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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Antes de Brant, Tieck e Fitzgerald (Nilto Maciel)

Não sou mais de comprar muitos livros. A casa está cheia deles. Além disso, li o essencial (o que será o essencial?). Talvez esteja dizendo bobagem. Pois Machado estudava grego, pouco antes de morrer. Ora, não sou gênio.

Mesmo não tendo mais o hábito de adquirir obras literárias, no final de outubro deste 2010, gastei dinheiro numa livraria e trouxe para casa A nau dos insensatos, de Sebastian Brant; 3 contos fantásticos, de Ludwig Tieck; e 24 contos de F. Scott Fitzgerald. Seriam minhas primeiras leituras de novembro. Qual o que! Pois mal abri o pacote, o carteiro gritou meu nome. (Sujeito polido. Pois outros costumam lançar por cima do muro os fardos artísticos que meus amigos me mandam. Por sorte – minha e dos livros –, há boa grama do lado de dentro do muro.) Corri na direção do portão e recebi três pequenos embrulhos: Viagem ao infinito, de Jorge Freire; Aconselho-te crueldade, de Fernando Fiorese; e Emoção atlântica, de Márcio Catunda. No outro dia, foi a vez de dois volumes de Tanussi Cardoso: Exercício do olhar e 50 poemas escolhidos pelo autor. Na mesma semana, chegaram Menino do bandolim, de Tobias Pinheiro; e 50 poemas escolhidos pelo autor, de Diego Mendes Sousa. Na manhã do dia 11, na Universidade Federal do Ceará, encontrei Rodrigo Marques e dele ganhei exemplar de Fazendinha. Antes de todos estes, recebi, de Eduardo Luz, Manual de bruxaria: introdução à obra crítica de Machado de Assis e Como fumaça erguidos, que comentei no dia 4 deste. Logo a seguir, Claudio Parreira me presenteou com Portal 2001, vários autores, que pretendo examinar.

Como veem, tenho leitura assegurada para o resto do ano. Obviamente, ficarão para outra data Sebastian Brant, Ludwig Tieck e Scott Fitzgerald. Prefiro dar satisfação a meus amigos (que estão aqui e são brasileiros, como eu), a me ufanar de ser leitor de estrangeiros, que não conheci nem conhecerei. Além do mais, não estou mais naquela fase de sair de casa com um Kafka, um Borges ou um Pessoa debaixo do braço, só para me mostrar aos amigos. Levo comigo escritores quase anônimos, leio-os onde é possível ler e não me importo com o que podem dizer.

Não farei resenha destas obras, porque demoro muito a escrever. Falarei, agora, de cada um deles, um pouquinho só, embora não os tenha lido na íntegra.

Para dar uma ordem a este breve comentário, separei os livros em dois grupos: um de poemas, outro de prosa. No primeiro estão Jorge Freire, Márcio Catunda, Tanussi Cardoso e Diego Mendes Sousa.

Não conheço Jorge, embora a publicação dele – Viagem ao infinito – seja de 1978. Mora em Petrópolis, RJ. Não sei se publicou outras obras. No prefácio, Maurício Cardoso de Mello Silva anotou: “Jorge Freire é jovem. (...) Começa com um livro de versos e de prosa poética de conteúdo lírico como deve ser na sua idade.” É verdade: há versos medidos e rimas ao lado de versos sem métrica e prosa poética. Num dos poemas, “Travessia noturna” se lê: “é hora de adormecer o homem/ é hora de acordar o poeta...”.

Márcio Catunda é meu amigo e conterrâneo. Vive sempre a andar pelo mundo. É diplomata de carreira. Se não me engano, está na Bolívia. Emoção atlântica (o título é uma síntese de sua vida de “andarilho” do mundo) é, no entanto, um conjunto de poemas “inspirados” no Rio de Janeiro. Como se vê em “Névoa no Pão de Açúcar”: “Flutua o Cristo sobre o convés do oceano, / guardião dos pântanos da Terra. / Cavalga filigranas nas águas movediças. / Voa sobre prédios e montanhas impalpáveis. / A cidade mergulha na textura da distância. / Quebrantos ecoam em mim. / Perplexo ante os abismos do mar, / ponho alma na intimidade dos enigmas. / Derramo soluços nos pórticos invisíveis”. André Seffrin, nas abas, observa: “ele percorre a cidade com orientação quase mística. Diria mesmo: com o coração na boca.” E mais adiante: “Mas é Vinicius de Morais quem mais aparece nominalmente reverenciado nestes poemas”.

As Edições Galo Branco, do Rio de Janeiro, têm uma coleção: “50 poemas escolhidos pelo autor”. O livro de Diego Mendes Sousa é o volume 53. O poeta é jovem (1989), nasceu em Parnaíba, PI, e tem duas obras publicadas: Divagações (2006) e Metafísica do encanto (2008). Ana Miranda confessa: “Gostei verdadeiramente de sua expressão, e de sua erudição, numa pessoa tão jovem...” De fato, poema também se faz com erudição. Castro Alves é um exemplo disso. Imaginemos se tivesse vivido muito mais.

Tanussi Cardoso é meu amigo. Conheço-o desde os tempos da revista O Saco. Dele são 50 poemas escolhidos pelo autor (volume 35) e Exercício do olhar (2006). Na apresentação deste, Luiz Horácio Rodrigues é categórico: “Tanussi trabalha o contraste estilístico tão caro e tão escasso, sem perder a coerência, a originalidade da temática e o requinte artesanal dos versos, quando a norma, idealizada pelos poetastros ordinários, exige e propaga versos belos e sem sentido.” Um grande poeta. Leiam “as sombras são” (vejam o jogo dos signos): “as sombras se esquecem / de si mesmas / e saem a espantar / as coisas, /à noite // andam trilhos imaginários / perseguem sonhos / dos homens, / as sombras // reais / riem dos objetos clareados / por postes estranhos, / as sombras” (...) É poesia rara, belíssima, de uma riqueza tão grande que só uma leitura demorada nos fará perceber onde moram os rubis do verbo.

O segundo grupo de livros recebidos é de prosa: Fernando Fiorese, Tobias Pinheiro, Rodrigo Marques, Eduardo Luz, Claudio Parreira e outros 16 contistas.

Conheço Fiorese há alguns anos: eu em Brasília, ele em Juiz de Fora. Desde a época da revista d’lira, de que era um dos editores, e de seu primeiro livro, Leia, não é cartomante (1982). Este Aconselho-te crueldade é de prosa de ficção. Sua estréia no gênero conto. E o faz com o pé direito. (Continua o preconceito com os canhotos. E sou canhoto.) No dizer de Valentim Facioli, nas abas, “Fernando Fiorese é um sujeito muito lido, culto, informado e criativo. Os quatorze textos enfeixados nesse livro são quatorze formas diferentes e originais de escrever contos”. E manda um recado: “O que conta é que a pletora de contos escritos e publicados no Brasil no último meio século por autores bons, excelentes, mais ou menos, medíocres e ruins parece carecer, nestes tempos novos e atuais, de cristalizações e sínteses que ajudem os estudiosos, os apreciadores do gênero e os leitores em geral a abrir cortinas e chegar a terreno mais ou menos seguro”.

A publicação de Tobias Pinheiro, Menino do bandolim, tem prefácio de Antônio Justa, que, desde as primeiras linhas, trata de definir o gênero da peça: “É como dizem alguns, um livro de crônicas, mas posso acrescentar que se trata de obra muito mais abrangente, porque o distinto polígrafo de Marcas de Luz quando labora o livro nunca se conforma com os limites de um só gênero literário”. Mais adiante: “Nestas páginas, quase memórias, não perdura vestígio do ardil que muitos escritores costumam empregar para fugir à veracidade da vida vivida”.

Fazendinha, de Rodrigo Marques, jovem conterrâneo meu, traz orelhas assinadas por meu amigo, poeta e professor de Literatura Roberto Pontes: (...) “não sabemos onde principia ou finda a poesia, pois em suas linhas não há limites no plano do gênero. Mas nem vem ao caso cogitar sobre gênero, porque o estar à vontade com a Língua Portuguesa e a invenção plena é a marca de Rodrigo Marques nesta cativante fabulação.” E mais: “Fazendinha conseguirá, com justiça, tornar-se par de Ou isto ou Aquilo, de Cecília Meireles, A arca de Noé, de Vinicius de Moraes, ou Os Saltimbancos, de Chico Buarque de Holanda”.

Cansei as juntas e os olhos e é chegada a hora de a onça (o tigre) beber água. Ficarão para outro dia o Manual de bruxaria, de Eduardo Luz, e o Portal 2001, presente pré-natalino do novo amigo Claudio Parreira. Para dezembro ou 2011, nossos antepassados Sebastian Brant, Ludwig Tieck e F. Scott Fitzgerald.

Fortaleza, 15 de novembro de 2010.
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