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sexta-feira, 7 de setembro de 2012
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Você pode (W. J. Solha)
Quando trabalhava na agência do Banco do Brasil em Pombal, vi um colega – Roberto Peixoto de Mello – hipnotizar um garoto, fazê-lo enrijecer-se em pé, depois incliná-lo, carregá-lo no que o horizontalizava, deitá-lo com os calcanhares apoiados no encosto de uma cadeira, a nuca no espaldar de outra, depois colocar-lhe um peso no estômago, sem que o menino mostrasse qualquer reação, petrificado.
Aquilo me mostrou o quanto a Humanidade ainda pode alcançar.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
O cão (Luiz Martins da Silva)
Não sei o que de concreto contempla
Do mundo pela janela em neblina.
O dia, opaco, a existência infinda.
Eu é que vejo desertos, caravanas.
De repente, algo o incomoda, ladra,
Como se ainda existissem ladrões
E ameaças a circundar cidadelas.
Eu é que diviso pontos, muralhas.
Dali a pouco, recolha, novelo.
Já não é nem lobo, nem matilha,
Dormitando o casulo emprestado.
Estamos juntos, desde nossas gêneses.
Ele, até hoje, sem dias de amanhã.
Eu, cinjo o pescoço com um novo nó.
/////
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Quem influencia quem...? (Tânia Du Bois)
(John Singer Sargent, Homem lendo)
“... o poeta / vê no vôo da borboleta / a possibilidade de dar asas / ao poema.” (Carlos P. Rosa)
Sofrer influência, adotar a peculiaridade como linguagem, investigar os vazios, as palavras e folhear livros é fazer constatar a história, e se tornar amante da ilusão onde encontro refúgio. Em outras palavras, esse lugar é a passagem sobre o movimento das palavras. “Embora poucos se dêem conta, que a influência de opinião na vida das pessoas é enorme. Opinar é um modo de expressar a relação entre eu e o mundo” ressalta Carlos Matheus, em seu livro: As Opiniões se Movem nas Sombras.
O romance de Marília Arnaud (Ângela Bezerra de Castro)
Contista consagrada por vários prêmios literários, tendo sua obra publicada por editoras de circulação nacional, Marília estreia em outro gênero narrativo, com o lançamento do romance Suíte de silêncios. Texto para ser lido como um poema, tal o nível de elaboração e densidade da linguagem, no desenvolvimento do tema do amor habilmente reinventado pelo enfoque original. Amor que não conheceu “momentos pequenos, nem gestos de fastio ou indiferença, tampouco palavras banais ou mesquinhas”.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Mártires da cultura (Ronaldo Monte)
Antigamente (e bota antigamente nisto), os mais velhos costumavam usar alguns ditados para incutir certos princípios na cabeça das crianças. Lá em casa, minha mãe vivia repetindo: “boa romaria faz quem na sua casa está em paz”. O que significava: é melhor ficar em casa do que arranjar confusão na rua. Outro ditado que ouvi muito foi: “quando a cabeça não pensa, o corpo é que padece”.
Agregar (Emanuel Medeiros Vieira*)
“Não Matarás”: não basta.
Teu mandamento será este: farás tudo para que o outro viva.
É vero sim o que quero:
não me importa o estoque de teu capital, Brasil,
mas tua capacidade de: amar
lavrar
aspirar
compreender.
Esse estatuto de miséria não é o nosso,
e a tecnologia da última geração não me sacia:
meu coração navegador quer mais.
A Ética – cuspida, debochada, no reino do simulacro,
virou produto supérfluo porque não tem valor contábil.
Tempo dessacralizado e sem utopia:
a esperança é um cavalo cansado?
A aventura acabou no mundo?
Seremos apenas meros grãos de areia na imensa praia global?
Habitantes de um mundo virtual neste mercado sem cara?
Soará pomposo, eu sei:
não deixemos que nos amputem a alma
(e que acolhamos o outro).
Ser gente: não mera massa abúlica, informe, com os olhos colados
no retângulo luminoso de todas as noites.
O tempo é apenas dos alpinistas sociais?
Sou bom porque apareço, não apareço porque sou bom.
Na internet a solidão é planetária,
mas do abismo – fragmento – irrompe um menino eterno,
e sentes o cheiro de uma manhã fundadora.
(A Morada do Ser é mais importante que o poder/glória.)
E o poema resiste,
singra a eternidade,
despista a morte,
seu estatuto não é mercantil.
Já não esqueces o essencial:
Na estrada de pó e de esperança, acolhes o outro.
Teu mandamento será este: farás tudo para que o outro viva.
É vero sim o que quero:
não me importa o estoque de teu capital, Brasil,
mas tua capacidade de: amar
lavrar
aspirar
compreender.
Esse estatuto de miséria não é o nosso,
e a tecnologia da última geração não me sacia:
meu coração navegador quer mais.
A Ética – cuspida, debochada, no reino do simulacro,
virou produto supérfluo porque não tem valor contábil.
Tempo dessacralizado e sem utopia:
a esperança é um cavalo cansado?
A aventura acabou no mundo?
Seremos apenas meros grãos de areia na imensa praia global?
Habitantes de um mundo virtual neste mercado sem cara?
Soará pomposo, eu sei:
não deixemos que nos amputem a alma
(e que acolhamos o outro).
Ser gente: não mera massa abúlica, informe, com os olhos colados
no retângulo luminoso de todas as noites.
O tempo é apenas dos alpinistas sociais?
Sou bom porque apareço, não apareço porque sou bom.
Na internet a solidão é planetária,
mas do abismo – fragmento – irrompe um menino eterno,
e sentes o cheiro de uma manhã fundadora.
(A Morada do Ser é mais importante que o poder/glória.)
E o poema resiste,
singra a eternidade,
despista a morte,
seu estatuto não é mercantil.
Já não esqueces o essencial:
Na estrada de pó e de esperança, acolhes o outro.
*Este texto obteve o Primeiro Lugar no Concurso Nacional de Poemas, promovido pela Associação de Cultura Luso-Brasileira, de Juiz de Fora, Minas Gerais, sendo contemplado com a Medalha de Ouro “Jacy Thomaz Ribeiro.” O tema do concurso foi “Solidariedade: Por um Mundo Melhor.”
/////
domingo, 2 de setembro de 2012
Fabulações (Pedro Du Bois)
Da desmoralizada fábula
retiro a lição antagônica
do ato
fujo em cigarras
jogadas ao vento
na derrubada
da casa
(pela enésima vez
ofereço ao pastor
o lobo despedaçado)
no final da história
retorno em alisadas
frases. Em cada começo
reencontro a farsa.
/////
sábado, 1 de setembro de 2012
O momento (Teresinka Pereira)
"enquanto a vida rola"
Helvio Lima

O momento é teu
e podes usá-lo como a rosa
ou fazê-lo durar como o carvalho.
O presente será sempre
precioso e profundamente
insensível e desmemoriado.
Outros dizem que
a momentânea rosa
só existe para ocultar
os espinhos da paixão.
Desfruta a etérea
esperança da flor
que se mergulha no tempo
sem ao menos tocar
o seu desejo.
/////
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
O alto da montanha (Geovane Monteiro)
Para Grace
Era verão e a vida simplesmente existia. Eu reparava a tarde flamejando no relógio da torre e tolerava o calor. Aos poucos, desconfiava procurar uma beleza. Mas onde encontrá-la, se me havia apenas o verão cobrindo a cidade? Andava distraído pelas ruas e queria dar um nome a tudo que eu suspeitava ser majestoso. Mas o medo de errar... Temia chamar de belo o que mais tarde poderia ser traído pela minha liberdade.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
O diarista Saramago (Franklin Jorge)
José Saramago consigna os dias de sua vida em Cadernos de Lanzarote [Caminho, Lisboa, 1994], que Luis Carlos Guimarães ofereceu-me em dois volumes com uma bela dedicatória.
Caudatário de infinitas leituras e de uma longa e rica experiência humana, Saramago faz o que quer com as palavras — à serviço de idéias e reflexões — que põem em evidência o diarista, ainda mergulhado na circunstância, em busca da transcendência que vai muito além da urgência de dizer, nítida em seus diários, pois nele é forte o tom da voz do homem que conversa consigo mesmo, em linguagem elevada e culta, ajustada aos seus íntimos pensamentos.
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