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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Homem não chora, não é, Airton Monte? (Nilto Maciel)



(À direita, em pé, Airton Monte)

Um dia eu conheceria Airton Monte. Num bar, numa livraria, num encontro de escritores, numa calçada, apresentado por amigo. Estava escrito. Porque escrevíamos e morávamos na mesma cidade, não tão grande ainda. No entanto, meu ingresso na Universidade (1970) propiciou, mais rapidamente, esse conhecimento. Pois na Faculdade de Direito conheci alguns escritores (principiantes, como eu) que falavam muito bem de um estudante de Medicina – certo Airton Monte. Tinha ele pouco mais de 20 anos e pertencia ao Clube dos Poetas Cearenses, do qual foi um dos fundadores. Grupo de jovens que escreviam versos. Reuniam-se, com frequência, na Casa de Juvenal Galeno, sob a liderança de Carneiro Portela. Liam seus poemas, elogiavam-se, faziam planos, publicavam coletâneas. Com o tempo, desapareceu e, com ele, quase todos os seus poetas. Poucos deles persistiram, como Airton Maranhão, Barros Pinho, Batista de Lima, Iranildo Sampaio, Márcio Catunda, Ricardo Guilherme.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A Inextricável Liturgia de um Boçal (Ilidio Soares)



Eu, Antonio Silveira, vosso criado, digo que o que mais me espanta é o seu rebolado. Ficou bom, não? Então deixa eu começar de outro jeito. Eu, Antonio Silveira, seu escravo, digo que entre o seu rebolado e a minha serventia o que me deixa doido, mas doido mesmo, é o seu jeito escrachado. E que o bom deus a abençoe e guarde, mas só pra mim, porque de sacanagens esse senhor não entende. Quer dizer, entender ele entende, mas a sacanagem dele é por carência, nunca por abundância, porque enquanto ele cintila lá no céu é você quem vaza na cama; e como hoje em dia é bom se precaver contra certas injustiças, não custa pedir que ele a abençoe e guarde. Com abundância, das coxas ou línguas, não importa, o que vale é a guarda, sobretudo a benção. Essa coisa beata, com som de harpa, mas quando bem tocada até que funciona.


E já que tocamos no tema funcionamento, diz pra mim Glorinha, por que quando você cruza os braços os seus seios estufam? Como você faz isso? Isso não é coisa de anatomia, parece mais de demônio, demônio sacana, diga-se, que não tendo mais com que me azucrinar põe seus peitos à mostra para me provocar uma exploração minuciosa, prazerosa e conclusiva, como um geólogo diante das crateras de vulcões ativos. Dois inencontráveis cerros, isolados, inesquecíveis, como uma insônia onde se repensa temas sérios ou como a primeira trepada lá pelos quinze. A estrutura deles é coisa pra especialistas, gente que passa a vida estudando núcleos, gases, cataclismos. Só no olhar vamos da terra a lua sem passar pelos chicotes gravitacionais tão incômodos para os que querem alcançar o gozo declinando das expectativas. Seus seios, Glorinha, é a minha falta de ar que, fora a porra da pressão, eu deveria passar a vida inteira tendo.


E já que tocamos no tema ter, diz pra mim Glorinha, por que você não me quer? Eu já disse, seu escracho não me incomoda, até peço bênçãos, e em toda tarde aqui no escritório eu lembro do sacolejo ronronante que sai da sala da secretária e vem dar mais trabalho aos que eu já tenho comumente. Procuro ir pra casa mais tarde, invento eventos diversos, só pra turma de lá não me encher o saco com os meus contumazes adiamentos. Quando eu a chamo pelo ramal e você diz alô, eu levito, dá um curto-circuito danado que quando eu me reconecto foi você quem me desconectou. E se isso não fora bastante ─ gostou do pretérito, tenso, né não? ─ eu mudo o rumo dos compromissos para garantir que eu vou ver seu gingado, sem interesse algum pelo trabalho, mas focado no perfil fisionômico e intransferível do seu rabo. Eu sei que você quer mais, quer que eu resolva problemas que nem os neurologistas sabem solucionar, quer que eu dê um pé na bunda da Olga, mande a Laura e o Rodrigo procurarem outro pai porque esse aqui já tem dono e adora invencionices que a mãe deles nunca soube criar. Veja, não é bem assim. A Olga é boa mãe, boa marida, tivesse mudado de lado eu diria que a Olga é um baita macho para sustentar essa merda toda de rebolado, adiamentos, faltas e aleivosias. Mas acontece que ela só é sustentável no dia seguinte, no dia posterior ao da Glorinha, do seu rebolado, do escracho e de nossa sacrossanta putaria.


E já que tocamos no tema, diz pra mim Glorinha, ô, saco! Tem alguma importância eu comer a Olga ao longo do mês apenas alguns dias? Sabe, eu às vezes acho que você desliga o telefone pela manhã só pra partir prum tudo ou nada irritante a fim de definir logo o dia. Esse sujeito é ou não é meu? Veja, a coisa não funciona bem assim. Primeiro precisamos definir a quem pertence o rebolado. O escracho e o rabo são seus, não resta duvida, mas o rebolado é pra quem? É pra mim, pro Silvério, pro patrimônio dessa companhia, seu Isidoro, enfim, pra quem você rebola enquanto eu invento histórias sem compromissos com o fim? Se for para mim, veja Glorinha, todo envolvimento supõe fuga, seja da Olga, da Laura ou do Rodriguinho, mas sempre há fuga. Pelo menos do colchão que denuncia facilmente o evadido. É sério. Da perplexidade física com os vulcões, desfeita quando se atinge o ridículo de uma rotina, sinceramente Glorinha, os vesuvinhos da Olga até que não são ruins. E não veja nisso qualquer demérito, os seus são colapsos insistentes, como o seu rebolado, que antecipa uma distribuição equânime do corpo e desorganiza qualquer ser vivente. Mas fugir, fugir mesmo, eu não fujo. Eu, Antonio Silveira, afirmo que apesar do seu rebolado, do escracho que é a marca do seu perfume, com a mente altiva e numa prece onde eu só encontro graças, digo não se preocupe, pois eu sou você amanhã, pelo menos na subserviência, do seu sempre e inesquecível Antonio Silveira vosso criado.
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terça-feira, 20 de outubro de 2009

Reinventar (Pedro Du Bois)


Reinventada


a roda


se assemelha


em raio


e circunferência






destoa a origem


na repetição


com que roda


o espaço elementar


do tempo.

*****
outros poemas:

http://pedrodubois.blogspot.com

http://valeemversos.blogspot.com
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sábado, 17 de outubro de 2009

Primeira carta (1976) de Airton Monte a Nilto Maciel

 – Nilto, o primeiro sentado (à esquerda); Airton, o primeiro de pé (à direita) –

Amigo Nilto, como você já devia saber, nunca fui nem pretendo ser crítico literário, sou antes um criador e um sensitivo fruidor de literatura ou de outra qualquer forma de expressão artística. Portanto, as opiniões que aqui exponho sobre seu trabalho nada mais são que frágeis e sinceras sensações que seu trabalho há me despertado. Espero que me perdoes a superficialidade e a falta de originalidade dos meus comentários, mas que são, isso eu asseguro, profundamente francos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Dimas Carvalho e o reino da Poesia (Nilto Maciel)


(Dimas, Nilto, Felipe Barroso e Poeta de Meia-Tigela, na casa do segundo)


Conheço a literatura de Dimas Carvalho há muito tempo. Li quase todos os seus livros. Meu conhecimento dele, porém, veio depois. Vi-o pela primeira vez numa tarde de janeiro de 1997. Inaugurava-se o Bosque Moreira Campos (Faculdade de Letras da UFC). O evento está registrado em fotografias, três delas reproduzidas nas páginas derradeiras do Almanaque de Contos Cearenses, daquele ano.

Não lembro mais quem me apresentou a Dimas. Talvez Pedro Salgueiro, relações-públicas da literatura cearense. Conhece todo mundo: acadêmicos engravatados, cordelistas de chapéu de couro, poetas de todos os naipes: enigmáticos, sorumbáticos, asmáticos. Frequenta, com desenvoltura, o banquete dos escritores de fraque e cartola e a alcova das hetairas. Pois deve ter sido ele o autor da apresentação de Dimas a mim.

De longe, avistei aquela figura esquisita, a sorrir e palrar. Supus tratar-se de algum cigano (Pedro se dá bem com todas as maiorias e minorias), em busca da mulher perdida. Vestia calça de linho branco e camisa colorida (talvez portasse um punhal na cintura). Na cabeça, chapéu de feltro. No pescoço, cordão dourado. Nos braços, relógio e pulseiras de ouro. “Não vá se assustar. Dimas gosta de se mostrar assim. Além disso, anda sempre com, pelo menos, duas mulheres jovens e belas. É o dândi da ribeira do Acaraú.” Não me assustei, porque nem a poesia mais enigmática me assusta.

Depois daquele dia festivo (Moreira Campos merece mais homenagens como aquela), Dimas e eu pouco nos vimos, ele na sua Acaraú, eu em Fortaleza. Estivemos em bares e encontros de escritores, palestras em faculdades, lançamentos de livros, entrega de prêmios (as paredes e estantes de sua casa estão repletas de certificados, medalhas, etc). Tanto abocanhou prêmios que julgadores de concursos já dizem: “Não, desta vez Dimas não deve ganhar. Precisamos democratizar os concursos literários.” Não concordo com certas práticas democráticas. Pois isso ocorreu em certo concurso, do qual fui julgador. Dimas concorreu na categoria “livro publicado”. Dei meu voto, convicto de estar escolhendo o melhor. Os demais julgadores, no entanto, votaram em outra obra: “O livro de Dimas é o melhor, sim, mas ele já ganhou prêmios demais. Agora é a vez de outros.”

Amante das fêmeas humanas, Dimas escreve com um olho na folha de papel e outro nas ancas das moças. Apesar disso, não há uma só página em sua obra em que se vislumbre ao menos uma curva mais erótica.

Admirador de padre Antônio Tomás, sabe-lhe de cor todos os sonetos. E os diz, ufano, como se cantasse o Hino Nacional Brasileiro. Como o primeiro quarteto de “Verso e reverso”:

Essa mulher de face encaveirada

Que vês tremendo em ânsias de fadiga

Estendendo a quem passa a mão mirrada

Foi meretriz, antes de ser mendiga.

É sua intenção publicar em livro a obra do grande poeta de Acaraú.

Dimas é viajante nobre. Todo ano vai à Europa. Conhece, palmo a palmo, as ruas das principais cidades européias. E tem memória fabulosa. Narra até os pormenores de seus passeios por Lisboa, Paris, Roma. Para o ouvinte é como se estivesse ao lado do poeta nas caminhadas pela História.

Por tudo isso, já valeria a pena conhecer Dimas Carvalho. Mas há ainda o poeta e o contista, ambos excelentes. É ler seus livros, suas fábulas perversas, suas pequenas narrativas, suas histórias de zoologia humana, seus poemas. O mais recente – Acaraú & outros países – é uma homenagem ao seu pequeno reino, a oeste do império dos tapuias. Nele há também um poema longo, monumental, desses que só os maiores conseguem compor: “Outros países”. São 21 sonetos de esquemas variados. Assim, os 11 primeiros se apresentam dentro do chamado modelo inglês. Todos – ou o todo – compostos como numa partitura. E então se vê, sobretudo, o rosto de Camões (não só nos versos “é para muito além que eu não desejo / cruzarmos os olhares redundantes / por mares nunca navegados dantes / dormem os caminhos que pra nós prevejo”) e o olhar iluminado do Jorge de Lima de Invenção de Orfeu (“Ser que nasceu bem antes do princípio / e que decerto nunca há de ter fim / pois ele é o próprio abismo, o berço, o início”).

Para ser poeta da estatura de colosso, bastaria este poema. Obra de quem se situa entre o eterno e o universal.

Fortaleza, 24 de agosto de 2009.
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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O ponto (Aníbal Beça)



De ponta a ponta me aponta um .

no apronto da escritura.

Seguido ou final

há-de se entretê-lo

nos cascos do poema

cavalo passado do passo ao trote

e

ao

solto

ga

lo

pe



Na senda branca:

meu desafio.

Fio em que meu ato

desata desatentos pontos

de vista

nem sempre convergentes.



Às vezes o . é pedra subindo ladeira

para depois rolar ladeira abaixo

e novamente subir ladeira acima.

Outras, o . empaca teimoso

asno turrão

no meio do caminho

no meio da selva selvagem.



Gosto

em especial

do . rolado

no verde relvado

dos campos de futebol:

no . como na bola

- sua pareceira -

há que saber parar

para fazer o gol.
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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Herança azul (Clauder Arcanjo)



Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.
(Carlos Pena Filho, em Soneto do Desmantelo Azul)


Das roseiras que pouco plantei, gostaria de ficar tão-somente com as pétalas das rosas mais simples, daquelas que, caídas ao chão, são relegadas pelos enamorados, ou nunca atraentes para compor os buquês das vitrinas. Ou, quem sabe, com o perfume mais ocasional das begônias, e com os espinhos das flores mais murchas, a fim de espicaçar a tristeza das horas infindas. Das amizades as quais muito insisti, queria ter hoje o bálsamo das risadas loucas, folgança despretensiosa da conversa franca, e pouco, mas muito pouco mesmo, do atrito das querelas insípidas, do ciúme injustificável pela ventura de um amigo.

Das manhãs de inverno — gotejantes no telhado dos anos, raros momentos onde o destino me brindava com a lassidão da preguiça, junto com a dádiva de permanecer, quieto e mudo, na rede aquecida e cheirosa dos lençóis de Djanira —, me honraria muito o mero prêmio dessas lembranças, augustos momentos que eu, infelizmente, não fui digno de eternizá-los.

Dos banhos de rio — mergulhos no Acaraú da minha província, no olho do remanso da Licânia dos meus fantasmas —, ousaria pretender, pela última vez, a falta de fôlego da ousadia maior de infante. Era quando pulava, de ponta-cabeça, do alto da ponte nova, orando para que o batismo da água me encobrisse o corpo, protegendo-me do possível perigo de uma pedra, temida, mas, graças a Deus, nunca encontrada.

Das viagens que pouco fiz, ficou, cá dentro de mim, a marca da primeira. Era o tempo do êxodo do garoto para a capital. A engenharia sonhada fazia-me necessariamente optar pelo desterro. No ônibus de linha, um halo de lágrima, e um gosto amargo nos lábios. Nos olhos dos meus pais, o silêncio da bênção trêmula. E, desde tal dia, carrego a pecha do degredo.

Das fantasias, aspiro à máscara de um pierrô teimoso, solitário e gauche, amigo do passe hesitante, adorador do gracejo de picadeiro, a arrancar o riso das faces por demais doridas. Rasgando as máscaras que vem encobrindo, há tempo, os rostos de velhos abandonados, de crianças envelhecidas, de namoros malogrados, de casais a fingir felicidade, ao tempo em que vivem mergulhados no vinho negro do rancor.

Da poesia, eu ficaria com o soneto de pé quebrado, escandido por um vate bissexto e desatento, que busca a melopéia inaudita na forja das lágrimas, na incandescência da impossibilidade, e sob o fole da pertinácia. Ao cabo, um poema a ferir o rigor da métrica, mas a trescalar a sândalo dos puros de coração.

Das utopias, eu, pelo menos agora, abriria mão. Ficaria tão-só com a fome que habita os olhos dos desesperados, dos incansáveis sonhadores, dos ditos e havidos como fazedores celerados. Há sementes de utopia por demais sobre a face da Terra, a tal semeadura é que vem sendo sobremaneira adiada.

Das aulas, dos colégios, das universidades, dos doutos do conhecimento, eu solicitaria a lição dos humildes, daqueles que soem fazer o que é entendido e decifrado na prática dos dias, no laborar da vida; e pouco, ou quase nada, entendem da teoria que não se eterniza em flores e frutos.

Dos jovens, queria apropriar-me da crença na imortalidade, aliás, melhor diria, do nem sequer imaginar a existência da Indesejada da gente. E, ao assim proceder, fazer, de cada ínfimo instante, uma celebração maior ao hoje, um tributo ao infinito que habita o nosso íntimo.

Das simpatias, eu evocaria a do primado da singeleza; singeleza que, para mim, só vejo existir, na sua forma pura, nos lábios dos que sabem emitir um riso de esguelha, mesmo ao serem trucidados pelo ferrão dos poderosos, ou sob a égide da (in)justiça oficializada.

Das borboletas, eu tenciono o vôo branco das menores e por deveras tímidas; das que não precisam da completa primavera para transmudar-se no milagre do vôo, nem muito menos abrem mão da cadência da lagarta na curta viagem no rumo da furtiva luz.

Dos desejos, eu pleitearia ficar com todos. Minha única herança. Em especial, o desejo mais azul, anseio dos que colorem de azul a quem nunca seria azul por jamais ter o azul nas pupilas. E se, mesmo assim, algum dia me encontrarem sem nada, que, pelo menos, me julguem louco, no entanto um louco que sonhou com o azul, quando outros, funéreos, morriam abraçados com a cor vazia do nada.

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clauder@pedagogiadagestao.com.br

Texto publicado no jornal Gazeta do Oeste (Mossoró-RN), caderno Expressão,

espaço Questão de Prosa, edição de 25/03/2007.
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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Mendoza: vender novelas como churros – Adelto Gonçalves (*)



I

No começo dos anos 90, a editora Círculo de Lectores, de Barcelona, quando imaginou lançar a coleção Maestros Modernos Hispánicos, dentro de sua Biblioteca Universal, convidou o escritor Eduardo Mendoza (1943) para dirigi-la, encarregando-o de selecionar títulos e autores. Sem maiores títulos acadêmicos, além de um diploma de advogado, o catalão Mendoza sempre foi um leitor contumaz do melhor das literaturas espanhola e hispanoamericana, além de ser hoje talvez o maior romancista espanhol vivo, o que, de certa forma, é reconhecido não só por boa parte da crítica como pelo grande número de tiragens e edições que seus livros alcançam. Por isso, não lhe foi difícil desempenhar uma tarefa que, de antemão, já se sabia que seria muito difícil e sujeita a polêmicas.

Escreveu, assim, 24 apresentações para os títulos que escolheu, além de dois prólogos, que agora saem reunidos em Quién se acuerda de Armando Palacio Valdés? Explica-se: os outros 22 prólogos foram escritos por autores que, ainda que não fossem especialistas, eram ao juízo de Mendoza personalidades afins à obra ou ao autor em questão. A coleção abrangia autores que viveram no período histórico que vai do final das guerras napoleônicas até o início da guerra civil espanhola (ou da Segunda Guerra Mundial, no caso da América espanhola), uma época extensa e extremamente agitada, marcada por guerras, revoluções, quebra de convenções sociais, ascensão de ideais reformistas, “grandezas e misérias de uma sociedade complexa e desorientada”, como diz o autor no prólogo que escreveu para as 24 apresentações e os outros dois prólogos.

Repetia, assim, tarefa que Jorge Luís Borges (1899-1986) desempenhou em 1974 em Prólogos com um prólogo de prólogos (Buenos Aires, Torres Aguero Editor, 1975), que reúne os quase quarenta prólogos que escrevera entre 1923 e 1974, exercitando um gênero que, como observou, “na triste maioria dos casos, confina com a oratória de sobremesa ou com os panegíricos fúnebres e abunda em hipérboles irresponsáveis, que a leitura incrédula aceita como convenções do gênero”. Não é, porém, o caso de Borges e muito menos o de Mendoza. Quem vier a ler ambos os livros só terá a ganhar, pois equivalem a um precioso roteiro para um curso de literatura em língua castelhana, no primeiro caso, e de literatura universal, no segundo. Até porque, para repetir Borges, o prólogo, “quando são propícios os astros, não é uma forma subalterna de brinde, mas uma espécie lateral da crítica”.

II

Como não poderia deixar de ser, Borges também faz parte dos autores selecionados por Mendoza, com sua Historia universal de la infamia (1935), que, por sinal, encerra o ciclo cronológico da coleção. E o que o selecionador faz questão de ressaltar é que, quando em seus verdes anos descobriu Borges, o que mais lhe chamou atenção foi a erudição do autor, que “parecia utilizar seus insondáveis conhecimentos para inventar fábulas e urdir alegorias impensáveis”. Só mais tarde descobriria que muitos dos conhecimentos de Borges eram, na realidade, apócrifos: versículos da Bíblia que não existem, edições de antigas enciclopédias que nunca vieram à luz.

É de lembrar que no “prólogo de prólogos”, Borges revela que tinha em conta escrever um livro de “índole análoga” em que reunisse uma série de prólogos de livros que não existem, com citações exemplares dessas obras possíveis. “Há argumentos que se prestam menos à escritura laboriosa que aos ócios da imaginação ou ao indulgente diálogo, tais argumentos seriam a impalpável substância dessas páginas que não se escreverão”, justificava. É de destacar ainda que em Historia de la eternidad (1936) Borges faz a resenha de um livro que só existia em sua imaginação e que para Ficções (1944) escreveu prólogo em que deixou esta observação: “Desvario laborioso e empobrecedor o de compor extensos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário”.

III

À falta de espaço, não se pode aqui tecer comentários sobre todos os autores escolhidos por Mendoza para a coleção que dirigiu, mas deve-se lembrar que, entre os escolhidos, além de Borges, estão grandes nomes como Benito Pérez Galdós (1843-1920), Ramón del Valle-Inclán (1869-1936), Pío Barroja (1872-1956), Juan Valera (1824-1905), Leopoldo Alas Clarín (1852-1901), Rosalía de Castro (1837-1885), José Zorrilla (1817-1893), Miguel de Unamuno (1864-1936), Carmen de Burgos (1867-1932), Emilia Pardo Bazán (1852-1921) e Ramón J. Sender (1901-1982), entre os espanhóis, e Horacio Quiroga (1879-1937), Lydia Cabrera (1899-1991), Ricardo Palma (1833-1919), Rómulo Gallegos (1884-1969) e Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888), entre os hispanoamericanos.

Até aqui, temos nomes conhecidos, pelo menos entre os estudiosos da literatura hispânica, mas o que surpreende é que Mendoza tenha ressuscitado também autores que o esquecimento havia atirado ao limbo, como a cubana Gertrudis Gómez de Avellaneda (1814-1873) e Antonio Ros de Olano (1808-1886), nascido em Caracas, filho de um militar catalão e igualmente oficial do exército espanhol, que se tornou mais conhecido por ter inventado um gorro militar que leva o seu nome (ros). Ou ainda Armando Palacio Valdés (1853-1938).

IV

Mas quem foi Armando Palacio Valdés? Ao responder essa pergunta no extenso prólogo de 15 páginas que escreveu, Mendoza lembra que Valdés, até sua morte, foi um dos mais célebres escritores não só na Espanha, mas também em outros países, como Estados Unidos, onde era admirado por estudiosos e por um público-leitor expressivo, e na França, onde recebeu a Legião de Honra. Além disso, seu nome figurou freqüentemente entre os candidatos ao Prêmio Nobel. E vários de seus romances foram levados ao cinema.

Hoje, porém, seu nome figura apenas em rodapés dos modernos manuais de literatura espanhola. E o Wikipedia, na Internet, só lhe reserva duas linhas e uma foto, além da lista de suas obras. A única biografia que lhe fizeram é de 1949 e está fora de catálogo, prejudicada por uma retórica franquista. Por que teria sido condenado a tão implacável olvido? É o que Mendoza procura responder em seu ensaio à guisa de prólogo.

Nascido em Entralgo, aldeia de Astúrias, Valdés era proveniente de uma família bem posta na vida: seu pai fora um advogado que preferira deixar a profissão para cuidar da propriedade rural da família da mulher. Estudou em Oviedo e, depois, em Madri, onde se diplomou em Leis, como o pai, mas nunca exerceu a advocacia. Atraído por amigos literários, fez-se sócio do Ateneo, entidade equivalente a uma academia literária, da qual foi presidente, cargo a que renunciou por causa da postura subversiva de seus sócios, que criticavam a ditadura de Primo de Rivera (1923-1930). Por aí se vê que seria um homem de idéias de direita.

Foi, porém, mais tarde, republicano militante, ainda que nunca tenha se candidatado a cargo público. Fosse como fosse, ainda que de convicções algo retrógadas, diz Mendoza, Valdés foi sempre um republicano confesso, de opiniões moderadas, afável no trato, que vivia de rendas e escrevia por gosto. Casou-se duas vezes e foi por influência de sua segunda mulher que se tornou profundamente religioso. Mas nunca foi extremista: inimigo de todo fanatismo, defendeu o voto feminino e condenou sempre a injustiça social flagrante que existia na Espanha de seu tempo.

Liberal, segundo Mendoza, Valdés encarnou um velho sonho espanhol: o de uma direita civilizada. Seus escritos, sobretudo os dos últimos anos, estão, porém, impregnados de um ar de palácio e sacristia que tanta irritava seus contemporâneos, diz. Mas não era um autor que encarnasse a velha direita espanhola, que haveria de empolgar o poder depois da guerra civil com o general Francisco Franco à frente. Literariamente, pertencia à escola naturalista francesa: seus personagens não tinham muita profundidade psicológica. Mas era um romancista raro: um católico com sentido de humor. “É um homem cujos rígidos princípios morais vão perdendo força, talvez sem que ele saiba, por influência voltaireana”, define Mendoza.

O resultado disso é que seus romances mostram de vez em quando alguns detalhes extravagantes que os redime de qualquer anacronismo. Para provar o que diz, Mendoza transcreve trecho de um dos romances mais célebres de Valdés, Marta y María, em que uma de suas protagonistas, a jovem religiosa María, para imitar os santos da antiguidade, decide se flagelar e, sendo moça de boa família, convoca uma criada para manejar o chicote, até que alcançasse o êxtase místico. Segundo Mendoza, são cenas que fariam corar o marquês de Sade (1740-1814).

Fosse como fosse, talvez isso explique por que os romances (ou novelas, em bom espanhol) de Valdés vendessem em sua época como churros. Tratava-se de um cínico? “Nunca o saberemos”, conclui Mendoza para logo observar que não há como deixar de sentir simpatia por um homem que, ao final da vida, ainda publicou um ensaio intitulado El gobierno de las mujeres em que defendia que a política fosse confiada integralmente ao sexo feminino porque governaria a coisa pública tal como a privada.

V

Eduardo Mendoza Garriga nasceu em Barcelona e viveu dez anos em Nova York (de 1973 a 1982), época em que trabalhou como tradutor da Organização das Nações Unidas (ONU). Atualmente, vive em Barcelona dos direitos autorais de seus livros que igualmente vendem como churros. Surgiu para a literatura espanhola em 1975, três meses antes da morte do generalíssimo Franco, com a publicação de La verdad sobre el caso Savolta (até hoje não traduzido no Brasil). Seu grande livro é La ciudad de los prodígios (1986), publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 1987.

Escreveu ainda outros bons romances que atraem por sua agilidade cinematográfica, como El misterio de la cripta embrujada (1978), El laberinto de las aceitunas (1982), Sin noticias de Gurb (1990), Una comedia ligera (1996), La aventura del tocador de señoras (2001), El último trayecto de Horacio Dos (2002) e Maurício o las elecciones primarias (2006). Em 1989, publicou La isla inaudita, romance bem diferente dos demais, que mostra a sua preocupação em não se repetir.

É autor de um perfil biográfico de Pio Baroja, Baroja la contradicción (2001). Escreveu ainda duas obras teatrais: Restauración (1990) e Gloria (2007). Em colaboração com sua irmã Cristina, é também autor de Barcelona modernista (1989). Suas obras, na maioria, foram publicadas pela Seix Barral, de Barcelona. Maiores informações na página oficial do autor na Internet: www.clubcultura.com/clubliteratura/.../mendoza/

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QUIÉN SE ACUERDA DE ARMANDO PALACIO VALDÉS?: escritores de lengua espanõla: veinticuatro presentaciones e dos prólogos, de Eduardo Mendoza. Barcelona: Galaxia Gutenberg/Círculo de Lectores, 118 págs., 2007, 14,90 euros.
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa e mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispanoamericana pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.br
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domingo, 4 de outubro de 2009

Francisco Carvalho: Utopia e eutopia (Nilto Maciel)



Tenho lido Francisco Carvalho desde minha adolescência. Primeiro nos suplementos literários – que havia disso no Ceará. Publicavam-se neles, semanalmente, poemas, crônicas, contos, estudos dos bons escritores cearenses de então, quase todos do Grupo Clã.

Mais adiante, já taludo, já escrevendo também, já sonhando com ser poeta do tamanho de Francisco Carvalho ou contista da estatura de Moreira Campos (coitado deste sonhador), conheci o futuro autor de Exercícios de Utopia (Fortaleza, Expressão Gráfica, 2009). Foi num dia de 1977, reitoria da UFC, onde trabalhava o poeta, época da revista O Saco, vésperas de eu arribar do Ceará em busca de melhores dias no Sul. O autógrafo constata: 1º de fevereiro. A obra: Pastoral dos Dias Maduros.

Todo o livro é pura poesia, desde os primeiros versos:

“A qualquer hora o espectro do sono flutuará

na penumbra da sala.

As mãos do morto afagarão a estranha latitude

do seu corpo.” (“A visitação)”

Até os derradeiros:

“Chuva, trigo do céu, hulha

na terra espúria do sonho.

Música da nuvem e leite do seu ubre.

Chuva que te quero rubra.” (“Chuva”)

Apresentou-mo o jovem e delirante Carlos Emílio, que frequentava, com desenvoltura, os velhos cultores do delírio em nossa terra, como se fossem seus pares. Além disso, lia Virginia Woolf em inglês, Proust em francês, Thomas Mann em alemão, Cervantes em espanhol. Um prodígio! Eu me contentava – e como ser diferente, se mal sabia ler Alencar em português? – com meus livrinhos ensebados e cheios de traça, comprados à beira das calçadas, no chão, nas ruas do centro de Fortaleza.

Depois, já fugido da seca, exilado no Planalto Central, então a ler traduções de Woolf, Proust, Cervantes, Mann, continuei a me entusiasmar com Francisco Carvalho e todos aqueles que durante muito tempo me ensinaram a ler nos suplementos literários.

Visitei o poeta de Russas, do Brasil e do mundo mais de uma ou duas vezes, se me não engano. Mas o li – e leio – sempre. Não digo todo dia, que mentir muito é feio. Agora – as retinas fatigadas pelo sol, pela sujeira dos dias, pela visita dos micro-organismos –, agora me chegou às mãos este pequeno conjunto de poemas intitulado Exercícios de Utopia. Li-os, entre um gole e outro de cicuta – mato-me aos poucos, por prescrição médica: um comprimido aqui, uma cápsula ali, uma colher de ácido ao meio-dia, outra às vésperas de delirar na cama.

Tudo é salutar nos livros de Francisco Carvalho. Neste, até a capa de Carlos Alberto Alexandre Dantas é de encher os olhos de bom espanto. A apresentação de Gilberto Mendonça Teles é de mestre. E poeta. Os versos, livres ou metrificados, têm ritmo de sonata. As rimas são sonoras, embora haja as comuns. Mas isso não é o mais relevante em poesia. FC é poeta da chuva e da estiagem, da pedra no meio do caminho e das galáxias em rodopio, dos pobres andrajosos e dos tetrarcas de reinos destruídos, dos pássaros, que são anjos em busca do canto, e dos anjos – pássaros emudecidos.

Tudo é pura poesia em Exercícios de Utopia, desde os primeiros versos:

“Acredito nos anjos

que não precisam de asas

para voar.

Moram em casebres de taipa

e recolhem mendigos

para a ceia.” (“Exercícios de utopia”)

Até os derradeiros:

“raios do vento

raios do fogo

raios da chuva

raios de ira de Deus

raios do paráclito

raios que o partam.” (poema 175).

O breve estudo de Gilberto Mendonça Teles se encerra assim: “O certo é que se trata de um excelente Exercícios de utopia, melhor dizendo, de Eutopia, de belo e de bom, deixando para o leitor a sensação de que o natural e o transcendente se juntam no sentido plural de toda grande poesia.”

Fortaleza, 17 de agosto de 2009.
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