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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Cordel de algodão e sal (Nilto Maciel)




 Diante de mim, três livros editados recentemente no Nordeste do Brasil. A eles me apegarei nesta crônica quase resenha, neste misto de algodão e sal, tudo branco. Ou preto no branco: letras impressas em papel claro. Além dessa circunstância, não conheço nenhum dos três aedos. Nunca os vi, nunca os li. Minto, já examinei um compêndio de Paulo de Tarso. Os impressos são estes: Poemas cuaze sobre poezias (Teresina, PI: Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, 2011), de Cleyson Gomes; Algodão e sal (Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2012), de Antonio Francisco e Maria Maria Gomes; e Misto Códice/ Códice Mestizo (Mossoró, RN: Sarau das Letras / Salamanca, Espanha: Trilce Ediciones, 2012), de Paulo de Tarso Correia de Melo, tradução de Alfredo Pérez Alencart.

          Cada um traz com uma “novidade”, uma “moda”: Cleyson com a invencionice no título e alguns malabarismos verbais (nada, porém, muito diferente do realizado por Oswald de Andrade, ou pelos futuristas, os concretistas, os praxistas, etc). Em “Fashion” ele tenta explicar isso: “A moda / Molda o modo / do modelito / No mundo moderno”. O casal poético potiguar reinaugura o modelo de obra de arte elaborada a quatro mãos. Não sei como isto se processa: um dá a ideia e o outro anota; um faz um esboço, o outro desbasta a pedra bruta; um rabisca o primeiro verso, o outro toma a si a missão de completar a obra. Sei da existência disso. Recentemente resenhei o romance Moenda de silêncios, forjado por Ronaldo Cagiano e Whisner Fraga. E a novidade de Paulo de Tarso? Não será a característica de apresentar uma publicação bilíngue (dele e do tradutor). Não será a fonte indígena de seus poemas (no romantismo se fez isso – Gonçalves Dias, no poema; José de Alencar, no romance), e os modernistas levaram adiante o projeto). Ou estará aí? Pois o próprio PTCM (assim o natalense assina a nota explicativa da origem de seus salmos) se refere a uma “exclusiva tradição oral dos indígenas do Brasil e constatei, fascinado, uma literatura entre outros povos do Novo Continente, em especial os Aztecas, os Incas e os chamados Povos da Pradaria”. E explica: “Traduzi, adaptei, fantasiei até perder o controle da criação”.

A coleção de Antonio Francisco é composta de variados tipos de construções poemáticas: curtinhos (quase haicais); de uma, duas, três ou mais sílabas na mesma peça; rimados e não-rimados; prosaicos, políticos, filosóficos; de vocabulário quase sempre livre da fatuidade dos beletristas e voltado para o Nordeste brasileiro ou o sertão. O próprio título do conjunto é suma disso: Algodão e sal. O repertório, então, é rico de imagens envoltas em som e pelo significado das palavras, como se lê em “Antes”: “Um cheiro de longe / traz a chuva: // molha a mão / e semeia”.  

Paulo de Tarso também faz uso das mais variadas formas de versos e estrofes. Como a série de poemas curtos em “Do Livro das Definições Asteca”. Composições de três e quatro estrofes, assim como mais amplas: “Códice apócrifo”, “Espelho” (dois sonetos). No entanto, o poeta não foge ao assunto principal do opúsculo. Não se perde no verso sentimental e muito men0s no poema-protesto. É mais uma louvação a sua poesia. Louvação da vida em sua plenitude, a vida de nossos ancestrais indígenas. 

Há em Algodão e sal uma cadência musical em algumas peças, como em “O jarro”, além das rimas auditivas e toantes. São versos de sete sílabas, divididos em estrofes de dois versos, muito usados por cordelistas e cantadores. Há também outras medidas, misturadas nos cantos. Há muitos cânticos de puro protesto: “Um homem matou um pássaro: / assou e o comeu. // O mundo gritou: / anti-ecológico! / anti-ecológico! // Outro homem dizimou a floresta / – onde o pássaro morou – e no lugar ergueu um prédio. // O mesmo mundo gritou: / empreendedor! / empreendedor!” (“Incrível”). Entretanto, Francisco e Maria vão mais além disso, do chamado poema panfletário ou político, e também cantam nossa terra nordestina, o povo e seus costumes: “Meus avós nasceram perto do mar, / meus pais nasceram perto do mar, / eu também nasci perto do mar. // Mas, carrego um Seridó dentro / de mim”. Isso é de um lirismo comovente. O Seridó (microrregião do Rio Grande do Norte e da Paraíba) está presente em outros momentos do inventário: “O Seridó dorme”, “Vinte de Julho” e mesmo em poemas em que o nome não está explícito: “A caatinga resiste heroicamente, / o látego do sol, porque sabe que / logo mais chegará a noite. // E, com ela, / o sereno para lamber / as chagas que o sol faz durante o dia”.

O vocabulário de Paulo de Tarso não chega a ser rico ou exótico, sem ser pobre ou trivial. Como ele explicou, há uma recriação de temas e de linguagens: “peri pathos peri pathos” (“Da Atlântida”), “Teo kalis Teo kalis” (“Da pirâmide”) e mais outras formações verbais na parte inicial, “Mitogênese”, a origem dos mitos ameríndios.

A dicção de Cleyson é toda ela calcada na metalinguagem. E ele está bem ciente desse procedimento, sabedor de tudo, consciente. Vejam-se “Metalinguística” e “Poema concreto”. Ou será feita de paráfrases, recriações, quase-pastichos (não redigirei cuaze-pastixos), imitações, arremedos de obras clássicas ou mais conhecidas?  “Poema de 7 fases” é brincadeira com obras de Drummond e Bandeira, além do mito grego de Ícaro e, ao mesmo tempo, uma tomada de posição como homem de letras, tal qual o fez o próprio Bandeira e fizeram os modernistas de 22. E antes, muito antes, efeituaram os rapazes da Padaria Espiritual, no Ceará. Brincadeiras verbais, tais como as de seu ancestral mais recente, Nicolas Behr, de Brasília, podem ser vistas em “suFIXO”, “Dístico atomizado” (“Hiroshimaram Nagasaki, / Nagasakiaram Hiroshima”). Vates mais antigos também servem de modelo, como em “Canção do exíguo” (Gonçalves Dias). Até a linguagem dos adolescentes na Internet está imitada ou ridicularizada, como em “Literalmente vazio”: “Ñ sei o q há / Há o q ñ sei / Ñ há, eu sei”.

Por último, meu aplauso, pela concepção dos versos e sua reunião em volumes modestos, aos quatro menestréis nordestinos. Louvo também o bardo espanhol Alfredo Pérez Alencart, pela tradução dos versos de Paulo de Tarso. Merecem gabos os abnegados lapidadores de poemas, e contos, crônicas, romances, ensaios, etc. São os humanistas (todos poetas, mesmo os que nunca escreveram versos) porta-vozes dos calados, dos emudecidos, dos tolhidos pela timidez. Eles bradam (ou apenas sussurram ou nada dizem) diante dos portões dos impérios, das inquisições, das fogueiras, e daquilo chamado ordem e progresso.

Fortaleza, 13 de janeiro de 2013.
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