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sábado, 8 de setembro de 2012

Lições de poesia (José Santiago Naud)*






Encontro primoroso de fervor e inteligência, este registro literário agora publicado reúne dois importantes escritores mineiros residentes na capital federal. Com grande felicidade vem comprovar, em prosa e verso, a prestigiosa posição de Alan Viggiano e João Carlos Taveira no cenário das letras nacionais. Alan desenvolve aqui a sua conferência pronunciada na ANE o ano passado, quando com amplitude já abordara personalidade e valores estéticos na obra do poeta Taveira. Ressalte-se a virtude de riquezas primordiais oriundas na província e orientadas a partir da originária Caratinga ou Inhapim, ampliadas em dimensão de universo.
         
          A identidade brilhante dos autores, somando interesses afins, confirma circunstâncias singulares que destacam então coletivamente toda a sinergia da terra mineira, movida à manifestação da mais viva nacionalidade. Assim, a estrutura coerente do livro faculta-nos o ingresso fecundante num denso e extenso território lírico, plenamente construído com toda a probidade. A confidência objetiva do estudo reproduz profusamente a fortuna crítica do poeta, situando ou reproduzindo seus versos fiéis ao evoluir cronológico e segundo precisa bibliografia. Alcança ainda a claridade explícita de uma conclusão onde o fazer literário, iniciado a partir do limite individual, ascende a instâncias da realidade dimensões infinitamente superiores. No cerne desta mensagem, irredutivelmente humana, afeita ao poder do verbo — exímio e inscrito com sabedoria —, desvela-se a exatidão de uma forma unívoca e absolutamente original de dizer.
Inumeráveis afirmações críticas de óbvia constatação ilustram a certeira trajetória dos versos de Taveira, e já se encontram afiançadas por nomes prestigiosos. A relação dos títulos é consistente e bastariam as publicações, a que o poeta prestou o concurso de suas invenções ou juízos de valor, para consagrar o seu esforço e confirmá-lo como autor de franca projeção. Coevo de quantos se firmaram na década de 1980, é lídimo herdeiro de experientes gerações pregressas e antecipa os achados mais felizes de expressões subsequentes. Valha aqui uma referência que o singulariza. Sua afeição à música erudita e atenção assídua a concertos seletivos ou a discografia de clássicos e contemporâneos podem explicar muito bem o harmonioso resultado em seus poemas — exatos na técnica (menos por ela do que pela essência verbal) e plenos de expressiva sonoridade. Firma por si próprio o melhor que se produziu na poesia brasileira. A hermenêutica do Alan não tergiversa. Diz, textualmente:

“Verdadeira aula universitária e universal sobre a Poesia (...), lembrando a urgência de retomarem as faculdades esse estudo, para superação das carências midiáticas, no encontro da alma de Minas, do Brasil, e a alma universal.”

Andou bem, inclusive, ao reproduzir nas primeiras páginas do seu estudo a capa do livro Arquitetura do homem, a obra síntese do poeta, escrita após um jejum de doze anos, mas reflexo de uma vida inteira votada à Poesia. Ali, com a inspiração do “homem vitruviano”, geometricamente inscrito nas figuras do quadrado e do círculo, evoca-se o pensar de Leonardo da Vinci, provavelmente o espírito mais completo surgido na espécie humana. Soma esotérica de visível e invisível, o Céu e a Terra em conjunção perfeita para a excelsa harmonia entre Mundo e Ser.
É assim. João Carlos Taveira confirma sua vida entre imagem e palavra. Augura-nos, além das sombras do agouro, a suspensão contingente pelo sopro do cósmico.

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*Texto publicado nas orelhas do livro A Fortuna Poética de João Carlos Taveira, de Alan Viggiano (Editora André Quicé, 2012). 
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