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quarta-feira, 13 de junho de 2007

Medeiros e Albuquerque (Anderson Braga Horta)


(Medeiros e Albuquerque)


De Medeiros e Albuquerque se pode afirmar muita coisa; nada, porém, que induza a idéia de ordinarismo ou acomodação. Responsável por algumas das primeiras sementes do Simbolismo entre nós, não se procure nele o contemplativismo de um Alphonsus; narrador e dramaturgo de talento, erra quem lhe suponha a pacatez de um Machado; cronista e tradutor, longe estava da fixidade geográfica de um Drummond, nada inclinado às viagens. Era um homem dinâmico, não apenas no terreno da criação literária; à sua agitada vida pode-se aplicar, sem exagero, o adjetivo esfuziante. Cheia de lances pitorescos, histórias rocambolescas de amores clandestinos, tramas e tramóias nos bastidores do poder, brigas, tiros de revólver (um deles, consoante suas memórias, após arranhar o braço da vítima... “caiu-lhe no bolso do colete”!), cabe-lhe como a poucos o dito “sua vida daria um romance”, ou “daria um filme”. O romance, ele o escreveu em parte (veja-se, por exemplo, o que diz no capítulo “Uma Ordem bem Obedecida”, de Quando Eu Era Vivo...); o filme, bem que o merecia.
Nas letras, fez praticamente de tudo: inteligência das mais versáteis e brilhantes que temos tido, sua obra está ligada, segundo Ronald de Carvalho, à história da poesia, do romance e do conto, da crítica e do jornalismo, da política e da oratória em nosso país; foi teatrólogo, ensaísta, conferencista, polemista; praticou, como dissemos, a crônica e a tradução; autor de obras de cunho científico, interessou-se por ocultismo e publicou um livro sobre hipnotismo. Falar de cada um dos departamentos de sua criatividade não seria difícil. O problema é decidir por onde começar.

Pedagogo e Homem de Ação

Comecemos pelo homem público, pelo homem de ação que ele foi. Preceda a tudo, entretanto, alguma informação biográfica das de praxe.
Filho de Joaquim José de Campos da Costa de Medeiros e Albuquerque, que foi deputado pelo Maranhão de 1872 a 1875, repetiu o nome paterno, com a só mudança da inversão do prenome para José Joaquim. Começou no Recife, em 4 de setembro de 1867, sua intensa vida, que, se não foi propriamente curta, não chegou a ser longa: faleceu no Rio de Janeiro em 9 de junho de 1934. Estudou no Colégio Pedro II, dessa cidade, e na Escola Acadêmica de Lisboa. Viveu em Paris de 1912 a 1916.
Notabilizou-se como pedagogo: professor adjunto de 1885 a 1889, foi vice-diretor do Ginásio Nacional, presidiu o Conservatório Dramático, lecionou no 2.º grau e na Escola Nacional de Belas Artes, aposentando-se em 1906 como diretor-geral da Instrução Pública (o cargo era em comissão, mas permitiram-lhe, excepcionalmente, aposentar-se nele). Foi autor da primeira reforma ortográfica, aprovada em 1907.
No serviço público, a par dos cargos ligados ao ensino, foi secretário do primeiro ministro do Interior da República e diretor da Secretaria desse ministério. Deputado por Pernambuco, coube-lhe a iniciativa da Lei n.º 493, de 1898, a primeira a definir e garantir os direitos autorais para obras impressas literárias, científicas e artísticas. Ele mesmo nos informa que fez votar a primeira lei sobre direitos autorais, a primeira lei sobre expulsão de estrangeiros, apresentou o primeiro projeto sobre acidentes do trabalho, propôs a criação do Ministério da Instrução Pública, entre numerosas outras iniciativas. Outro projeto que apresentou visava à extinção das ordens religiosas, coerentemente com seu ateísmo autoproclamado.
Ligada à sua atividade parlamentar está a de ensaísta, conferencista, publicista. Foi defensor convicto do sistema parlamentar de governo, merecendo ainda leitura seu Parlamentarismo e Presidencialismo, de 1932. Como conferencista, era “bem-dotado para prender qualquer auditório”, testemunha Agripino Grieco.

O Jornalista

José Joaquim, cujo comprido nome ficaria na história da cultura no Brasil reduzido a Medeiros e Albuquerque, foi jornalista a vida toda, e jornalista brilhante. Diretor e redator de alguns periódicos, colaborou na maioria dos jornais e revistas brasileiros do seu tempo, e nalguns do exterior. Fundou O Fígaro e O Clarim. Comentarista político, eletrizava os leitores. Foi abolicionista e republicano histórico.
Do jornalista há uma passagem espantosa. A flor da intelectualidade da época, em que pontificavam nomes como os de Bilac, Pardal Mallet e confraria, era dada à boêmia e nem sempre havia, para eles, linha divisória nítida entre o trabalho e a troça. Em 1892, falava-se na possibilidade da restauração da monarquia. Pois o Medeiros e Albuquerque, aproveitando o 7 de setembro, lançou um número de O Fígaro “anunciando que a restauração estava feita”. A repercussão foi extensa e marcante, com telegramas de apoio à suposta regência provisória, demissões, etc... Com isso, tornou-se, mutatis mutandis, uma espécie de precursor do Orson Welles daquela famigerada emissão radiofônica sobre uma invasão da Terra por marcianos...

O Inventor

De um homem que, multiforme embora, se realizou nas letras, pouca gente imaginaria que fosse também um inventor. Pois Medeiros e Albuquerque, em suas famosas memórias, gaba-se de algumas invenções, como a de “um cinema estereoscópico”. Incapaz de desenhar, associou-se a Roberto Martin; o pedido de patente foi feito em Paris, em 13 de março de 1916, recebendo o n.º 84 729, reporta o memorialista, e acrescenta que, tendo-a obtido, não pôde fazer com o aparelho “senão experiências incompletas”. Criou ainda “uma máquina de escrever para cifrar e decifrar textos”, que recebeu, informa, a patente francesa n.º 458 248. Mas o invento de que realmente se envaidece é o de um avião sem motor e sem hélices, idéia cujo enorme alcance é fácil de ver. Como que prevendo uma reação de incredulidade, ele acrescenta ao seu depoimento que, como dá números e datas exatas, será fácil verificar a verdade do que diz. “Eu sou aliás” —comenta— “o primeiro a achar engraçado que tenha sido o inventor de um motor de aeroplanos; mas a idéia tende a ter cada vez mais sucesso, minha vaidade levou-me a consigná-la aqui.”

O Poeta

É opinião talvez unânime que a importância de Medeiros e Albuquerque em nossa poesia é antes histórica do que intrínseca. Agripino Grieco lhe nega a condição de grande poeta, conquanto lhe reconheça “excelentes produções em verso” e faça, em mais de uma ocasião, o elogio do homem de inteligência e de cultura que ele foi, “um puro cerebral, atento analista das paixões humanas .... de uma lógica esmiuçante, de uma argumentação infinitesimal”.
É assinalável a semelhança do parecer de Sílvio Romero (que foi professor de Medeiros): seria ele "uma máquina de raciocinar”; destacando-se o seu pensamento “pela clareza, pela nitidez, pela delimitação translúcida das cousas”, qualidades que reputa “de todo avessas à poesia”. E “é por isto que, como poeta, é de ordem secundária e como cronista político não há nem houve nunca superior em língua portuguesa”.
Foi ele, contudo, na expressão de Andrade Murici, “o primeiro introdutor do Simbolismo no Brasil, vulgarizando o movimento simbolista europeu, pela imprensa, e dando o exemplo como poeta”. R. Magalhães Jr. (citado por José Geraldo Pires de Mello em Cem Anos com Cruz e Sousa, Brasília, 1998) assinala que, “inteligência sempre aberta às novidades e preparada para tudo assimilar”, trouxe ele, ao regressar de sua primeira viagem à Europa, “os livros dos principais simbolistas franceses, inclusive o estranho Joseph Péladan”. Seu primeiro livro de poemas tem, mesmo, o título Canções da Decadência. Dois anos posterior a essas Canções, mas publicado um pouco antes delas, em 1889, o livro Pecados estampa uma “Proclamação Decadente” que, segundo Péricles Eugênio da Silva Ramos, transcende a estética dita “decadente”, contendo já plena e clara teoria simbolista, a partir da décima estrofe. Vejamos o fragmento a que se refere o ilustre poeta e estudioso de poesia:

Pode a Música somente
do Verso nas finas teias
conservar no tom fluente
tênue fantasma de idéias;

porque é preciso que todos
no vago dessa moldura
sintam os estos mais doudos
da emoção sincera e pura;

creiam achar no que apenas
é tom incerto e indeciso
dos seus sorrisos e penas
o anseio exato e preciso.

Que importa a Idéia, contanto
que vibre a Forma sonora,
se da Harmonia do canto
vaga alusão se evapora?

Jamil Almansur Haddad é também explícito no reconhecimento de Medeiros como responsável pela madrugada do Decadismo e, afinal, do Simbolismo entre nós, registrando ainda lições dele sobre questões de técnica do verso e frisando sua condição de “grande mestre” do esoterismo – ele que, paradoxalmente, se proclamava sólida e inabalavelmente ateu.
De qualquer modo, o poeta está praticamente esquecido, sobrevivendo de seus versos, no conhecimento popular, quase que só os do Hino da República (música de Leopoldo Miguez) – e isso mesmo vamos dando talvez de graça, vista a pouca inclinação de nosso tempo aos cantos cívicos.

Crítico e Contista

Talvez não estejamos, em geral, suficientemente atentos à importância de Medeiros como crítico literário. Basta, entretanto, um olhar superficial para a bibliografia utilizada em obras do vulto de A Literatura no Brasil – só para dar exemplo – e ver-se-á o atestado dessa importância no sem-número de citações do crítico pernambucano. Alguns dos depoimentos de que nos temos valido neste resumido enfoque são, também, de molde a proclamá-lo. Mas é no gênero narrativo que o prosador tem tido maior evidência. Não no romance, em que a crítica lhe tem apontado fraquezas, mas no conto, posto em realce por autores dos mais variados matizes.
Agripino Grieco pondera que “seus contos, traduzidos para o francês, não fariam má figura”, endossando a opinião de Frota Pessoa, que “já afirmara, inversamente, que os contos do Um Homem prático ou da Mãe tapuia parecem boas traduções dos contos de Maupassant, o que não é pequeno elogio”.
Massaud Moisés, por sua vez, comenta que seus contos têm interesse intrínseco, apontando alguns de primeira grandeza, como “As Calças do Raposo” e “Flor Seca”.
Alberto da Costa e Silva, em O Pardal na Janela, cita como “excelentes” esses mesmos contos.
Flávio Moreira da Costa, lembrando-lhe, em Os Cem Melhores Contos de Crime e Mistério da Literatura Universal (Ediouro, Rio, 2002), a admiração pelas histórias de Conan Doyle, atesta seu pioneirismo na categoria, autor que foi de nosso primeiro livro de contos policiais: Se Eu Fosse Sherlock Holmes.

O Memorialista

Como temos visto, Medeiros e Albuquerque foi homem de muitos instrumentos, que todos tocava bem, conquanto não atingisse em todos ¾é natural¾ o mesmo virtuosismo. Brilhante em tudo, ainda que a crítica lhe faça, aqui e ali, este ou aquele reparo, foi no memorialismo que mais brilhou. E neste ponto há uma significativa convergência de opiniões. Para evitar repetições inúteis, fiquemos na que assina Massaud Moisés:

Um pouco pelo influxo duma vida aventurosa e boêmia, na Paris da belle époque, outro pouco pela graça maliciosa com que narra os episódios de conquista amorosa, o certo é que Quando Eu Era Vivo... (obra póstuma, Porto Alegre, 1942) testemunha um talento disperso pela Vida e pela Arte, e documenta-nos sua visão do mundo numa fase crítica para a história da Humanidade. Irreverente confissão duma juventude estróina e irresponsável, tem ainda o viço e a marca dum espírito cheio de humor e alegria ....

Suas memórias foram publicadas por ele nos dois volumes de Minha Vida (1933-1934); na edição póstuma a que se refere Massaud Moisés, repuseram-se as “indiscrições” que o autor suprimira (“Ficam para daqui a dez anos...”, dizia).
Da relevância e do interesse dessas páginas poderíamos dar exemplificação extensa e pitoresca, como este saboroso trecho, em que fala da qualidade de mulherengo do pai, prefigurando a própria:

A preocupação feminina era nele extrema. Casou-se quatro vezes, na igreja. Fora dela, inúmeras... Aos 65 anos, já hemiplégico, quando saía, às vezes, comigo, eu tinha as maiores dificuldades em conduzi-lo, porque, para seguir com os olhos qualquer mulher bonita que passasse, voltava-se inteiramente... Quantos anos levei eu, antes de reconhecer que também nisso ele tinha razão!

Outro exemplo que me vem à memória é a hilariante e herética passagem colegial do furto de hóstias “para comer à hora do almoço, com manteiga”... Mas é preciso sofrear a mão. Fique, para encerrar, o registro de nossa impressão, em coro com os que mais o elogiam: é livro ímpar, memorial de uma vida e de uma época, referto de episódios pitorescos, narrados de maneira bem-humorada. Quem sabe algum dos leitores não se anima a extrair dele um roteiro para o filme da vida aventurosa, sobretudo nos planos do espírito (em dois sentidos) e da galanteria, desse senhor de Medeiros e Albuquerque?
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