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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

‘Vida cachorra’, de Mariel Reis, entre o distanciamento e a identificação (Claudinei Vieira*)





Literatura não é reprodução da realidade (assim como nenhuma arte). É um reflexo, um comentário, uma postura, um ponto de vista do autor para o que lhe acontece ao redor. Nem mesmo uma pretensa literatura ‘realista’ pode fazer uma transposição direta da vida para as páginas: há sempre, e em primeira e última instâncias, a mediação do autor.

Comigo (Belvedere Bruno)



Ando com a alma triste e, no semblante, um sorriso enganador. Eu, que sempre frisei que a mentira era o maior dos males! Mas não a convidei, ela se instalou simplesmente e parece não ter data de partida. Terá encontrado seu habitat em mim? O tempo pintado em gris acentua essa sensação de perda. É como se, a cada momento, minha energia se esvaísse através de meus poros. Quisera ver arco-íris, mas por onde andam? Perco-me nos labirintos de meus pensamentos quando rememoro aquilo que, de tão distante, parece que nunca existiu. Já fui feliz, sim. Senti o aroma das flores e me inebriei. Dormi pacificada com o bater das ondas nas pedras, o cheiro de maresia. Já dancei parecendo deslizar nas nuvens. Beijei e fui ao paraíso. Por que minha alma de repente ficou triste e me transmutei em falsidade, mantendo um sorriso enganador? Resta-me um desejo: a visão do arco-íris, primeira referência de assombro, beleza e êxtase em minha vida. Reflito sobre a existência do eu. Terei, de fato, existido? Talvez tenha sido um simulacro. O que é a vida, senão uma frenética busca? Se um dia percebemos a fuga ou o estranhamento em relação ao nosso eu, é porque nunca existiu ou não nos foi fiel. E cá estou, comigo, esse ser estranho.
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