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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Da leitura de Oliani, Alaor e Tardivo (Nilto Maciel)


 
No artigo “Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come” fiz a seguinte promissão: “para não me aborrecer mais e não criar outros inimigos, a partir de hoje, não tecerei nenhuma consideração (no sentido de apontar falhas ou defeitos), em artigo, resenha ou crônica, a impresso que me for enviado ou oferecido”.

Prometo cumpri-la, apesar dos inúmeros conselhos recebidos: “não deixe de apontar defeitos nos escritos alheios”.

Chegaram à minha mesa, no final de junho, mais seis volumes. Hoje mencionarei apenas três: A eternidade dos dias, de Luiz Otávio Oliani; Aprender é essencial (registros, testemunhos, opiniões), de Alaor Barbosa; e Porvir que vem antes de tudo (Literatura e cinema em Lavoura Arcaica), de Renato Tardivo. O primeiro é de versos; o segundo, de registros, testemunhos, opiniões. O terceiro é estudo de obra de Raduan Nassar e filme de Luiz Fernando Carvalho. Vejamos um a um:

A eternidade dos dias

As breves composições poéticas de Luiz Otávio Oliani estão nas páginas 11/57. Seguem-se 19 de apreciações da primeira seleção de versos do poeta carioca: Fora de órbita, que é de 2007. Numa das abas, Alexandra Vieira de Almeida, doutora em Literatura Comparada, faz estas observações: “A linguagem é de contenção e não de excesso, mas o seu contido se afoga no abismo, no eterno e no vazio do sem-limite da expressão poética”. (...) “O espaço do sagrado também se faz presente, alimentando como hóstia seus seguidores: ‘o poema também alimenta’”.

Aprecio a poesia de Oliani desde os tempos da revista Literatura. Como muitos outros poetas brasileiros, jovens ou maduros, ele me mandava seus palimpsestos. Se não me engano, cheguei a divulgar seis peças dele. Não sou de fazer elogios a toda hora, mas o poeta tem sido bem lido por seus pares. Pedro Du Bois (um dos bons poetas de quem tive conhecimento recentemente) assim fala deste: “Oliani, seus textos não ótimos e exploram com maestria o que se espera do poema”.

Para finalizar esta notícia, transcrevo a composição que dá título ao tomo em foco: “a vida / paragem de coisas / segue o curso // a existência / vê os homens // nem a memória / que eles plantaram / sobrevive // o que fica / senão a eternidade dos dias?”

Aprender é essencial

Conheço Alaor Barbosa, goiano de Morrinhos, dos meus tempos de Brasília. Quando mo apresentaram, eu engatinhava nas letras. Ele, mais velho, conduzia no alforje algumas coleções de contos. Depois abarcou também o romance. Acho até que o descobri no Dicionário Aurélio. Deixemos, porém, o passado de lado e cuidemos da nova obra de Alaor.

Em nota explicativa, o autor de Picumãs (foi este conjunto de narrativas, editado pela primeira vez em 1966, que vi no Aurélio) conta a história de seu novo impresso. Como está no subtítulo, o livro é composto de “registros, testemunhos, opiniões” (resenhas, artigos, memórias, depoimentos, crônicas de viagens, pessoas, entidades, cidades, acontecimentos, etc). São cativantes as homenagens que presta a escritores, principalmente goianos e brasilienses: José Godoy Garcia (“A poesia de Rio do sono”, em cinco partes, com transcrição de versos), Anderson Braga Horta, Bernardo Élis, Ursulino Leão, o português Agostinho da Silva, Bariani Ortêncio, Iran Saraiva e outros.

Para quem quer aprender a escrever: leiam também Alaor Barbosa.

Porvir que vem antes de tudo

Renato Tardivo é, como Luiz Otávio Oliani, escritor da nova geração. Mais recente do que aquele. Descobri-o na Internet. Sua primeira seleção de histórias, Do avesso, é de 2010. Sobre ele escrevi a resenha/crônica “Renato Tardivo e o avesso da moda” (mostrada no blog literaturasemfronteiras).

Doutor em Psicologia Social da Arte, o escritor paulista “atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise”. E este seu novo tomo, no dizer de Ismail Xavier (nas abas), “nos oferece uma leitura original do díptico Lavoura arcaica na qual livro (1975) e filme (2001) compõem um jogo peculiar de identidade e diferença. Tal jogo se configura pela análise de forma como o texto de Raduan Nassar e o filme de Luiz Fernando Carvalho constroem o mundo da fazenda em que se tece o destino da família de André, personagem-narrador que, no retrospecto, revive momentos-chave de seu percurso marcado pela cerimônia do incesto cujo desdobramento veio confirmar a ambivalência dele, André, em contraste com a subversão silenciosa de Ana, sua irmã”.

Fortaleza, 4 de julho de 2012.

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