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quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Os três botões (Nilto Maciel)


Questão de coragem, participar da brincadeira, porque tanto vocês poderão encontrar o jardim dos prazeres como a cela das dores. Ou ambos, na mesma jornada. E não há como prever nada. O resultado não depende apenas das três teclas.

Ainda ontem uma senhora saiu daí contentíssima, como se tivesse conhecido o prazer pela primeira vez. E sabem quais os botões que ela acionou? Struthio camelus, I Ching e Lesbos. Tudo por acaso, porque mal sabia ler. Viu-se acariciada das mais variadas maneiras por encantadora criatura. Não sei se jovem ou idosa, se macho ou fêmea. Falou-me da maciez do corpo do desconhecido. Tudo fica registrado aqui em videocassete. O resto o cliente me conta, se quiser. Depois reduzo a experiência a escrito nessas fichas: nome, idade, naturalidade, dia e hora da experiência, teclas acionadas, perguntas e respostas da entrevista com o recepcionista, etc. 

Assim, uma amiga desta senhora comprimiu as mesmas teclas e saiu chorando, toda ensanguentada. Durante quase meia hora uma grande ave fêmea, semelhante a uma avestruz, lhe bicou os seios, o ventre, as nádegas. Para mim a causa dessa reação se deveu ao fato de a segunda madame não ter sabido responder à pergunta sobre a nacionalidade de I Ching, pergunta essa erigida à categoria de condição essencial ao comportamento da criatura invocada.

Ao pressionar as teclas, a porta se abre e a pessoa passa à Sala das Mágicas. Até então não está decido quem a recepcionará. Um olho examina as características do visitante e pode logo escolher o seu anfitrião. Às vezes o recepcionista-inquisidor lhe faz perguntas e, dependendo das respostas, lhe elege a companhia.

Uma historiadora muito conhecida acionou o botão Salamina e mais outros dois. Não deu outra – o recepcionista leu-lhe um texto, um diálogo, e solicitou-lhe que reconhecesse a personagem não nominada no colóquio. Escutem o texto:

“Temístocles – Tu eras amante de Aristides?

– Não o nego. Isso não impediu, porém, que eu o repudiasse quando percebi a sua omissão quanto ao destino de Atenas. Ele simplesmente fazia oposição a ti.

Temístocles – E que achas do ostracismo a que o submeti?

– Concordo com a punição. Ele não evitaria a batalha de Salamina.

Temístocles – Então queres evitar a batalha de Salamina?

– Quero, daí não concordar também com tua muralha de madeira.

Temístocles – Desejas a derrota de Atenas?

– Nem a derrota nem a vitória. Desejo a paz.

Temístocles – Mas a paz é impossível. Xerxes conta com uma poderosíssima frota. Não devemos nos defender?

És por acaso espiã persa?

– Tu não me entendes. Não quero nada disso. Quero o fim da guerra. Quero evitar a batalha de Salamina. Não vês que essas guerras estão destruindo a Grécia e a Pérsia? Que ganhamos com a primeira guerra médica? Mileto e Erétria foram arrasadas. Que ganhamos com essa segunda?

O Helesponto foi atravessado, a Grécia invadida e o Templo de Minerva incendiado. De que adiantou o heroísmo de Leônidas e seus trezentos espartanos nas Termópilas?

Temístocles – Mas aquilo foi traição. Ou não sabes disso?

– Como não vou saber? De qualquer forma, fomos massacrados como ovelhas.

Temístocles – O que queres que eu faça? Diga, pois serei capaz de todos os sacrifícios para te atender.

– Conheço todos os segredos e mistérios...

Temístocles – Disseste-me que nossa salvação está no mar. A muralha de madeira são os trezentos navios. Com eles vamos derrotar Xerxes, assim como derrotamos Dario.

– Não estou diminuindo teu valor. Poderás fazer tanto ou mais que Milcíades. Mas não nos interessa a vitória. Não nos interessa a guerra. Devemos e podemos evitar mais uma batalha.

Temístocles – Como, louca?

– Vou dizer. Mande Xerxes de volta a sua Pérsia. Com sua esquadra e seus soldados, logicamente. Em seguida, transforme a muralha de madeira em peças de museu. Chama-se a isso desarmamento.

Temístocles – E que seria de nós, soldados, guerreiros? Estás louca de verdade?

– Nesse caso, destrua Salamina.

Temístocles – Não entendo. Salamina é nossa. Como vamos destruir o que é nosso?

– Estou falando de escoamento das águas da baía. Drenagem. Conheces o termo e o processo? Como poderão navios navegar e batalhar no seco?

Temístocles – E essas águas vão para onde?

– Pode-se fazer coisa melhor. Fechar as entradas e transformar Salamina num imenso lago azul.

Temístocles – Maravilhosa idéia!

– Ou então mandar terraplená-la com terras do Peloponeso. Não, o Peloponeso é muito distante. Pode-se utilizar os montes Olimpo e Parnaso. Ou não são suficientes para terraplenar Salamina?

Temístocles – Estás dizendo asneirices. Primeiro as águas do mar invadiriam nossas terras. Depois, seria cometer a mais criminosa das ofensas aos deuses.

– Podemos então transportar uma ilhota qualquer dessas e despejá-la em Salamina. Nesse caso não haveria perigo de as águas invadirem nossas terras.

Temístocles – São absurdas as tuas propostas. Estás louca.

– Pois se insistires nessa batalha suicida, eu te deixarei com tua glória feita de sangue e dormirei mil noites com o poderoso Xerxes."

Quem souber a resposta poderá viver longas horas de delícias, tal como sucedeu à nossa historiadora. Tem algum historiador aí? Esperem, deixem eu explicar mais. Muitas vezes não basta dar resposta acertada.

Temos o exemplo de um jovem leitor de boa literatura que, mesmo respondendo, com acerto e desembaraço, a um verdadeiro questionário sobre os livros e autores mais importantes, teve de se submeter às mais aberrantes práticas sexuais, por desconhecer o romance A Guerra da Donzela.

Notem, no entanto, que havia escolhido as mesmas teclas de seu antecessor (Renoir, Sapho e Teodora), e este viveu mais de uma hora de intensos prazeres com três banhistas.

Tenho uma explicação para as duas experiências. O sadismo vivido pelo rapaz está em “Sapho”. Alphonse Daudet se transmudou em Alphonse-François, o Marquês de Sade, como pena pelo erro de conhecimento do arrogante leitor de clássicos.

A razão de o segundo não ter encontrado Daudet? Escutem: pesou mais o quadro “A banhista”, de Renoir.

Outra explicação para os curiosos: por associação de idéias, o inquisidor quis saber sobre A guerra da donzela porque Teodora lembra a novela popular História da Donzela Teodora.

Outra hipótese: os nomes dos dois aventurosos jovens podem ter influenciado o rumo dos acontecimentos. Às vezes os nomes das pessoas nada significam. Assim, eu tinha aqui o registro de três moças de nome Rosana. A quarta a fazer a experiência me pediu para ver as fichas de suas homônimas. Ao verificar os belos resultados obtidos por todas as outras, sorriu. Os três se igualavam. Na dúvida, repetiu os botões da segunda, como poderia ter optado pelos da primeira ou da terceira. Acionou, pois, Chimpanzé, Molosso e Cruviana. Nem sequer perguntou pelo significado destas palavras. Mal entrou, ouvi-lhe os gritos. Três sátiros a seviciaram por longos minutos, deixando-a estragada para o resto da vida.

Não adianta, pois, guiar-se pelos outros: o destino da gente não depende de sabedoria nem de palavras bonitas. Ele está na gente e fora da gente. Também as coisas não acontecem por acaso. Pelo contrário, dependem de condições. Aliás, vários estudiosos têm vindo aqui na tentativa de descobrir as fórmulas mágicas do prazer total. É o caso de Scherbatov e Sobakewich, os quais têm desenvolvido algumas teorias.

Segundo esses cientistas do prazer, as teclas Aminoácido, KM e Sexu são as mais propícias a um bom resultado, dependendo do acionador. Assim, as pessoas mais idosas dificilmente encontrarão prazer ideal, dado estarem corrompidas.

Um dos casos relatados pelos dois especialistas é o da moça que bebia muito coca-cola e encontrou pela frente um velho barbado e fedorento. Não aconteceu nada de excepcional. Apenas se viu obrigada a ouvir durante horas as aventuras sexuais vividas pelo ancião.

Tenho a ficha de caso semelhante: neste, porém, a pessoa, embora bebesse coca-cola, não chegava ao vício e acabara de freqüentar uma igreja. Tocou as teclas dos cientistas e se viu possuir por um ente (o diabo, segundo ela), sob a ameaça de introdução em sua vagina de um garfo em brasa. E, apesar de ter cedido às chantagens, no fim do ato teve as nádegas ferradas com as iniciais INRI.

Clientes mal avisados decoram os nomes ou símbolos gravados nos botões e cometem pequenos erros fatais. Primeiro exemplo: um senhor comprimiu a tecla Sexo em vez de Sexu e durante alguns minutos enfrentou o furioso Dom Sebastião. Outro trocou KM por Kilômetro e apenas correu atrás de uma louríssima alemã, até quase morrer de cansado, sem conseguir sequer tocar-lhe os cabelos.

Morro de rir quando me lembro daquele homem que não soube contar a História de João de Calais e terminou nos braços da insaciável velha Constança, tão repugnante que sinto um cheiro de carniça só em pensar nela.

Nossa brincadeira é muito cheia de esfinges. Até hoje ninguém conseguiu decifrar o enigma proposto no texto que vou ler. O inquisidor quer saber apenas o título do livro mencionado. Pergunta também o nome do autor. Escutem:

“A primeira carta elogiosa por ele recebida trazia a assinatura de Vladimir Illich Ulianov, ainda em 1905. Para Lenin, tratava-se de obra tão importante quanto O Capital, de leitura indispensável a todo comunista. Uma longa carta, cheia de ensinamentos.

No mesmo ano chegou-lhe uma carta de Albert Einstein. Nela o gênio alemão expunha toda a teoria da relatividade e, ao mesmo tempo, pregava a necessidade da destruição do inimigo número um da humanidade – o leviatan de que ele próprio fazia parte. Afora isso, a carta vinha prenhe de elogios ao livro.

Só alguns anos mais tarde, por volta de 1930, chegou-lhe a terceira carta elogiosa – verdadeiro panegírico, com frases retumbantes, como: “Seu livro é a Bíblia do século XX”. Escreveu-a Getúlio Vargas.

A quarta carta elogiosa é de Irwin Shaw. O famoso cenarista e romancista se propunha transformar o livro num longa-metragem.

A seguir, outro brasileiro voltou a fazer elogios ao livro. Dizia Santos Dumont: “Você revelou até que ponto uma arma pode ser tão mortífera. Isso é um vôo de gênio". Thomas Mann o honraria com a sexta carta elogiosa. Trata-se do primeiro texto do romancista após o último retoque ao Sofrimento e grandeza de Richard Wagner. Considerava o livro como a síntese da decadência da humanidade. Superior a Os Buddenbrook.

A penúltima carta elogiosa viria também de um alemão – Adolf Hitler. Data de 1934 e, entre outras, trazia esta frase terrível: “Quando li seu livro, tive a maravilhosa idéia de incendiar o Reichstag”.

Finalmente, uma carta de Noel Rosa, escrita em versos, fechava o ciclo dos elogios.

Afora essas oito cartas, recebeu ele milhares de outras. Nestas, no entanto, qualificavam-no de escritor mesquinho, panfletário nojento, língua de fogo, bandido da literatura e outros apelidos menos brandos.

Quando sentiu a morte se aproximar, não por muita velhice, que talvez não existisse nem pouca, releu as oito cartas famosas. Idealizou publicá-las. Necessitava reacender a chama da glória em declínio depois da morte de seus oito amigos. Onde encontrá-las, porém? Misturara-as às milhares de cartas impiedosas. Carecia de forças para mergulhar naquele mar de cartas, penetrar naquela montanha de papéis e, assim, encontrar os oito atestados de sua genialidade.

Sentou-se para pensar e rememorar. Lembrou-se do Brasil. Que país! Lá morou durante o Estado Novo. País de gênios: Getúlio Vargas, o estadista; Santos Dumont, o inventor; Noel Rosa, o artista. Jamais esquecera esse gigante. Para lá voltaria um dia. Sua última morada. Depois da publicação das cartas. O povo iria chorar ao reler Vargas. Faria samba da carta de Noel. E Santos Dumont teria uma biografia esmerada.

Recordou Thomas Mann e passou à Alemanha, onde também vivera uns anos. Hitler, o César do século XX. Einstein, o maior gênio da física. Voltou a Thomas Mann, esse alemão-brasileiro, o maior escritor dos últimos tempos. E dela fugira, no entanto. Goebbels conseguiu ver em seu livro idéias anti-nazistas.

Relembrou os outros dois amigos. Lenin, que pena ter morrido tão cedo! O primeiro a elogiar sua obra. Um gênio político! Irwin Shaw, que grande romancista!

Satisfeito com sua memória, mergulhou na papelada, com um único pensamento: achar, a todo custo, a própria vida, a própria vida da humanidade – as oito cartas”.

Alguns de vocês faz idéia do título do livro? E do nome do autor?

Não imaginem, porém, casos muito graves. No máximo, ocorrem práticas homossexuais, coito com animais e monstros e sevícias inenarráveis, como o da jovem abandonada pelo amante. Escolheu os botões Fernando, o nome dele, Falo e Baturité, a cidade para onde fora o namorado. Mal entrou na sala, se viu cercada de incontáveis índios e serviu a todos das mais esquisitas maneiras.

Às vezes o cliente sai feliz e quer repetir a façanha. Preme as mesmas teclas e se mete em apuros. Não por acaso. Ora, o tempo é outro, o mundo não é mais o mesmo. Vejam o caso da folclorista que apertou Japu, Acutipuru e Priprioca. Da primeira vez saiu sorrindo e até me convidou a ter com ela estranhas relações sexuais. Da segunda vez, no entanto, se viu acossada por amazonas, que a forçaram a lamber-lhes as vaginas.

Ninguém pode prever nada, embora os fatos não ocorram por acaso, eu já disse. Assim, nas mesmas condições, duas pessoas podem encontrar os mesmos personagens. É o caso de Osvaldo e Januário. Os nomes são diferentes, mas ambos contavam à época das experiências 31 anos de idade, ambos já haviam lido o conto de Trancoso “As irmãs invejosas” e pressionaram os botões Poditã, Fubá e Marduk. Ambos gozaram por longas horas as delícias de uma formosa cabocla. A partir desse dia muita gente procurou ler os contos de Trancoso e os dois rapazes se associaram para a criação de uma editora para publicação de literatura popular. Mas ninguém mais conseguiu repetir o feito deles. Uns tinham realmente 31 anos, haviam lido o conto e apertaram as famosas teclas. Porém não se chamavam Osvaldo nem Januário, não conheciam Brasília, nem se preocuparam com vir aqui no dia 30 de janeiro. Quem sabe, os dados necessários a um bom resultado eram esses.

No último 30 de janeiro esteve aqui um rapaz de 31 anos, vinha de Brasília, carregava debaixo do braço uma cópia de “As irmãs invejosas” e se chamava Osvaldo. Tocou aquelas teclas e meia hora depois, furioso e abatido, contava: fui atacado por um lobisomem.

E ninguém pode negar nada, porque estão aqui as fitas.

Agora, o primeiro da fila queira fazer funcionar seus botões. E boa sorte.
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