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quarta-feira, 4 de julho de 2012

Nota despretensiosa sobre um livro admirável (João Carlos Taveira*)


O livro mais delicioso e sério que li ultimamente, com atraso de quinze anos, intitula-se Paris... nos tempos de Debussy e é de autoria do pianista e acadêmico Oriano de Almeida, já falecido. Publicado em 1997, com apoio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e do Banco Real, o livro é uma biografia do autor de Prélude à l’après-midi d’un faune, La mer e Pelleas et Melisande, mas também um retrato vivo da Cidade Luz, pintado na segunda metade do século XIX. Mas, nesse curto espaço de tempo, somos levados a empreender uma viagem vertiginosa pela vida parisiense, com suas ousadas, borbulhantes e surpreendentes cenas de humanidade explícita. Poucas cidades do mundo disseminaram conhecimento científico, literário, musical e pictórico como a capital da França naquele período.

Oriano de Almeida, com riqueza de detalhes, compõe um painel histórico abrangente, que inclui a ciência, a música, as artes plásticas, a literatura e, principalmente, a política, na transição da monarquia para os ventos inconstantes da república — num ambiente transbordante do espírito de liberdade que pairava sobre o mundo moderno. A narrativa tem início em 1862 quando nasce Achille-Claude Debussy, em 22 de agosto, na tranquila Saint-Germain-en-Laye, cidadezinha situada a poucos quilômetros de Paris.

Paralelas ao nascimento e evolução do pequeno Claude, até sua transferência definitiva para a capital, vão surgindo informações cristalinas nascidas da pesquisa minuciosa e do trabalho diligente de composição do autor norte-rio-grandense nascido em Belém do Pará. Depois, Oriano de Almeida se deteve na fase impressionista, para justificar suas descrições. Mas, por força do tema e das circunstâncias históricas, transcendeu os limites da escola que sucedeu ao naturalismo e ao simbolismo francês e pintou um quadro de época deliciosamente encantador. Nem a pobreza e parvoíce da família Debussy nem o barro que moldou a personalidade do pequeno Claude conseguiram ensombrear as páginas de seu estudo. Há uma brisa suave e um colorido ameno pairando sobre os personagens que povoaram Paris naqueles tempos, tanto os de têmpera maleável, como Charles Gounod, Camile Saint-Saëns, Gustave Flaubert, quanto os irascíveis Victor Hugo, Paul Valéry, Anatole France.

Além das privações que marcaram a vida do jovem Claude Debussy, no mundo da música, Oriano de Almeida descreve tipos os mais caras de pau no campo da literatura. São seres que fingem que escrevem, mas nada criam, embora conheçam a gramática e as normas cultas da língua. Fingem que leem, e até compram livros, mas só conhecem lombadas... Dizem que apreciam música, mas nunca vão a concertos. Acreditam piamente que, pelo nome da família e herança de sangue, podem pleitear vagas e cadeiras nas academias de letras e entidades congêneres, apresentando textos chinfrins, que mais lembram atas e requerimentos, numa linguagem cartorial e técnica. Por fim, vivem entre escritores, para se sentirem escritores, e até publicam, “mas suas obras (poucos ultrapassam o primeiro livro) não hão de resistir até o fim da primavera”, comenta Madame Feurville com sarcasmo e má vontade.

Ao fundir as artes e a política num mesmo cadinho, o autor nos oferece momentos de delicada beleza plástica. Um exemplo delicioso fica por conta das viagens de Dom Pedro II àquele país, que o acolhe com entusiasmo, respeito e fidalguia. Na primeira delas, Victor Hugo, mesmo sabendo do interesse do imperador em conhecê-lo, nega-se veementemente a qualquer possibilidade de encontro. Na segunda, no entanto, o representante máximo do Brasil dá uma aula de nobreza, humildade e desprendimento: sai do hotel em que estava hospedado e, sozinho, vai até a casa do autor de Os miseráveis, batendo-lhe à porta às nove horas da manhã, naquele longínquo mês de maio de 1877. Ao vê-lo, o escritor, entre desconsertado e surpreso, o recebe já sem nenhuma hostilidade e a conversa se estende até próximo do meio-dia. Na terceira, como todos devem saber, o pai da Princesa Isabel ausentou-se do Brasil por motivo de saúde, o que deu à filha oportunidade de abolir a escravidão, para desespero e desgosto dos poderosos de plantão. Na quarta e última, por força de um golpe sujo e desrespeitoso com a sua pessoa e com a nação, está ali para morrer. Mas essa é outra história.

Há no livro, também, mil e uma tiradas repletas de humor e fanfarrice, como as do milionário Eduardo Prado, por exemplo. Mas o foco central é a vida do jovem Achille-Claude Debussy, o pianista e compositor que, com talento extraordinário, conseguiu superar as dificuldades de uma vida medíocre e se impor como um dos grandes representantes da música francesa de todos os tempos. Hoje é considerado o criador da música impressionista. E esse retrato, por outro lado, vai se construindo de pequenas filigranas políticas e alguns malabarismos diplomáticos, em que entra em cena a chegada de Eça de Queiroz a Paris, para assumir, como cônsul, a representação de Portugal na França. O fato, por si só, é impagável, ainda mais porque protagonizado pela mulher do antecessor: a Viscondessa De Faria. Mas há muitos outros momentos desse naipe espalhados pelas páginas do livro, compondo o arcabouço da narrativa almeidiana.

Ao concluir a leitura, a sensação que fica é uma só: o Brasil é um grande arquipélago composto de pequenos arquipélagos, como diz o professor Ático Vilas-Boas da Mota do alto de seus conhecimentos e experiência. Os estados da federação, mesmo com a assistência do governo central, acabam ficando muito a dever, pois os representantes políticos veem a arte e a cultura, para dizer o mínimo, como antípodas aos seus interesses pessoais, geralmente mercantilistas e corporativos.

Livros como esse deviam ser editados por uma grande editora e distribuídos nacionalmente, para que os jovens tivessem acesso a uns instantes mágicos da história universal. O pianista que o escreveu — Oriano de Almeida — partiu vendo sua obra apreciada apenas por leitores do seu pequeno arquipélago: Rio Grande do Norte. Se tanto.

Brasília, 17 de junho de 2012.
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*João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, com vários livros publicados.
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