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quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

Ubirajara Galli: êxtase fabular (Nilto Maciel)


A Poesia é êxtase. A linguagem poética, desde as suas origens, é encantatória. O objeto da Poesia é o maravilhoso. Para os mais apegados às idéias de engajamento político estas três afirmações soarão como retrógradas. No entanto, A Fábula do Êxtase, de Ubirajara Galli, é um livro novo. A linguagem deste “poema único em seis estações” ou destes poemas reunidos é genericamente a do prazer, ou do hedonismo e, por isso, mágica. Perdidas no interior dos versos, palavras como “sereias”, “lábios”, “língua”, “bica láctea” e “mamas afáveis” falam de sedução e prazer sexual. 

Alguns versos dizem claramente de felação: “A morte das ações no repasto do trigo, / que a minha língua cultiva / na vazante do teu ventre”.Como estes também: “Cansei de separar / as pétalas da vulva / jabuticaba” (...).

Noutros versos de Ubirajara a linguagem figurada não consegue esconder o caráter hedonista do poema: “Minha língua ara / a terra dos ácidos”.

Nesse gênero de linguagem do prazer, uma espécie alcança mais notoriedade. É a linguagem do sabor, da gustação, do sentido do gosto. Ora, todo o corpo do poema é composto de palavras como “boca”, “dentes”, “lábios” e “língua”, além de “salobro”, “saliva”, “hálito", “baba”, “grito”, “pigarros”, todas relacionadas, de uma forma ou de outra, ao paladar e à boca.
Versos e mais versos cantam o prazer sexual desencadeado pelos lábios e pela língua, como aqui: “As gestações / das gôndolas dos nervos / buscam determinando faíscas / ou arco-íris nos regatos das bocas”.

E como nestes: “Estarão mortas as salivas / que deixei em tantas bocas?”
Augusto dos Anjos é lembrado em “Beberemos fozes”.

Ubirajara Galli utiliza um vocabulário relacionado à boca como fonte de prazer e de vida. Apesar disso, não se atém num só verso à gula ou à alimentação. Sua relação existencial e poética com a boca foge a esta faceta do hedonismo. Nada de pantagluelismo. Fascina-o tão-somente o líquido. Daí a presença constante do elemento água em sua poesia. Consequentemente, ao poema não faltam palavras como “chuva”, “gotas”, “navegar”, “pranto”, “suor", “sangue” e “mijo”. É constante a referência a “mulheres menstruadas”, “líquidos incestuosos”, “gonorréia”. Lembradas ainda são “cerveja” e “frascos”, além de outras palavras relacionadas a líquidos.

Um dos versos é categórico como compreensão dessa tendência do poeta: “Somos mais água do que carne

Sua obsessão pela água é, entretanto, mais do que simples matéria para versejar. Metaforicamente, ela se veste de características mais amplas, ultrapassa os limites naturais do ser fonte de vida, para alcançar até o estado de coisa sobrenatural e virar fonte de sabedoria: “Meus poços dão de beber / a todos que conduzem a sede”.

Chegar aqui é, no entanto, bater às portas do princípio desta leitura. E ainda resta concluir o parágrafo nuclear dela: Ubirajara Galli é o poeta do êxtase bucal. Estes versos gritam assim: “- Metafísico, / mastigarei esta chuva / e todos os pelos ávidos / perdidos na vazante / do suor bêbado”.

Estes definem: “Minha boca é um túnel / labirinto talvez de perdidas salivas”.
É chegado o momento do arremate. Absolvido do pecado original de Poemas e Papos, depois de fugir da serpente encantadora das palavras pobres e dos versos vulgares, Ubirajara abre a boca para gritar êxtases, encantos e maravilhas.

Ora, o fazer poético não é resultado de vontade apenas. É compulsivo também: “A minha dor sangra em ciclos / e menstruo desreguladamente o poema”. O fazer poético não resulta apenas de idéias, mas também de vida: “Hedonista e Pilatos, / lavo e enxugo meus versos / nas toalhas das carnes frígidas, / salobras, sifilíticas, / mornas, maduras, temperadas”.

O fazer poético é um parto doloroso, um grito sufocado, um aperto na garganta, um pontapé nos culhões: “Quando mordo o mundo / grunhindo entre os dentes” (...) O fazer poético é mais do que dor – é facada na alma: “A virilha do meu poema / tem um sabor profundo de angústia” (...). O fazer poético requer o êxtase da felação: “O vento chupa o útero da noite” (...) Ora, pois, o fazer poético começa na ponta da língua: “Na varanda da minha boca / balança a triste rede”.

Enfim, sem o êxtase da poesia, sem o encantatório da linguagem, sem o maravilhoso da vida, nenhum poema é possível. E o prazer, os sentidos, as fontes do prazer e da vida são elementos desse maravilhoso, que a linguagem de Ubirajara Galli transformou em poesia. Nesse êxtase fabular.
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