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domingo, 30 de janeiro de 2011

Chuvantiga (Raymundo Netto)





Seria uma crônica sobre a chuva? Mais uma, dentre tantas, não fosse o fato de que, ao entranhar a lembrança no pensamento, senti chover-me no peito a chuvantiga. A quedar-me assim, comecei:

Numa das ruas do Monte Castelo, seguia um barquinho de papel a correr-lhe pelas águas frias das coxias. Sem pressa, sem pressa, chuá, chuá, imaginava: todas as aventuras do mundo cabiam naquele barco a desmanchar-se lentamente enquanto vaguejante por sobre um céu baço que parecia, na meninice, ser tão grande.

Nas calçadas, buscando bicas, outros meninos e meninas saltavam felizes a tiritar, braços cruzados ao peito, inda livre, crentes na simplicidade de uma vida a viver ainda distante e muita.

À praça redonda, as peladas nas areias corriam entre pernas ligeiras. Os menores piscinavam no antigo chafariz coberto em mosaicos vermelhos que nem vi crescer, assim como aquelas crianças.

Em volta, pretos guarda-chuvas cumprimentavam-se com bons-dias domingosos; o peixeiro a cantar para as freguesas aos portões; encimando os muros baixos, verdes em limbos, as buganvílias, afirmando um vai-e-vem, dançavam; os cães a ladrar o estranhamento; as águas cortinavam, de cores, arco-íris na varanda; as empregadas corriam a desroupar o varal: “Chega, menina!”; o cheirinho de terra molhada entupia as narinas quando os respingos frios — vinham das venezianas do quarto — jaziam no travesseiro; o tactac repenicado no telhado acompanhava o grito do vizinho no alto do muro do quintal; o quintal avermelhecido em acerolas.

Era manhã e na sala inda escura o café esperava — passado no pano —, com leite, o pão francês quentinho e a manteiga de lata.

O pai, a mãe, os irmãos: nunca a mesa fora tão pequena.

Chovi com a chuva a tarde que ribombava.

“Mundo, mundo, vasto mundo”... Ah, se eu não me chamasse Raymundo, como vento gemeria, não em prosa, mas em poesia, todo o vivido retrato que, só no escuro deste quarto, a rasgar os céus azula-me o clarão, pela janela distraída do nublado coração.

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Coluna quinzenal do Vida & Arte de O Povo: Raymundo Netto. Contato: raymundo.netto@uol.com.br blogue AlmanaCultura: http://raymundo-netto.blogspot.com
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sábado, 29 de janeiro de 2011

Três poemas de Pedro Du Bois

Hóspedes


Hóspede na inutilidade perco

a paciência em obviedades:

ao responder anseios interiores

rasgo paredes com palavras

alarmadas ao milagre e refaço

a noite divulgada ao acaso: junto

o teor do expediente e o declino

em versos: no inverso da jornada

esqueço a escala crescente

das necessidades:


hospedo a maldade

ultrapassada.


Sobram cicatrizes em calosidades:

esquecer ainda é o maior mistério.


Crescer

A antevisão do inferno

conforma a figura ensinada

enquanto criança: ter sido

criança antes

da história

adulterada


o menino ativa idéias

descomunais ao corpo

ingente, purgado

em vitaminas inexistentes


o inferno desdobrado

em passos: passado

recoberto em eras.

Floresta desbastada.



Desprezo

Desprezado ao sustento

despedaço o corpo à estrada: ir e vir

em bifurcado

corpo


estraçalho a vontade

ao recontar pedaços

inaproveitáveis


repouso antes da viagem

na longitude programada


imerso em pensamentos

penso a passagem

do pássaro escalado

ao morro atrás da casa


ao sustento identifico

a fome: restam fatias

intercaladas.
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