiro-me\ em escuro ser\ aborrecido.
É um belo jogo entre o homem e seus símbolos. Poema 15:
Manequim: rasgo \ a roupa despossuída\ e me oferto à vitrine.
Poema 18:
Exposto em minha fragilidade
escamo a pele e me digo caça.
Mas
Farejo o perigo
na transposição
da sina.
E ele confirma o analista, no poema 19,
Retrabalho\ símbolos\ signos\ sinais: ofereço ao anoitecido\ o arcabouço cursivo da história.
E um deles torna tudo claro no poema 20:
Sigo a seta \ sigo a seta\ sigo a seta\\ sou seta cravada\ na beira da estrada; indico\o lado oposto\ na proibição\ na necessidade\ na obrigatoriedade.\\ Sigo a seta e me transformo no ar penetrado: alvo sobrevivente\ ao destaque.
O recado – apesar de escamoteado – é claro. Poema 21:
Nas religiões encontro santas pessoas
e sobre elas me debruço em busca
da sanidade.
(...)
Enfatizo a espera
e no fundo do corpo
exalo santidades.
Sanidade, santidade. Fundo do corpo.
Um recuo, no poema 22
(desligo a máquina e aprofundo o silêncio)
23:
A pureza da água \ retirada do poço. (...) Depuro da água a significância da procura.
Mais símbolos.
27:
Vou ao fundo do poço\ gélida água \ parada\ sob minha cabeça.
Nova sessão de erotismo camuflado no poema 29:
Como alimentar meu corpo
se o esforço de empunhar o garfo
me desfalece?
Sonho alguém colocando
Porções na minha boca:
Engasgo.
Minha vida otimiza respostas
Escatológicas: final reprisado
Ao avesso. Sou a caça.
31:
Complico escaladas
e despenco abismos.
33:
Olhos tensos \ atentam \ sobre mim
37:
Não me encontro anjo.
(...)
O céu aberto\ não me traz\ a dádiva\ de me fazer\ ciente\ da divindade.
38:
Embalo\ sonos: o desequilíbrio combatido \ em drogas me faz \ estável em desatinos.
46:
renasço na oportuna\ dimensão sucessiva\ dos esquecimentos.
E de repente Du Bois – ou seu narrador – é explícito. 53:
Fazemos sexo durante o tanto\ em que estamos junto s. Olhos nos olhos\ nos penetramos.
Conclusão.
57:
Na troca de acusações sofro a aspereza
das palavras malditas. Não sou o bandido
anunciado no noticiário.

Bem, estamos ante um poeta que, no mostra-esconde de fera que se move camuflada em meio ao cipoal, faz sua obra e nela não se perde.

Estou acordado
e sei sobre o que escrevo.

_________
E-mail de Pedro Du Bois para W. J. Solha:
Caro Solha, excelente sua apreciação. Em geral, tenho dificuldades em decompor meus textos: penso-os na totalidade. No caso do Brevidades, creio o mais bem (ou melhor) trabalhado sob a questão eu-lírico, eu-nada, eu-mesmo, os versos necessitam de seus títulos (em sua totalidade?). Não sou eu o "personagem", fosse, não teria o texto, talvez a lápide.
Instiga-me tratar daquilo de que fugimos desde sempre: nosso (pseudo) equilíbrio perante o dia-a-dia: adiamos.
Tento, sempre e sempre (será?) dar ao eventual leitor a oportunidade da re-leitura sob seu ponto literário-íntimo-superficial.
Não me é difícil "discursar" o poema, mas,, me é penoso - sim - falar sobre ele.
Obviamente que se quero que leiam o que escrevo preciso deixar as portas abertas (entreabertas, pelo menos), para não afugentá-lo de pronto: tê-lo enredado em mim (mesmo) é o que resta. Isto é, para aqueles que - ainda - se dedicam à leitura como resquício de busca e procura, não como entretenimento.
Faço-me pedante? Talvez, pela dificuldade em me expor além (e fora) do contexto dos versos.
O Brevidades, sei, busca tentar fazer emergir (nossa, 5 verbos), insisto, aquele ser que nos acompanha através dos olhos do outro, que nem sempre nos apreende em nós mesmos. Essa a sanidade. Creio (como se crer ainda me fosse permitido).
Grato pela sua atenta e acurada leitura, que torna (e retorna) válido o texto.
Abraços, Pedro.

E-mail de W. J. Solha para Pedro Du Bois:
Curioso: o caso de Brevidades mais seu e-mail afirmando "Não sou eu o personagem, fosse, não teria o texto, talvez a lápide", me remete diretamente aos sonetos de Shakespeare e a muito que já se discutiu sobre se ele fala de si mesmo - através deles - ou em nome de seu patrocinador.

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Nilto, o poeta esclarece: o Brevidades foi editado através do PROJETO PASSO FUNDO, da iniciativa, manutenção e condução do Ernesto Zanette. Ou seja, não tem nada com a prefeitura de Passo Fundo. Ainda, sou natural de Passo Fundo, de onde saí em outubro de 1969 (para o BB); depois de JPessoa, moramos em Itapema (SC) e, desde julho passado, em Balneário Camboriú (SC), onde estamos disponíveis para os amigos. WJ Solha

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