Pesquisar este blog

sexta-feira, 31 de março de 2006

Breve notícia dos Tarairius (Nilto Maciel)



A família línguo-cultural dos tarairius proveio dos Láguidos, tipo étnico de cultura paleolítica primária, resultante da evolução das duas primeiras correntes de povoadores asiáticos da América. A primeira imigração se deu no máximo há 28 milênios e no mínimo há 20. A segunda, há 20, no máximo, ou há 15, no mínimo. E ambas partiram da Sibéria.

Os Láguidos chegaram ao Ceará há 7 ou 6 milênios, provenientes do Piauí e de Pernambuco. Um milênio depois chegaram os tremembés, que eram Nordéstidos, tipo étnico de cultura mesolítica, resultante da evolução da terceira corrente de povoadores asiáticos da América, oriunda também da Sibéria, de onde partiu há 10 ou 9 milênios. Os tremembés saíram do Sul, pela costa, e se localizaram nas praias do Ceará. À época da colonização portuguesa viviam entre o estuário do Rio Curu e o Maranhão. 

De cultura mesolítica, entre os séculos IX e X da era cristã chegaram os cariris, que eram Brasílidos, assim como os tupi-guaranis. Tomaram parte da quarta corrente de imigração, há 7 ou 6 milênios, vindos da Indonésia e da Polinésia.

Os tabajaras (tupis) conheceram o Ceará por volta de 1300 a 1400 e se localizaram na Serra da Ibiapaba, onde passaram a exercer domínio sobre os tarairius da região.

Para completar o povoamento primitivo do Ceará, entre os séculos XVI e XVII chegaram os potiguaras, também tupis.

Até fins do século XVI somente estes selvagens conheciam o território do Ceará, embora desde 1500 as praias cearenses viessem sendo visitadas por aventureiros europeus. Vicente Yanes Pinzón lá desembarcou naquele ano para abastecer de água e lenha suas quatro caravelas, tendo denominado o local onde aportou de Cabo de Santa Maria de la Consolación, que é Jarabatana ou Ponta-Grossa, em Aracati. Um mês depois outro espanhol estacionou no Mucuripe, em Fortaleza, denominando a ponta de Rostro Hermoso.

Em 1603 chegou ao Ceará o primeiro colonizador português, o açoriano Pero Coelho de Sousa. Em 1612 foi a vez de Martim Soares Moreno. Em 1630 os holandeses conquistaram o Nordeste. E novamente os tarairius entraram em cena. Desceram do sertão e, sob o comando de Jandoí, aderiram aos novos conquistadores, para se voltarem contra os lusos. Um personagem importante faz parte dessa história: o judeu Jacó Rabbi, que se uniu a uma nativa jandoin ou janduí e se tornou guia dos índios.

De 1637 a 1644 os batavos dominaram o Ceará. Derrotados, fugiram, mas voltaram em 1649 e lá permaneceram até 1654. Em 5 de abril de 1646 o judeu Jacó foi assassinado, a mando dos flamengos. Irritados, os índios exigiram a cabeça do assassino. Os estrangeiros se negaram entregar o culpado aos nativos, que se rebelaram. Após a derrota dos holandeses, os índios deixaram Pernambuco e rumaram para o Ceará. Queriam fundar na Ibiapaba um estado indígena. Jandoí e seu povo fugiram para o sertão, onde se mantiveram por dois anos, até se voltarem novamente contra os luso-brasileiros.

Em 1664 estouraram rebeliões indígenas em diversos lugares. Dois anos depois os portugueses, aliados a alguns tupis, atacaram os paiacus, em Precabura, e os jandoins. Em 1669 existiam no Ceará apenas duzentos moradores brancos. No entanto contavam com a aliança de muitos nativos. Sendo minoria, lançavam tribos contra tribos. Em 1671 os tremembés foram atacados em Jericoacoara. No ano seguinte os paiacus pediram paz. Apesar das derrotas consecutivas, muitas tribos se mantinham em pé de guerra e em 1687 explodiu de vez a guerra, a começar pelos jandoins, de Açu, Mossoró e Apodi, no Rio Grande do Norte, limites com o Ceará. Entraram também na luta os paiacus, cratiús e icós do Ceará. Começava a chamada Guerra dos Bárbaros ou Levante Geral dos Tapuias. De um lado quase todas as tribos tapuias, isto é, tarairius, cariris e tremembés. De outro, os portugueses e paulistas, auxiliados por tupis. Ao mesmo tempo eram concedidas terras por El-Rei Dom Pedro II a seus súditos em várias localidades: Choro, Jaguaribe, Pacoti, Maranguape, Guaiuba, Pacatuba. Ou seja, as terras mais férteis, banhadas de rios e cercadas de serras.

Em 1692 o maioral dos jandoins, de nome Canindé, se rendeu. Apesar disso, outras tribos passaram a invadir terras habitadas por brancos, a incendiar fazendas, matar gado e gente. Em contrapartida, foram enviadas expedições contra paiacus, jandoins, icós e outras tribos rebeladas. Os que conseguiram escapar da morte foram feitos cativos e vendidos. Alguns, aldeados, como os paiacus. Em 1694 a Corte de Portugal determinou que se doassem terras aos índios e a quem quisesse cultivá-las. Os paiacus são fustigados. No ano seguinte os nativos aniquilaram totalmente os moradores das margens do Jaguaribe e do Banabuiu. Em 1704 os paiacus se levantaram, por duas vezes, e assaltaram o fortim de São Francisco Xavier, na ribeira do Jaguaribe. No outro ano incendiaram o referido forte.

A guerra continuou por longos anos em diversas partes. Em 1712 os jenipapos se aliaram aos canindés e pegaram em armas na bacia do Banabuiu. Passado um ano, unidos a outras tribos, como a dos jaguaribaras e anacés, assaltaram a vila de Aquiraz, causando grande mortandade. Talvez mais de 200 mortos. O fato ficou conhecido como Rebelião de 1713/1715, que quase pôs fim aos brancos no Ceará.

Finda a guerra, uns poucos nativos continuaram dispostos a enfrentar os estrangeiros e seus descendentes. É o caso dos jenipapos, derrotadas finalmente em 1721. Quatro anos depois chegou a vez dos anacés e jaguaribaras, atacados no riacho Aracoiaba, em Baturité.

Enquanto isso, avançavam as concessões de terras aos mais combativos matadores de índios.
Em 1739 o jenipapo Miguel da Silva Cardoso (os nativos aldeados ou em fase de aldeamento receberam nomes portugueses), com 32 anos de idade, pediu ao governador de Pernambuco amparo à sua gente, concedendo-lhes aldeamento. Atendida a ordem, foram os jenipapos reunidos aos canindés na Tabuleiro da Areia, em Banabuiu. A seguir foram conduzidos para o saco da Serra de Baturité, local depois chamado de Comum. Nascia a missão de Nossa Senhora da Palma, primeiramente localizada na barra do Sitiá, no município de Quixadá, por volta de 1691.

Em 14 de abril de 1764 instalou-se a Real Vila de Monte-mor o novo d’América, elevada à categoria de cidade em 1859, com o nome de Baturité. Em 1808 a vila contava com 1500 habitantes, fora os 1500 moradores dos núcleos de Candeia, Acarape, Cajuais e Pindoba. Para a formação da vila contaram as autoridades com os quixelôs da Missão da Telha, localizada na hoje cidade de Iguatu, com os jenipapos e canindés da Missão de Nossa da Palma, e mais alguns remanescentes de tribos diversas, catados aqui e ali.

Jenipapos e canindés eram tarairius, família dita tapuia, que falava a língua travada de uma das duas grandes tribos do grupo, os jandoins, ou um dialeto afim. Os jenipapos viviam primeiramente no Jaguaribe, de onde foram retirados para o Piauí, juntamente com os icós, por ordem do governador, mais ou menos em 1723. No ano seguinte agregaram-se aos Feitosas na luta contra os Montes (famílias de sangue europeu) e sossegaram nas cabeceiras do Choró, no sopé da Serra de Baturité, até serem aldeados em 1739. Os canindés, seus parentes, viviam no Rio Grande do Norte e apoiaram os holandeses no século XVII. Em 1699 estavam pacificados no Ceará, após a derrota dos flamengos. Ocupavam as vertentes do Rio Curu, ao poente da Serra de Baturité. Em 1712 aliaram-se aos jenipapos na guerra. Em 1721 foram batidos no lugar Boqueirão e fugiram para a aldeia de São João do Jaguaribe, onde se refugiaram numa igreja. Mesmo assim sofreram aprisionamento. Em 1739 reuniram-se de novo aos jenipapos para a formação da missão de Nossa Senhora da Palma.

Os quixelôs, que talvez fossem cariris, habitavam a margem esquerda do Alto Jaguaribe e em 1817 foram reunidos na Missão da Telha, dirigida por um frade carmelita. A povoação deu origem à vila do mesmo nome, depois cidade de Iguatu.

Tarairius eram também os jandoins, os paiacus, os jenipapoaçus, os javós, os camaçus, os tocarijus, os ararius ou irarius e os xucarus ou xocós. Os jandoins ficaram célebres nas lutas contra os portugueses durante a dominação holandesa e a Guerra dos Bárbaros. Uma parte dos paiacus saiu do sul do Ceará, pressionou os cariris para o norte e tomou conta do Baixo Jaguaribe, do Açu e da Serra do Apodi. Outra parte se localizou entre os rios Pirangi e Choró e foi aldeada em Araré por padres seculares. Posteriormente foram conduzidos para a aldeia ou missão de Monte-mor o velho, atual Pacajus. De lá os retiraram para Porto Alegre, Rio Grande do Norte, onde viviam os potiguaras, e finalmente reconduzidos à missão. Os jenipapoaçus foram missionados em São João do Jaguaribe, depois chamado Jandoim e finalmente rebatizado. Os tocarijus passaram à História pelo trucidamento do padre Pinto no ano de 1608, em Ubajara. Os ararius se tornaram famosos quando em 1713 assaltaram a ribeira do Acaraú. Os xocós vagavam pelo vale do Riacho dos Porcos e pé da Serra do Araripe.

Não existem, portanto, notícias do destino da maioria dos tarairius. Provavelmente desapareceram durante a Guerra dos Bárbaros, a Rebelião de 1713 e as perseguições rotineiras ou dizimados antes de qualquer aldeamento. É o caso dos jandoins, javós, camaçus, tocarijus, ararius e xucurus ou xocós.

Ficaram, porém, os jenipapos, canindés e paiacus de Baturité, os paiacus de Pacajus e os jenipapoaçus de São João do Jaguaribe. Dos primeiros se sabe que deram origem às famílias Andrade, Carrilho, Correia, Dávila, Figueira, Figueiredo, Mendonça, Montes, Mota, Pereira e Vieira. Canindés são as famílias Bezerra, Calado, Santos e Soares. São paiacus os Barbosa e Ferreira. Existem também em Baturité descendentes dos groaíras e da chamada nação caboclo, isto é, de índios mestiçados com brancos.

Brasília, 1984.
/////