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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Escritores criativos, imitadores, aprendizes, iludidos (Nilto Maciel)


(Moulin de la Galette, Toulouse-Lautrec)

No Ceará (e no resto do Brasil) surgiu um enxame de escritores neste começo de século XXI. E isto é excelente. Para os donos das gráficas, sobretudo. Aparecem todo dia poetas, contistas, cronistas, romancistas de todos os tipos. Recebo livros deles a cada tarde. Muitos se acreditam homens de letras, simplesmente porque aprontaram um livro, saíram vencedores em concurso, tiveram obra aprovada em edital e, munidos de uns reais, a publicaram. Quase todos desconhecem as normas gramaticais. Acham-nas estapafúrdias, obsoletas, dispensáveis. E, mesmo com o revisor gramatical à disposição de leigos e doutores, em qualquer computador, ainda assim só conseguem garatujar anotações como macacos amestrados. Zombam de quem os critica: “Não existe erro. Tudo está certo. São as peculiaridades de cada um”.

Alguns desses borra-papéis se metem a amontoar orações, só porque conheceram português na escola, ouviram histórias de matutos, aprenderam a falar a língua materna (como os papagaios sabem gritar palavrões). Acham que basta produzir (eles não criam) uma história, como quem conta uma anedota num bar ou num salão de festa. Não há regras para eles. A elaboração frasal se dá primeiro como fala (mesmo que o locutor permaneça calado). Se sabe falar, sabe redigir. Para que ler romances, contos e poemas? Perguntei a um deles: “Quais os poetas de sua preferência?” Passou a mão na cabeça privilegiada e, como se pronunciasse a frase mais natural do mundo, peremptoriamente arrotou: “Não quero ser influenciado por ninguém. Não leio esse pessoal”.

Certamente adquiriram noções de escrita e respeitam as normas da língua. Acham, no entanto, que poeta é quem esboça um amontoado de versos, a que chamam de poema ou poesia; contista é quem elabora história curta, com poucos personagens, breve trama, etc; romancista é quem engendra história comprida, cheia de personagens, diálogos sem proveito, narrações áridas, com inumeráveis ações supérfluas, descrições físicas de seres, vias públicas, edificações, etc. Quando conseguem seguir as trilhas dos escritores mais célebres (José de Alencar, modelo de romancista; Juvenal Galeno, modelo de poeta; Moreira Campos, modelo de contista), se acham pares deles: “Inspiro-me com frequência em Alencar; sou um seguidor fiel de Juvenal; oriento-me por Moreirinha”. Batem no peito: “Mas pretendo ler Adolfo Caminha, Patativa do Assaré e Rachel de Queiroz”.

Nenhum escrevinhador novo do Ceará é obrigado a conhecer todos os autores de sua terra. Nem precisa ler todos os principais. Pode até deixar de lado Oliveira Paiva, Juarez Barroso, Francisco Carvalho. Pode deixar para depois os conterrâneos e partir logo para o que vem de fora. É chique ler Mia Couto, Pepetela, Valter Hugo Mãe. Se preferir, pode ficar com Camões, Balzac, Dostoievski, Machado de Assis, Proust, Kafka, Fernando Pessoa e outros nomes célebres. Pode até nunca ler celebridades como Victor Hugo, Pusckin, Eça, Goethe, Thomas Mann, Graciliano Ramos. Pode deixar para depois Augusto dos Anjos, Mário de Sá-Carneiro, Virgínia Woolf, Guimarães Rosa, Garcia Marquez, Clarice Lispector, Saramago e mais uma infinidade de seres acima da média.

São tantos os caminhos à frente dos aprendizes que, às vezes, devem sentir imensa dificuldade de fazer uma escolha. Que tal compor poemas como Álvaro de Campos? Ou romances como O Castelo? Quem sabe, contos como os de Cortázar? É até mais fácil: basta seguir os modelos. “Mas aí – lamenta-se o jovem (ou velho) postulante à condição de escriba – serei um simples imitador, não terei voz própria”. Por que, então, não criar um caminho próprio? Sim, o novo poema, o romance da era da Internet, o conto sem enredo ou sem pé nem cabeça. Lamento dizer que talvez não seja possível isto. E que um novo modelo poderá ser um fiasco. Modelos são como caminhos: podem levar ao brejo (com retorno humilhante); ao abismo (sem retorno); ao labirinto onde o Minotauro e outros monstros esperam o incauto aventureiro; a lugar nenhum; ao desespero onde se instalou a solidão dos incapazes; e, finalmente, ao suicídio. O pior, porém, é o inferno da ilusão, da crença de ter chegado ao eldorado, ao paraíso, à glória e aos píncaros da Arte.

É preciso ser franco em avaliação de arte (como em tudo na vida): nada de ludibriar os iludidos, passar mão na cabeça dos incompetentes, elogiar os medíocres. Porque eles não passarão disso, mesmo que aprendam gramática, figuras de linguagem, uso correto dos verbos. Mesmo que utilizem o maior número possível de vocábulos (em desuso, novos, neologismos, etc). Mesmo que aprendam a ser claros, objetivos. Mesmo que saibam medir versos (que soneto não é apenas poema de quatorze versos), criar personagens, descrever ambientes, narrar ações e divagações (fluxo da consciência, monólogo interior, escrita automática e outras técnicas). Mesmo que inventem os mais excêntricos enredos ou tramas. Mesmo que queiram imitar a realidade, em descrição/narração de crimes hediondos, a miséria humana (repetir o naturalismo), o lado mais sórdido da vida. Não conseguirão nada de excelente: escrevinharão versinhos que os antigos gregos já anotaram; contarão historinhas de títulos pobres e até romances robustos, que não resistirão a um enxugamento mais exigente.

Recentemente li um desses livros de 300 páginas. Os diálogos reproduziam (ainda com travessões e verbos dicendi) falas totalmente supérfluas e enfadonhas, que poderiam ser eliminadas, sem prejuízo da narração. Com os cortes, o livro se reduziria a 150 páginas. As descrições também se mostravam desnecessárias: salas com sofás e mesinhas, mesas amplas com pratos e talheres, camas largas, em cansativos rabiscos. Extirpadas, por inúteis, reduziu-se o livro a apenas 50 folhas. As narrações se estendiam por parágrafos e mais parágrafos: encontros de casais, pessoas a conversar em salas, notícias de viagens, mortes, doenças. Tudo como meros adereços, para que o leitor tivesse a ilusão de estar “vendo” passar diante dos olhos a vida oca de personagens miúdos e dispensáveis. Risquei-as, por desinteresse como leitor. Só restou o título. Como fosse pobre e comum, também o lancei ao cesto do lixo.

Sabe-se que o organismo dos seres processa os alimentos, aproveita o sumo (proteínas, carboidratos, vitaminas, etc) e rejeita o resto: as fezes. Semelhante movimento ocorre na criação artística (especificamente na literária). O que fica é o diálogo ou o monólogo interessante, a descrição artística de ambientes e a narração de fatos essenciais à trama (no caso da prosa de ficção) ou a ruminação de fatos, gestos, falas, sonhos, projeções, imaginações (monólogo interior) pelo narrador. O resto é obra (no sentido de fezes), que deve ser lançado ao vaso e encaminhado ao esgoto.

Muitos desses escreventes nem imaginam que “um bom conto não se esgota em si mesmo como simples registro factual ou naturalista de um acontecimento. Ou como mera conceituação da realidade. Antes, ilumina a realidade, como síntese desta”, na observação sucinta de Carlos Ribeiro, no artigo “Arte do efeito único: o conto”, inserto em À luz das narrativas: escritos sobre obra e autores (Editora da Universidade Federal da Bahia, 2009). Que transcreve uma opinião de Julio Cortázar, para quem o conto “Não é ruim pelo tema, porque em literatura não há temas bons ou temas ruins, há apenas um tratamento bom ou ruim do tema. Tampouco é ruim porque os personagens careçam de interesse, já que até uma pedra é interessante quando dela se ocupam um Henry James ou um Franz Kafka. Um conto é ruim quando é escrito sem a tensão que deve se manifestar desde as primeiras palavras ou as primeiras cenas. E assim podemos adiantar que as noções de significado, de intensidade e de tensão irão nos permitir [...] abordar melhor a estrutura mesma do conto”.

Outros desses incautos escrevinhadores até conhecem teorias ou obras de especulação do fazer literário, como o Decálogo do perfeito contista, do uruguaio Horacio Quiroga. Ou os estudos de Edgar Allan Poe, bem como o ensaio Alguns aspectos do conto, de Julio Cortázar. Mas nada disso lhes serve de lição, porque são teimosos e incapazes de criar ao menos uma obra pequena (no tamanho) suficientemente digna de leitura mais demorada. E teimam em bater no peito e dizer: “Ganhei o prêmio de melhor livro de contos do Ceará; meu livro foi resenhado pelo ilustre acadêmico fulano de tal; o jornal X dedicou uma página à minha arte; sou considerado (não se sabe por quem) um dos melhores contistas do Brasil”. E assim vivem e morrem na doce ilusão de que são escritores.

Fortaleza, maio de 2012.

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