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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Cartografia de um sacerdócio (Ronaldo Cagiano*)



Escritor prolífico, Nilto Maciel, cearense de Baturité que viveu por mais de três décadas em Brasília, acaba de ter sua vasta bibliografia registrada e valorizada com a edição de “A arquitetura verbal de Nilto Maciel” (Ed. Imprece, Fortaleza, 2012, 326 pgs).
             Fruto de minuciosa pesquisa, análise e organização do poeta João Carlos Taveira – mineiro de Caratinga radicado na Capital da República, onde também vem atuando com destaque como escritor e no estudo e valorização da literatura candanga – a iniciativa vem fazer justiça a um dos autores que tem produzido uma obra do mais alto nível, homologada pelos seus pares, festejada pelos leitores e sacralizada pela crítica consciente e não cooptada.

Sem favor algum aos nomes que pontificam no eixo cultural e hegemônico, que tanto tem negligenciado (de forma injusta e – por que não dizer – proposital e criminosa) a literatura que é produzida em outras regiões do País, Maciel é autor de mais de duas dezenas de títulos, que vão do infanto-juvenil à poesia, do conto ao romance, da crônica à organização de antologias.
           
             Além da numerosa e qualificada produção, contabiliza alguns dos mais importantes prêmios, entre os quais o Prêmio Secretaria de Cultura do Ceará de 1981 e 1986, para o livro de contos “Tempos de mula preta” e “Punhalzinho cravado de Ódio”; Brasília de Literatura de 1990, para o romance “A última noite de Helena”, Graciliano Ramos 1992/93, do governo de Alagoas, para o romance “Os luzeiros do mundo”; Cruz e Sousa, 1996, do Estado de Santa Catarina, para a novela “A rosa gótica”; e Bolsa Brasília de Produção Literária de 1998, para os contos do volume “Pescoço de girafa na poeira”, entre outros.
 Em sua trajetória laureada, contam ainda a publicação de revistas e jornais, entre os quais “O saco” e “Literatura – Revista do Escritor Brasileiro”, que em mais de dez anos publicou consagrados e novos, fazendo história e reunindo o melhor da produção ficcional, poética e ensaística de norte a sul do País, abrindo espaço e dando voz e vez a autores até então desconhecidos e que depois firmaram sua carreira literária.
 Ao mapear a fortuna crítica de Nilto Maciel, o poeta João Carlos Taveira não apenas faz justiça a um autor que vive a literatura intensamente, com dedicação exclusiva, um profundo senso de responsabilidade estética e cioso da alta voltagem de sua multifária produção, como também contribui para o seu registro definitivo. Eis uma fonte permanente de consultas aos leitores, autores, estudiosos, críticos e todos quantos se interessam por conhecer o que melhor foi produzido na literatura contemporânea brasileira, que tem, sem dúvida, em Nilto, uma fonte inesgotável e rica de informações, como demonstram a diversidade das impressões e opiniões sobre seu trabalho, oferecendo um espelho fiel de sua importância nesse cenário tão acostumado à obviedades e aos compadrios de uma mídia oportunista e impermeável ao que realmente merece respeito e divulgação.
              A cartografia de sua vasta obra, coligindo a opinião abalizada de respeitados críticos e ensaístas, nos leva a crer no grande sentimento que sustenta a criatividade, governa o talento e embala o espírito de Nilto Maciel. Trata-se de um sacerdócio, do qual alimenta sua vida, seu espírito polifônico, seu olhar detido nas questões fundamentais do homem e da arte. A literatura para Maciel é teto, chão, evangelho, pulmão e horizonte. Tem para ele aquela mesma e sagrada dimensão de que nos fala outro grande escritor, o português Vergílio Ferreira, em sua obra-prima, “Aparição”: “Escrevo para ser, escrevo para segurar nas minhas mãos inábeis o que fulgurou e morreu.”
  Nilto é esse escritor visceral e comprometido com as demandas e desafios contemporâneos, cujas inquietações existenciais e preocupações com o valor e o lugar da literatura num mundo de tanta etiqueta e coisificação, faz reverberar em suas obras, colocando-se frente a frente com a necessidade de refletir e comunicar as angústias individuais e os dilemas coletivos. E essa imersão devotada no universo da criação, além de ser um compromisso estético, é também sua (e)vocação ética.
  (*) Escritor, reside em São Paulo.

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