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quarta-feira, 26 de junho de 2013

O escritor-estadista (Franklin Jorge)





 (Thomas Mann)

Escrevendo à sua amiga Hilde Distel, disse Thomas Mann que o artista é como um príncipe, na medida em que, como um príncipe, leva uma existência representativa. Baudelaire, por sua vez, definiu o artista como um farol, cuja existência serve para estimular nos outros homens uma participação efetiva nas ações cotidianas.

Talvez por isso os equívocos cometidos por um grande escritor têm efeitos mais devastadores do que aqueles cometidos pelos políticos, que veem apenas os seus interesses e não se deixam molestar com a sorte dos outros homens. Por melhor que seja, nenhum político serve de exemplo para ninguém, ao contrário do humanista que transcende a circunstância e ultrapassa o abismo da indiferença.

Nenhum escritor, melhor do que o próprio Mann, encarnou o papel desse “escritor-estadista” a que se referiu em palestras e conferências. Para o autor de “Doutor Fausto”, o artista que vê e sente as coisas e não as repassa aos seus contemporâneos é pusilânime e indigno.

Esclarecer e informar são princípios que estão na base da escritura consciente, colaborando para a libertação do homem, ao romper com as cadeias impostas por interesses de grupos que usufruem o poder e dele se apropriam com fins reprováveis.

Detendo-se sobre essa questão, Thomas Mann reflete que o artista, por uma questão mesma de fidelidade a princípios que são inegociáveis, terá de fazê-lo mesmo que os principais interessados na sua mensagem a rejeitem e escarneçam dela, vencendo desta forma o comodismo que, segundo o jornalista Genésio Lopes, é o pior entorpecente social.

Compete ao escritor-estadista vencer os refinamentos do egoísmo, afirmando-se como um ser consciente, solidário e participativo. Sua função não é adaptar-se, mas esclarecer e corrigir-nos as opiniões. Assim, um intelectual que se liga ao poder trai a essência do intelecto e perde a confiança dos outros homens. Um escritor mau caráter é, portanto, um monstro horrendo.

Num mundo deformado pela violência e a injustiça social torna-se difícil imaginar que um escritor, compenetrado de suas responsabilidades, pudesse se contentar em realizar tarefas puramente literárias, enquanto os pobres são humilhados e explorados pelos poderosos.

Convocado a agir em favor da humanidade, cabe-lhe o dever e a missão de fortalecer a auto-estima do seu povo, sem medo de agir como líder da sociedade, sem aquela espécie de interesse que vulnera a ação dos políticos profissionais, prisioneiros da circunstância e de interesse efêmeros.

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