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terça-feira, 22 de novembro de 2005

Duas antologias (Nilto Maciel)


Cidade e Caminho reúne contos de cinco escritores de Ituiutaba: Alciene Ribeiro Leite, Jair Humberto Rosa, Luiz Vilela, Rauer Ribeiro e Roberto Maciel.

A melhor qualidade de Alciene está na linguagem, trabalhada, concisa, produto de uma insistente busca da palavra e da frase apropriadas ao corpo do texto, como se se dedicasse a criar um corpo idealizado a partir de infinitas micropeças postas à sua frente. Realiza o verdadeiro trabalho de criação, ou seja, de escolha. Porque a realidade é um todo, cabendo ao artista a tarefa de captar ou capturar este ou aquele detalhe, esta ou aquela parte do todo, e a partir daí montar a sua reprodução microscópica do mundo. Estes detalhes (ou partes) são para o escritor as palavras. Nada mais do que elas.

Tragédia no lupanar (Nilto Maciel)


Cena 1



Mada Madaleva senta-se à mesa, pede coca-cola e se põe a pensar. Aspira o próprio perfume, colorida como uma imensa borboleta. Circunvaga num mundo de esperas inúteis, recorda a infância, a família extinta, o antigo palco onde vivera heroínas de amores trágicos. E faz pose, a imitar moças de revistas. Assim, os homens gostarão tanto dela que serão capazes até de cometer desatinos e crimes terrivelmente passionais.


Cena 2



A mesma Madaleva junto à mesma mesa. Bebe a mesma coca-cola e, lânguida, posa para o doce Miguel Ângelo. Pincéis lambuzam a tela, tintas salpicam o chão infecto. A mão felina do pintor reproduz a saia curta godê, os seios ainda belos, os lábios carnudos, a fronte cismadora, a cachoeira negra dos cabelos ondulados. (Miguel buscara o prostíbulo não para pecar, mas para pintar.)



Cena 3



Passos no tablado do velho casarão. Súbito um pontapé escancara a porta. Madaleva desfaz o sorriso estudado e mostra cara de pavor. Uma nesga de sol tinge o chão. Entra Teófilo, assolado por incontrolável ciúme ou masculina inveja. E faz chover enxofre e fogo sobre o jovem pintor. Tomam conta do ambiente sulfuroso odor e compacta fumaça, como a fumarada de uma fornalha.



Cena 4



O modelo, num exemplo de débil sensibilidade, conversa animadamente com o terrível alquimista, esquecidos da tela, do pintor e do crime. Repetem-se os primeiros momentos da cena anterior. Passos no tablado do velho casarão. Súbito um pontapé escancara a porta. Mada desfaz o sorriso estudado. Nervoso, irado, revólver em punho, assoma ao prostíbulo corpanzil tatuado de sereias, marroquinas e peixes alados. Vasculha toda a casa, urrando.
Madaleva – (Sussurrando) Meu irmão!
Teófilo – (Perplexo) Que quer ele?
Madaleva – Procura o homem que me roubou a virgindade.



Cena 5



O tatuado se aproxima de sua irmã, cospe-lhe no rosto, dá-lhe murros e põe-se a gritar: “Fala a verdade, cadela.”
Enquanto isto, traiçoeiro punhal reluzente penetra-lhe as costas largas. Jorram vermelhos rios das escamas das sereias, dos seios das marroquinas e das barbatasas dos peixes.



Cena 6



Madaleva – Por que assassinaste meu irmão?
Narciso – Agi em legítima defesa.
E abraçam-se, abrasam-se, beijam-se avidamente.



Cena 7



A porta do lupanar abre-se languidamente e uma figura de alta linhagem – imagem fiel de Oscar Wilde – desfaz o idílio, com pausada voz:
– É no cérebro, somente no cérebro, que se cometem os grandes pecados do mundo.



Apagam-se as luzes.

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