Todo dia Abelardo seguia os passos de Camilo. Porque quase nunca este se encontrava com Maria no mesmo lugar. Um dia Camilo perguntou se Abelardo gostava de sofrer. Ficou mudo e se afastou do irmão. Não sabia explicar por que necessitava ver, de perto e sempre, aquelas cenas animalescas. Mordia os lábios, arregalava os olhos e estremecia. Talvez devesse apresentar-se no momento do êxtase do casal e interromper aquela sem-vergonhice. Não, não tinha coragem para nada na vida. Um covarde, um medroso. Certa vez não precisou seguir Camilo. No dia anterior ouvira, por três vezes, Maria e o namorado se despedirem assim: “Amanhã na ponte”. Saiu de casa antes do irmão. Escondido, viu a moça chegar. As águas do rio corriam lerdamente. Os mosquitos voavam e ziniam. E Camilo não aparecia. Maria olhava para os lados, sentava-se, andava e resmungava: “Amanhã na ponte. Ou amanhã na fonte? Na ponte, na fonte”. Olhos arregalados na direção da amada, Abelardo mordia os lábios. Por que Camilo não chegava? Talvez perdido na fonte. E Maria já se preparava para partir. Oh! não partisse. Prometia-lhe mil beijos, carícias de mãos, um abraço imensurável e o amor mais ardente. Porém ela sumiu entre as folhagens, feito uma fada, e ele gemente, os lábios em sangue e o corpo todo em chamas.
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quinta-feira, 26 de abril de 2007
domingo, 22 de abril de 2007
Desmistificações de Camilo (Adelto Gonçalves* )
Camilo Pessanha (1867-1926) teve uma vida inteira de abandono, desistência e amargura que estão reflectidos nos seus versos mais marcantes. Mas, nas três décadas que viveu no Extremo Oriente, a vida irregular e o gosto pela bebida e o ópio, se o prejudicaram alguma vez, não o impediram de ascender socialmente na fechada sociedade portuguesa de Macau. E não foram poucos esses êxitos, como se pode acompanhar pela leitura de “A Imagem e o Verbo: Fotobiografia de Camilo Pessanha”, livro organizado com especial esmero por Daniel Pires, que não só vasculhou arquivos de Portugal como viajou a Macau para consultar a Biblioteca do Leal Senado, onde se encontra o acervo de Camilo Pessanha, e resgatar um pouco da cidade onde o poeta viveu os seus melhores anos.
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