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domingo, 3 de junho de 2007

Rato sonâmbulo (Nilto Maciel)














O compositor Francisco Vitória viveu entre 1731 e 1800. Deixou pouquíssimas composições. Algumas sonatas, meia dúzia de árias, cantatas, concertos, fugas, fantasias, serenatas e uma sinfonia inacabada. A mais conhecida é a Sonata Sonâmbula para Violino.
Vitória quase nada viveu no Brasil. Toda sua formação musical se deu em capitais européias. Em Paris conheceu grandes nomes da música, como Jean-François D’Andrieu. Sonhava tornar-se organista. Ser um novo Bach. O sucessor de Jean na capela real. Tais fantasias, no entanto, jamais poderiam se realizar. Faltava-lhe talento, embora tenha imitado compositores do tamanho de Haendel e Haydn. Além do mais, o ser brasileiro significava impedimento ao cargo. Por último, tocava órgão como o pior dos organistas.
Pesa sobre ele grave acusação: quase toda sua obra seria resultado de plágio. Há quem diga mais: teria ele se apropriado de originais de compositores como Bach e Buxtehude. Suas fantasias e fugas, segundo estudiosos, têm a marca de Bach. Sua Sonata Sonâmbula seria obra de Jean-François D’Andrieu.
O furto poderá ter ocorrido às vésperas da morte do organista francês. Vitória parecia a sombra de Jean. E chegou ao cúmulo de se candidatar a depositário dos despojos do compositor. Muito antes da morte deste. D’Andrieu repeliu prontamente a proposta. Mesmo assim, o brasileiro não se afastou dele. Seguiu-lhe os passos até a morte.
Segundo os acusadores, a sonata de D’Andrieu nunca havia sido divulgada. Talvez não tivesse passado de rascunho.
Assim, Francisco Vitória seria apenas um rato de orquestra. Um compositor sonâmbulo. Ou coisa pior.
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