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domingo, 26 de novembro de 2006

O pio da cauã (Nilto Maciel)



Como se não sentisse o frio que lhe estremece o corpo, voltado para o Camucim distante, Taguaibunuçu solta baforadas de fumo. Olha para o fundo dos vales ainda adormecidos debaixo do lençol da noite. Mira a lua que foge triste por detrás dos montes. Pelas asas geladas do vento volta-lhe aos olhos perdidos a fumaça azulada, misturada à névoa. Acocorado, espera sozinho o regresso do Sol, imerso nas águas, tinto de sangue do mergulho prolongado. Sim, ele despertará a Ibiapaba com o lamber de sua língua ardente.

Taguaibunuçu não dorme desde que o pio da cauã assustara as cunhãs e anunciara novas dores para os Tabajaras. Sentinela sem medo, fora encostar-se a uma munguba, a pastorear a Lua e pitar o Tempo. E, de tanto pitar, esquecera a Lua. A cabecear, perdera o prumo e mais se vergara. Umas patas macias lhe pousam no ombro. Dá um salto desastroso para um lado, quase fazendo tombar outra munguba. Padre Pinto esfrega as brancas mãos e balbucia desculpas, os olhos sonolentos a se arregalar, os lábios trêmulos a luzir. Passo a passo, o selvagem refreia a cólera e o susto, a resmungar como um jaguar domesticado. Volta a acocorar-se ao pé da munguba e reacende o cachimbo no derradeiro tição da fogueira que a névoa apaga. O jesuíta imita-lhe o gesto de agachar-se, voltando-se também para o nascente, onde terra, mar e céu se confundem.

De novo o silêncio e o sossego, ainda o estremecer dos corpos, como se lhes amedrontasse o mesmo abismo adormecido adiante. Mais uma vez acordei cedo demais, e, se não tivesse acordado, o frio me teria feito defunto. Aqui é realmente o fim do mundo. E o selvagem a rugir e fumar, rugir de frio e fumar de insônia. Parecem ondas gigantes de um mar medonho a avançar aos saltos para o sertão. Estamos na crista da onda maior. Treme-lhe a batina sobre o corpo, treme-lhe a língua entre os dentes, num carnaval de cores adorável. E o selvagem a espiar a Lua dançarina. Maravilha de Deus! As campinas verdes, verdes da cor do breu, os picos apontados para o infinito, e nós aqui pisando as nuvens! Uma coisa divina, Seu Taguaibunuçu!

Não fossem os dois, a taba pareceria tapera. Dentro das ocas dezenas de selvagens hibernam em redes de tucum, a sonhar magníficas caçadas, samburás repletos de peixes, mergulhos atléticos nas águas frias dos riachos.

Padre Pinto sorri. Longe, o rubor da manhã se anuncia. Aproxima-se a hora do santo sacrifício da missa. O cacique nem lhe dá ouvidos – bate na mão o cachimbo cansado. Nada bom o dia nascer. Não diga blasfêmias! Cada manhã traz uma nova esperança. Ergue-se, as pernas a tropeçar na saia negra salpicada de branco. Os tapuias preparam vingança no fundo dos vales. O jesuíta pára e volve os olhos esbugalhados para os abismos da madrugada. Então eles têm coragem de subir as terras dos tabajaras?

Às portas das ocas, cunhãs despertam os longos cabelos, curumins abraçam-lhes a nudez, necessitados de aquecimento para os corpos mal acordados. O terreiro se enche de pardas figuras nuas. Amassam o chão com os pés e erguem os braços. Põem-se a bradar, como se lhes ordenasse terrível instrutor. O céu é a morada de Deus, que não irá querer descer mais uma vez ao convívio destes eternos macacos. Parem, com isso, bando de medrosos!

De uma cabana afastada, a persignar-se, surge outro padre. Boceja e esfrega os olhos. Bom dia! Ouça, padre Figueira, o que diz Taguaibunuçu. O cacique remexe os restos da fogueira com os dedos das mãos. Impacienta-se por só encontrar cinza. Algum mistério do fogo? Padre Pinto parece não gostar da brincadeira e faz sinal ao companheiro para se aproximarem do selvagem. Os tapuias vão atacar. Quem lhe disse isso? E por que ainda não preparou a defesa? Calma, Padre Figueira! Não haverá guerra. Iremos procurar os tapuias e dissuadi-los do ataque.

Taguaibunuçu cala-se, como se assim pudesse entender os missionários. Quem lhe disse que os tapuias vão atacar? Padre Pinto fala quase ao mesmo tempo as duas línguas. Precisa se fazer entender pelo cacique e o outro padre. Os tapuias não querem peros aqui. Mas nós somos vigários de Cristo, estamos cumprindo uma santa missão, não somos soldados nem temos armas.

Como o céu não desabasse, a tribo inteira se encaminha para o riacho. Alegres, saltitantes, abraçados, alheio aos padres e ao cacique. Padre Figueira passeia os olhos pelo moreno dos sexos expostos, alheio às palavras do selvagem. Padre Pinto fala sem parar. Chefe da missão de pacificação da Ibiapaba, anos e anos no meio dos tupinambás, dos pitiguaras e outros tabajaras, não permitirá que os tapuias estraguem seu trabalho.

Taguaibunuçu impacienta-se. Seus olhos chamejam angústia. Vocês são peros pacíficos. Os tapuias, porém, não sabem disso. Para eles, vocês vieram espiar a Ibiapaba. E vão voltar à Paraíba e de lá trazer caçadores e matadores de índios. Não acreditam na paz de vocês. Quem disse que eles vão atacar homens? A cauã piou de noite. É o sinal. Vocês não ouviram? Padre Pinto ri. O cacique fecha a cara. Meu filho, não acredite nos pios dos pássaros. Eles não entendem nada de humano. São simples animais. Taguaibunuçu bate os pés e as mãos no chão, irritado. Eles querem vingança. Os peros mataram, cativaram, roubaram. Padre Pinto se zanga. Você já me contou, outros já me contaram a história. Aqui viviam, há muito tempo, os airuruiuba, que faziam comércio com os tabajaras. Davam manufaturas inferiores e levavam araras, periquitos, peles, ibirapitanga, âmbar gris, etc. E ainda tomavam para fêmeas as cunhãs, que pariam indiozinhos franceses.

Um dia chegaram outros estrangeiros, armados dos pés à cabeça. Comandados por Pero Coelho de Souza. Com eles vinham muitos índios, inclusive tabajaras de outras terras. Então o cacique Irapuã conduziu a resistência e houve mortos e feridos de ambos os lados. Dias e dias de luta. Vencedores, os estrangeiros passaram a donos de tudo, da terra para saquear as riquezas, dos homens para amarrar, levar e vender, das mulheres para com elas fornicar. E, idiotas, não fizeram distinção alguma – passaram a amarrar, levar e vender até os que lhes possibilitaram a vitória. Em conseqüência, tabajaras, pitiguaras, tacarijus, curutis, camamus, anacés, acrius, todos se uniram e, comandados por Juripariguaçu, iniciaram outra guerrinha. Ao final, Pero Coelho se viu obrigado a voltar para Camucim e de lá para os infernos. Agora os peros querem voltar mais armados e mais prevenidos. Francisco Pinto e Luís Figueira, sacerdotes da Companhia de Jesus, são seus espiões. O pio da cauã anunciou tudo. Não é isto, Senhor Taguaibunuçu? Aproxima-se do selvagem e, rindo, dá-lhe três palmadinhas nos ombros largos. O cacique, sério, não reage. Os tabajaras não querem vingança. São os tapuias do vale.

Padre Figueira ergue-se e anuncia estar na hora da missa. Pode preparar a capela. Os fiéis já estão de volta do banho. Enquanto isso, fico aqui a tirar a cauã da cabeça desse agourento.

O sol já brilha nos rochedos e desperta as campinas umedecidas. Taguaibunuçu ainda fala do agouro da cauã. Nós estamos aqui justamente para apagar da memória de vocês a dor e o sangue do passado. Tudo mudou. Estamos em 1607 e não acontecerão mais guerras no Ceará. Padre teimoso! Não acredite só em você. Os tacarijus vão atacar. Peguem o caminho de volta enquanto é cedo. O caminho para o mar. Padre Pinto ergue-se, afobado. Deus nos protege e jamais fugiremos do mundo. Você está assim pensando em morte porque é um pagão. Nós, não, somos soldados de Cristo, e não tememos a morte.

Aos magotes, em grande algazarra, a tribo inteira regressa do rio. Alegres, rindo, os corpos nus ainda molhados, as longas e lisas cabeleiras brilhando ao sol. Acercam-se do padre, que se dirige à capela. Deus nos abençoe. Deus vos proteja. Vamos à missa. Vamos rezar.

Taguaibunuçu deixa-se ficar, olhos fitos na luz opaca do sol encabulado, alheio à alegria geral, no rosto umas marcas de amargura não dormida. Volta-se para o lado da capelinha de palhas de carnaúba, desacocora-se lentamente, sai pisando onde os pés do padre pisaram e pára. À sua frente, uma cunhã espicha o pescoço, buscando ver Padre Pinto, que coloca um cálice sobre o pequeno altar de madeira. In nomine Patris et Filli et Spiritus sancti. Padre Figueira faz sinais para que os selvagens o imitem. Grita amém. Introibo ad altare Dei. Todos muito atenciosos. Gaguejam de vez em quando as palavras de Padre Figueira, sua fala alta e compassada. Confiteor Deo omnipotenti, beatae Mariae semper virgini.Taguaibunuçu olha para os lados, calado e triste. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Um bando de anuns corta o vento e espanta as palhas da capelinha. Misereatur vestri omnipotens Deus et dimissis peccatis vestris, perducat vos ad vitam aeternam.

De repente, uma gritaria invade a taba. Os tacarijus! grita Taguaibunuçu. Uma multidão de selvagens furiosos, armados de paus, arcos e flechas, marcha para o grupo atônito. Gritos, correria, tropeços.

Um segundo após, no meio dos escombros da capela, um corpo jazia só e encharcado numa poça de sangue, a cabeça esmigalhada e o peito duas vezes trespassado de flechas. Uns restos de padre.
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