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terça-feira, 31 de agosto de 2010

Adeus, Grécia (Emanuel Medeiros Vieira)

(Delacroix, Barque of Dante)

Não bastaram fibra e amor,

cai, Grécia,

universo solar

adequação entre ser e destino,

envelhecemos

– morte na soleira da porta,

fragmentos de sonhos

– só fragmentos –

não a totalidade,

adeus, Grécia,

adeus,

despedidas

– só despedidas.


Ulisses: somos apenas seres virtuais,

Homero envolto em brumas,

homens sem fibra carregando engenhocas eletrônicas,

caindo como folhas ao vento

(prenhes de cobiça – soberbos –, e miseravelmente rotos),

Não, não eram eternos,

onipotência só de papel,

deuses de barro,

TV.


O Espírito sopra onde quer?

Adeus, Grécia,

adeus, pátria dos homens,

adeus, pássaro da juventude,

inunda-nos o lamento de homens afundados –

uma doída lembrança.


De que barro somos feitos?

Não, não só de vileza,

também busca,

mesmo acampados em sucursais do inferno,

caminhando em sombras:

sonho da eternidade pela arte.


Para todos – fúteis, deslumbrados, sábios –

haverá sim – como haverá!,

o momento da Revelação –

e será tarde,

muito tarde.


Adeus, Grécia,

adeus,

desfeitos, como pó, varridas cinzas,

irrelevantes ou – para alguns –

nobres nessa finitude.


Sonâmbulos, clones dos nossos sonhos,

escritores de narrativas epigonais.


Não naveguei nos melhores mares:

preciso navegar – sempre –

infinitamente humano.
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