Pesquisar este blog

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Os livros proibidos do sótão (Viegas Fernandes da Costa*)




“Ouvir minha dona sempre ler a Bíblia em voz alta despertou minha curiosidade em aprender. (...) Num período de tempo incrivelmente curto, com seu generoso auxílio, dominei o alfabeto e consegui soletrar palavras de três ou quatro letras. Meu senhor proibiu-a de me dar mais instrução... [mas] a determinação que ele expressou em me manter na ignorância apenas me deixou mais decidido a buscar compreensão. No aprendizado da leitura, portanto, não sei se devo mais à oposição de meu senhor ou ao generoso auxílio de minha amável senhora.”
Frederick Douglass (1)


Farehnheit 451

Dom Quixote enlouqueceu, e não é por acaso que o primeiro livro que o bombeiro Montag encontra na casa de um “leitor subversivo”, em cena do filme “Fahrenheit 451”, é justamente a história do “Cavaleiro da Triste Figura”, de Cervantes – o mesmo livro banido do Chile em 1981 pela Junta Militar comandada pelo general Pinochet (2). Na utopia futurista retratada pelo diretor francês François Truffaut neste seu clássico de 1966, os livros devem ser queimados porque provocam a infelicidade. Segundo o personagem Montag, livros são lixo, são perigosos porque perturbam as pessoas e as tornam anti-sociais. Já o Capitão dos Bombeiros amplia esta visão nociva sobre a leitura, afirmando que os livros tornam as pessoas “diferentes”, e diferença é tudo que não se deseja em uma sociedade totalitária.

Alberto Manguel escreve que “como nenhuma outra criação humana, os livros têm sido a maldição das ditaduras. Os poderes absolutos exigem que todas as leituras sejam leituras oficiais; em vez de bibliotecas inteiras de opiniões, a palavra do governante deve bastar.”(3). A sociedade retratada em “Fahrenheit 451” constitui-se como uma metáfora das ditaduras, potencialmente do império soviético, que polarizava sua influência econômica, ideológica, política e bélica com os Estados Unidos naquilo que a história convencionou chamar de Guerra Fria. A década de 1960, período em que este filme foi produzido, notabilizou-se pela consolidação de diversos regimes ditatoriais, com ideologias tanto à esquerda quanto à direita, em diversos países do mundo, incluindo-se o Brasil, cujo golpe de 1964 deu início a longos 21 anos de governo militar e de censura prévia da imprensa e das manifestações culturais.

Também Sijie Dai vai falar de leituras clandestinas e perigosas em seu filme “Balzac e a costureirinha chinesa”, de 2002, que conta a história dos amigos Luo e Ma, dois jovens estudantes chineses que serão enviados para o interior do país a fim de passarem por um programa de reeducação ideológica. Após a Revolução Cultural chinesa, e a implementação da ditadura Maoísta, a cultura ocidental é tratada como elemento a ser banido do Império, e teremos então o “Fahrenheit” chinês interditando livros de autores ocidentais ou qualquer outro que viesse de encontro aos ideais de Estado propugnados pelo Comitê Central do Partido Comunista. No interior, e trabalhando como camponeses, Luo e Ma descobrem uma mala contendo diversos livros de autores como Flaubert e Balzac. A leitura secreta destas obras irá transformar o sentido de vida dos dois amigos, bem como de uma personagem feminina, a filha de um importante alfaiate local, que passará a conhecer um outro mundo a partir dos romances que os dois amigos lêem para si.

“Fahrenheit 451” e “Balzac e a costureirinha chinesa” não são os únicos filmes que trabalham com o tema das leituras clandestinas, porém são aqui citados porque explicitam duas das três categorias de leitores apresentadas por Alberto Manguel, a saber:

a) leitores autoritários: aqueles que impedem os outros de ler;
b) leitores fanáticos: decidem o que pode e o que não pode ser lido;
c) leitores estóicos: que se recusam a ler por prazer. (4)

No filme de François Truffat vemos retratado o “leitor autoritário”. É função dos bombeiros salvar as pessoas da infelicidade, queimando todos os livros. Em “Fahrenheit 451” ninguém pode ler, mas alguns lêem, clandestinamente, e na impossibilidade de ler, há aqueles que decoram livros e os guardam na memória, de onde não poderão ser retirados pela força do Estado – são os “homens-livro”. Já Sijie Dai retrata o “leitor fanático”. Na China de “Balzac e a costureirinha chinesa” há livros permitidos, como o “Livro Vermelho” de Mao Tsé Tung, leitura não só desejada, mas obrigatória, e os livros ocidentais, que retratam “valores burgueses” e “contra-revolucionários”, portanto proibidos.

“Leitores autoritários” e “leitores fanáticos” são recorrentes na História, e surgem com muita força na literatura e no cinema. Em 1980 Umberto Eco publica seu romance “O nome da rosa” (também transposto para o cinema em título homônimo). Na história de “O nome da rosa” teremos mais um exemplo de “leitores fanáticos”. O enredo se passa no interior de um mosteiro beneditino medieval, famoso por abrigar uma das mais famosas bibliotecas da cristandade, cujo acesso aos livros era restrito e permitido somente quando autorizado pelo bibliotecário chefe. Nesta ficção, diversos monges morrem depois de lerem o segundo volume da “Poética” de Aristóteles, dedicado ao riso, cujas bordas das páginas estavam envenenadas. O veneno é a metáfora dos riscos representados por determinadas leituras para uma Igreja Católica que se constitui a partir da segunda metade da Idade Média. Cabia à Igreja zelar pela alma dos seus fiéis, impedindo-lhes o acesso a leituras que pudessem abalar a fé e desviar o crente do caminho imposto pela Igreja. O catolicismo do ocaso da Idade Média e de boa parte da modernidade é o catolicismo da mortificação do corpo e da expiação pelo fogo. É o catolicismo dos Tribunais do Santo Ofício e do “Index Librorum Prohibitorum”, relação de livros proibidos editada entre 1559 e – pasmem! – 1966. No entanto, toda esta interdição aos livros não impede a prática das leituras clandestinas, como nos mostra o historiador italiano Carlo Ginzburg, em seu livro “O queijo e os vermes”. Nesta obra da historiografia italiana vamos conhecer a história do moleiro friulano conhecido como Menocchio, julgado e condenado pela Inquisição católica no século XVI por ter criado uma interpretação heterodoxa da Teologia cristã. Acreditava, por exemplo, que o mundo surgiu do caos, “isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e de todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos (...) e entre todos aqueles anjos estava Deus, ele também criado daquela massa” (5). Menocchio chama a nossa atenção justamente porque era uma pessoa ligada aos setores mais populares da sua sociedade. Era alfabetizado, tinha certo grau de instrução e chegou a ocupar os cargos de magistrado e administrador da sua aldeia, o que não significa que gozasse de grande ilustração. No entanto, teve acesso a alguns livros, todos em língua vulgar, e a maior parte deles lhe foram emprestados, e aqui temos um aspecto que nos interessa. Ao se deparar com a história deste moleiro do século XVI que ousou interpretar o mundo a sua maneira, Carlo Ginzburg descobre que, apesar de todas as interdições ao livro, e do alto custo econômico do mesmo, existia “uma larga rede de circulação que envolve não só padres, mas até mesmo mulheres (...)”, e que “para essas pessoas o livro fazia parte da experiência comum: era objeto de uso, tratado sem muitos cuidados, exposto ao risco de se molhar e desfazer” (6). Livros circulavam, portanto, clandestinamente, passados de mão em mão, lidos em grupo em um tempo em que quase todos eram analfabetos e, pior, além de lidos podia ser interpretados. Daí a grande heresia de Lutero ao traduzir a Bíblia para o alemão: o poder de interpretar a palavra de Deus deixaria de ser privilégio da Igreja, como o foi no caso de Mennochio: “mais do que o texto, portanto, parece-nos importante a chave da sua leitura, a rede que Menocchio de maneira inconsciente interpunha entre ele e a página impressa – um filtro que fazia enfatizar certas passagens enquanto ocultava outras (...) (7).

No Brasil Marisa Lajolo e Regina Zilberman estudaram as irrupções das leituras clandestinas nas obras de autores clássicos da literatura brasileira do início do século XX (8), como Graça Aranha, Raul Pompéia, José Lins do Rego entre outros. Autores que, quando jovens, freqüentaram colégios internos que lhes impunham leituras obrigatórias e, na lógica do “leitor estóico”, conforme Alberto Manguel, interditavam leituras que remetessem ao lazer, à fantasia e ao prazer. Interdição burlada com a circulação clandestina de romances franceses que iam de Molière a Júlio Verne, materiais pornográficos e histórias em quadrinhos. Segundo as autoras, “o fato de incendiarem a imaginação explica e reforça a clandestinidade dessas leituras, que pouco ensinam de prático, mas que provocam consumo contínuo” (9). A literatura a ser estudada devia ser “coisa séria”, que ensinasse algo prático e reforçasse valores morais. E é neste contexto do “leitor estóico” que quero inserir minha experiência enquanto autor e, principalmente, leitor. Assim como os autores estudados por Marisa Lajolo e Regina Zilberman, e apesar de não ter estudado em colégio interno na minha infância, também me submeti às práticas do “leitor estóico”, e também burlei suas regras.

Os livros do sótão

Na crônica “Pangaré dos tempos” (10) falo da adolescência vivida no início da década de 1990 na casa dos meus avós maternos, em Blumenau, município do interior catarinense e de colonização notadamente germânica. Eram estes meus avós também descendentes de alemães, luteranos engajados, de origem humilde e semi-alfabetizados. Talvez o perfil ajude a entender a relação que se estabelecia com a cultura letrada naquela casa. Tiveram seis filhos, quatro homens e duas mulheres, todos educados na fé protestante, e os homens, especialmente, incentivados a seguir faculdade (às mulheres bastava o ensino médio), o que aconteceu com três deles: Direito, o mais velho; Teologia, o segundo; Ciências Sociais, o caçula. Também cada um deles educou-se em algum instrumento musical, incluindo-se aqui as mulheres: violino, órgão, flauta doce, acordeão. Para a família dos meus avós maternos, incentivar os filhos a se apropriarem dos bens culturais significava incorporar uma nova condição social a sua história familiar. Meu avô era pedreiro, minha avó dona-de-casa, mas ostentavam filhos “doutores”. Isto significava uma casa com muitos livros e revistas cuja leitura orgulhava e provocava temor, paradoxo que acompanhou minha avó até sua morte. Quando passei minha adolescência na casa dos meus avós, seus filhos já não moravam mais lá, porém muitos livros, revistas, fotos e jornais estavam guardados no sótão, e o acesso a eles era algo restrito, quando não proibido:

Novamente a lembrança do velho sótão onde morava meu quarto; a casa, uma mansarda que abrigava nos cantos do telhado pequenos depósitos de coisas velhas dos tempos de juventude dos meus avós e tios. Quartinhos quentes e escuros, teto baixo e inclinado, onde investia horas e horas das minhas adolescentes tardes de ócio fuçando naquelas malas...

Sim, aquelas malas de madeira, enormes, empilhadas no fundo do quartinho. Afastava as telhas para que o dia pudesse clarear os seus segredos: antigas cartilhas e cadernos escolares, as revistas Cruzeiro, as primeiras edições das Seleções e o número um da Manchete, traças, muitas traças, e os enormes negativos das fotos tiradas na antiga “América Box” – quem seriam os personagens nas imagens desbotadas e nunca mais reveladas? Então... também as cartas, de amor, de paixão, escritas em alemão e péssima caligrafia de homem do campo - meu avô - semi-alfabetizado , empilhadas a um canto, ao lado dos postais, das revistas em quadrinhos e dos almanaques de farmácia com suas propagandas de xaropes e laxantes. Ah... os almanaques! Neles descobri: como sofriam de sífilis os castos homens de antanho! Sífilis e prisão de ventre, que o digam os tantos anúncios! Mas como a casa, também este tesouro particular que escavavam meus olhos e mãos em segredo – proibida que era esta arqueologia pelo zelo de um passado desejado morto que cultivava minha avó – foi perdido na rapinagem familiar. Muito acabou no lixo reciclável, o que sobrou, sumiu. Ficaram mesmo foram estas lembranças de um arqueólogo mirim escavando o passado da família e o sentimento de sacrilégio: o devassar dos segredos esquecidos, das vergonhas escondidas. Naqueles quartinhos descobri o fascínio que o antigo exercia sobre mim, e me deixei seguir atrás dos ácaros, traças e manchas de mofo. E também nisto aqui estamos. Quixotescamente, sim, também nisto aqui estamos! (11)

Além destes materiais que encontrei nos cantos do sótão, havia também em meu quarto um velho guarda-roupa abarrotado de livros e com as portas sempre fechadas à chave. Abrir secretamente aquelas portas, depois de furtar a chave que minha avó escondia em seu quarto, para poder acessar aqueles livros proibidos, é lembrança que me excita até hoje, e que talvez tenha contribuído para o fetiche que o livro exerce sobre mim. O fato é que tais livros, apesar de interditados, não eram destruídos; por quê?

Uma das lembranças mais antigas de leitura clandestina que preservo, é a dos meus tios lendo em secreto gibis de Walt Disney no início da década de 1980. Seus insistentes pedidos para que eu não falasse das revistas para a “Oma” – forma como chamávamos minha avó – despertou na criança que eu era o entendimento de coisa proibida. Meus avós entendiam que gibis e outras formas de literatura que não aquelas indicadas pela Igreja Luterana ou que ensinassem coisas práticas, desviariam a atenção do trabalho, da vida útil, além de produzirem idéias erradas e moralmente perigosas. Também acreditavam que ler demais poderia enlouquecer a pessoa, a mesma crença afirmada pelo padre à família de Dom Quixote para explicar os desvarios do contumaz leitor das novelas de cavalaria. No entanto, havia uma sacralização do texto impresso, principalmente em seu suporte livresco, e por isso a necessidade da sua preservação. Até porque uma casa cheia de livros testemunhava que apesar das origens da família, e do ofício do meu avô, ali havia uma família diferente, letrada e que por isso deveria ser respeitada. E foi esta relação paradoxal com a literatura que me obrigou a afastar telhas e furtar chaves para acessar o texto que me interditavam na adolescência. Se estas interdições à determinadas leituras contribui (como o afirma para a sua vida o escritor estadunidense Frederick Douglass na epígrafe que abre este pequeno ensaio) para a minha formação de leitor e autor, é coisa que não posso afirmar; mas certamente posso dizer que contribuiu para despertar em mim o fetiche pelo impresso e o entendimento de que textos poderiam guardar segredos importantes.

Daquilo que pretendi

Neste breve ensaio procurei mostrar, a partir da categorização de leitores apresentada por Alberto Manguel e do trabalho desenvolvido por Marisa Lajolo e Regina Zilberman a respeito das leituras clandestinas em alguns escritores brasileiros, como a literatura, o cinema e a historiografia apresentam a interdição à leitura em suas diferentes formas, e de como estas interdições não se limitam apenas a um projeto político totalitário, mas se perpetuam na história e se misturam às práticas e imaginário das pessoas. Que estas interdições criam também estratégias de transgressão e contribuem para o fortalecimento da fetichização não só do objeto “livro”, mas da cultura letrada enquanto um todo. E, por fim, entender como nossa experiência pessoal com a leitura insere-se, também, neste debate, contribuindo com ele.

Referências bibliográficas

- Cervantes Saavedra, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha. Tradução por Viscondes de Castilho e Azevedo. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
- Costa, Viegas Fernandes da. Pangaré dos tempos. Cronópios, http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=291 , 25 jun. 2005.
- Eco, Umberto. O nome da rosa. Tradução por Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003.
- Ginzburg, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Tradução por Maria Betania Amoroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
- Lajolo, Marisa & Zilberman, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1996.
- Manguel, Alberto. Uma história da Leitura. Tradução por Pedro Maria Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

Filmografia

- Dai, Sijie (Dir.). Balzac e a costureirinha chinesa. 2002.
- Truffaut, François (Dir.). Fahrenheit 451. 1966.

Notas de fim

(1) Frederick Douglass (1818-1895), pseudônimo de Frederick Augustus Washington Bailey. Escritor estadunidense, nascido escravo. Fundou diversos periódicos políticos e defendeu ideais abolicionistas. A epígrafe citada consta da sua autobiografia e foi citada em: Manguel, Alberto. Uma história da leitura, (1997), p. 313.
(2) Alusão ao personagem Dom Quixote, de Cervantes Saavedra, Miguel de. Dom Qauixote de la Mancha, [1978].
(3) Manguel, Alberto. Idem, p. 315.
(4) Ibidem, p. 322.
(5) Ginzburg, Carlo. O queijo e os vermes, 1987, p. 46.
(6) Ibidem, p. 85.
(7) Ibidem, p. 89.
(8) No capítulo Leituras Clandestinas, A formação da leitura no Brasil, 1996, p. 218-233.
(9) Ibidem, p. 227.
(10) Publicada na revista eletrônica Cronópios em 25 de junho de 2005.
(11) Ibidem.

/////