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segunda-feira, 29 de março de 2010

Pangaré dos tempos (Viegas Fernandes da Costa)



Não me perguntem por que fui cursar História. Não saberei responder. Bem como não saberei dizer por que, certo dia, pus na cabeça idéia fixa de escrever, publicar livro. Já lecionar, lembro-me, veio naquele sonho sonhado no sótão em que morava meu quarto, na casa dos meus avós, agora dilapidada pela cobiça familiar. Sonhei-me lecionando, coisa inconcebível na minha puberdade, aluno medíocre que era, e por isso não prestei muita atenção. Mas aconteceu sem programação: certo dia uma feira de profissões, a oferta do curso de magistério e um adolescente convencendo a família de que seria professor. Estamos aí. Quanto à História, não sei; literatura então, muito menos. Simplesmente aconteceu, como acontecem as coisas realmente importantes: uma lufada de vento, o pólen no infinito e a pedra no rio, petardo certeiro moldando um destino. Tchibum! E assim foi! Não cometerei o erro do dom.
O erro do dom... Sim, recordo-me de um artigo de Pierre Bourdieu onde este questionava o mito da predestinação. Aquela história de que “desde criança fulano já demonstrava suas inclinações para ser isto ou aquilo”. Nem isto, muito menos aquilo: em criança desejava apenas brincar e olhar o que se escondia sob as saias das vizinhas – tão bonitas! Nada mais. Mas conta a Dona Anneli - minha mãe - que eu era uma criança chorona e que, para aplacar lágrimas e berros, entregava-me exemplares da sua revista Pais & Filhos. Não os rasgava, como precipitadamente o amigo leitor, a amiga leitora, já deve estar supondo. Os dedinhos gordinhos da criança de então pegavam exemplar por exemplar e folheavam as páginas de trás para frente, com cuidado, os olhos se demorando nas ilustrações e nas fotos de outros bebês. Dona Anneli pendurando roupa no varal, olhar de soslaio, meu sorriso e meus olhos espantados, os dedinhos gordinhos tocando o papel. É certo, assim começou o desejo pelo impresso, este poder erótico que livros e revistas sempre exerceram sobre mim, tanto que os namoro na estante, nas pilhas sobre a mesa, nas vitrines das livrarias. Mas daí a dizer que estive destinado, desde zigoto, a plantar palavras, vai uma grande distância; que o digam meus professores de português, verdadeiros heróis.
Hoje, escrevo porque a vida dói, parafraseando o artista plástico Iberê Camargo, e é tudo! Quanto ao resto, construí-me leitor, palavra a palavra, livro a livro, como a máxima da galinha que enche seu papo comendo de grão a grão o milho. A vida dói, pois é! Talvez também isto tenha me empurrado à historiografia, da literatura a outra face da moeda, pois como escrevia, em crônica de 1877, Machado de Assis, “um contador de histórias é justamente o contrário de historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias”, e explica: “o historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar o que se passou é só fantasiar”. Entender a cartografia da dor, talvez, e dialogar com o mundo, quem sabe? Novamente a lembrança do velho sótão onde morava meu quarto; a casa, uma mansarda que abrigava nos cantos do telhado pequenos depósitos de coisas velhas dos tempos de juventude dos meus avós e tios. Quartinhos quentes e escuros, teto baixo e inclinado, onde investia horas e horas das minhas adolescentes tardes de ócio fuçando naquelas malas...
Sim, aquelas malas de madeira, enormes, empilhadas no fundo do quartinho. Afastava as telhas para que o dia pudesse clarear os seus segredos: antigas cartilhas e cadernos escolares, as revistas Cruzeiro, as primeiras edições das Seleções e o número um da Manchete, traças, muitas traças, e os enormes negativos das fotos tiradas na antiga “América Box” – quem seriam os personagens nas imagens desbotadas e nunca mais reveladas? Então... também as cartas, de amor, de paixão, escritas em alemão e péssima caligrafia de homem do campo - meu avô - semi-alfabetizado , empilhadas a um canto, ao lado dos postais, das revistas em quadrinhos e dos almanaques de farmácia com suas propagandas de xaropes e laxantes. Ah... os almanaques! Neles descobri: como sofriam de sífilis os castos homens de antanho! Sífilis e prisão de ventre, que o digam os tantos anúncios! Mas como a casa, também este tesouro particular que escavavam meus olhos e mãos em segredo – proibida que era esta arqueologia pelo zelo de um passado desejado morto que cultivava minha avó – foi perdido na rapinagem familiar. Muito acabou no lixo reciclável, o que sobrou, sumiu. Ficaram mesmo foram estas lembranças de um arqueólogo mirim escavando o passado da família e o sentimento de sacrilégio: o devassar dos segredos esquecidos, das vergonhas escondidas. Naqueles quartinhos descobri o fascínio que o antigo exercia sobre mim, e me deixei seguir atrás dos ácaros, traças e manchas de mofo. E também nisto aqui estamos. Quixotescamente, sim, também nisto aqui estamos!
Afinal, eis onde me encontro, sobre o pangaré dos tempos que trota além das suas patas, os cascos soltos e perdidos em alguma curva lá atrás. Lecionar, historiar ou escrevinhar, todas faces deste mesmo Quixote montado nas utopias brotadas das sementes que o vento nos trouxe.
Pangaré sem viseiras, sem cascos, por isso aprender a pisar diferente. Não me arrependo.
Blumenau, 25 de junho de 2005
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* Viegas Fernandes da Costa, autor de "Sob a luz do farol" (2005), "De espantalhos e pedras também se faz um poema" (2008) e "Pequeno Álbum" (2009). Mantém o blog Saiba mais. >http://viegasdacosta.blogspot.com . Permitida a reprodução, desde que citado o autor e o texto mantido na íntegra.
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terça-feira, 23 de março de 2010

A velha guarda da literatura cearense (Nilto Maciel)


 
Herman Lima

Desde muito jovem, meti na cabeça duas ideias ousadas: escrever bem e publicar livros. Não consegui realizar a primeira, por mais que tenha tentado. Mas não me aventurei como outros: não li todo o essencial, não estudei gramática e línguas, fui preguiçoso e relapso nesses erros. A segunda ideia se concretizou aos poucos, embora tardiamente. O primeiro livrinho eu o editei aos 29 anos de idade. O segundo o Estado o publicou sete anos depois. Aos 37 anos tive o privilégio de assinar contrato com a editora sulista Mercado Aberto para a edição da novela A guerra da donzela, com distribuição nacional. Só então meu nome chegou a alguns jornais e ao conhecimento de críticos e escritores do Ceará (onde nasci), de Brasília (onde morava) e outros rincões.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Soneto (Ailton Maciel)




A Altamir Xavier



Palerma, sem escrúpulos, pedante,

trêfego, com trejeitos pueris;

metido a gente sábia e importante,

com acervo demais em seus quadris!



Doente de acoria, intolerante,

ao olhar-se no espelho tão feliz

parece até uma miss debutante

com traços de fútil meretriz.



Fala demais. Rebola sem cessar,

canta fino, e aos domingos vai orar

na capela. É doente de acrania



e de acédia. Há dez anos que estuda

mas da série primeira nunca muda.

É cheio de desgosto e hipocrisia!

Fortaleza, 9/2/65

(AILTON MACIEL deixou alguns inéditos. Ailton Alves Maciel (nome completo) nasceu em Baturité, Ceará, em 7 de março de 1943. Em vida nada publicou, embora tenha escrito inúmeros poemas, romances e contos. Sua obra mais importante desapareceu. Talvez no incêndio doméstico que quase o matou, em Brasília, onde foi viver (e morrer) no início dos anos 1970. Sua morte clínica se deu no dia 22 de outubro de 1974. Apenas quatro contos se salvaram: "Santa Caçada", "O Touro", "O Careca" e "O Presente da Professora", publicado na revista Literatura n.º 24, de 2003. Outros onze fragmentos encontrados podem ser de contos e romances).
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sexta-feira, 12 de março de 2010

Revolto (Inocêncio de Melo Filho)


Os homens amam e comem o pão
Que Deus ou o Diabo amassou.
Os homens vivem e morrem
Em cima da terra
Debaixo do céu
Os homens contemplam o infinito
Erguem as mãos
O tempo ágil e impaciente curva-os
Fazendo-os dormir no ventre da terra
O céu límpido e passivo
Fica a olhar sombras e jazigos.
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quarta-feira, 10 de março de 2010

Boa sorte, Maciel (Daniel Lopes*)




Às vezes a gente se apega, mesmo sem querer, e acaba gostando de alguém. Que pelo menos seja de uma criança então. Eu estava de saco cheio daquela história de dar aulinhas. Fora de brincadeira, os alunos eram uns capetas e os pais eram piores ainda, ganhava-se mal e, além disso, naquele ano, eu tinha ido parar numa escola do outro lado da cidade, tive até de comprar uma lambreta pra chegar a tempo de uma escola à outra. Sem contar que a toda hora aparecia algum jornalistinha, médico, padre, pedreiro, doutor, encanador e o escambal dando pitacos e oferecendo soluções sensacionais para o problema da educação. Falar é fácil, sempre foi. E a gente é que tinha de trabalhar em três escolas, correr de uma pra outra, fazer dezesseis horas por dia pra pagar as contas, vai vendo. E tinha aqueles coitados que não aprendiam nem se a gente desse cambalhota, ou fizesse malabarismo no meio da sala de aula. E tinha aqueles coitados que chegavam fedendo, doidos pra comer a merenda e esperar o lanche. Como é que alguém pode se interessar por Emílias e Narizinhos quando se chegava com o estômago pregado às costas e as orelhas cheias de bolachas familiares advindas da pinga paterna da noite anterior? E pro meu lado ainda tinha aquela diretora que parecia uma coruja de tanta plástica e de tanta chatice. É preciso dar nome aos bois, digo, à vaca: chamava-se Sandra Siqueira Nunes, ainda deve estar por aí, fodendo a vida dos outros. Não era mesmo fácil, mas eu tinha uma família pra sustentar e não podia entregar a rapadura. “Você reclama de barriga cheia” me diziam. Falar é fácil. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Como diria o Machado, suporta-se com paciência a cólica alheia. Isto mesmo. Mas eu tinha de agüentar até o fim do ano. Isto mesmo, só até o fim do ano... e arrastava outra vez minha carcaça cansada pro outro lado da cidade, onde quarenta e cinco alunos de onze anos, mais ou menos, me esperavam em cada sala de aula.
Foi numa tarde em que o calor estava torrando nossos miolos que ele chegou até minha mesa. Todo malandro, negro, cheio de desenhos no corte de cabelo, franzino, com um par de tênis que devia caber uns dois pés dele dentro, querendo puxar assunto pra não fazer a lição, eu andava bem ligeiro com todas essas malandragens:
- O senhor tem uma moto, né professor?
- Uma lambreta.
- É meio feia a moto do senhor, mas dá pro gasto. Sou doido por moto. Meu tio tem uma Hornet, por que o senhor não compra uma Hornet?
- Não tenho dinheiro. O que é que seu tio faz.
- Meu tio é ladrão. Meus tio é tudo ladrão. Tem dois que tá preso e um que morreu. Os outros dois só rouba. Teve um tio meu que deu um tiro na boca de um cara e os dentes saíram pela nuca. Meus tio é tudo doido. O outro só rouba caminhão e faz seqüestro relâmpago. O senhor é casado?
- Sou, por quê?
- Se não fosse, eu ia dar o telefone da minha tia pro senhor. Ela é a maior gostosa, queria que o senhor visse. Mas ela namora com um velho que deve ter mais de cem anos. Ela tem uma filha de dois anos também. A menininha é o maior barato, sabia que a primeira coisa que ela falou foi o meu nome? Vive atrás de mim, ela é o maior barato, professor, é esperta demais. Agora ela já fala tudo. Já sabe até conta. Quer dizer, sabe mais ou menos. Ela conta assim: um, dois, três, cinco, oito, dez, dezoito. Minha tia é meio chata. Às vezes ela me bate, mas quando ela tá legal também ela compra um monte de filme de terror e a gente passa a noite toda assistindo. O Senhor já assistiu O exorcista?
- Já.
- É muito louco, né. Esse é o melhor professor. E diz que morreu todo mundo que fez o filme. Sinistro, né?
- Pois é. Mas e seu pai, Maciel? Sua mãe?
- Meu pai morreu no ano passado, professor. Ele trabalhava pra prefeitura. Cortando as árvore. Aí uns dois anos atrás uma árvore caiu em cima dele. Ele ficou ruim um bocado de tempo. Ai melhorou um pouco e aí no ano passado ele morreu. Minha vó recebe a pensão dele, mas não me dá nada. Quer dizer, ela me dá roupa e comida, né professor e cuida de mim.
- E sua mãe, Maciel?
- Minha mãe bebe. – Ele falou e pela primeira vez pareceu se entristecer. Minha mãe bebe. Não precisava me dizer mais nada, eu podia deduzir o resto. Bateu o sinal.
- E a lição, Maciel?
- Foi mal professor, não fiz não, mas é que essa lição é muito chata. - Eu sabia que a lição era chata mesmo. A escola era um pé no saco pra todo mundo.
***
Durante o intervalo, na sala dos professores, perguntei aos outros sobre o Maciel.
- É um vagabundo. – Disse um.
- Não faz nada. – Disse outra.
- Parece que a família é toda desestruturada. – Disse outra e continuou. – Deu um trabalho danado no ano passado, quando o pai morreu. Arrumava briga todo dia. Arranjava confusão até com os meninos da oitava série. E pior que muitas vezes ele, daquele tamanho, conseguia bater nos meninos grandes.
- Vem alguém na reunião de pais?
- Nunca veio ninguém. – Disse o professor que chamara o Maciel de vagabundo.
***
Quando voltei de novo na sala do Maciel, ele mal esperou que eu terminasse de fazer a chamada. Pegou suas coisas, sua cadeira e foi se sentar junto de mim, na minha mesa.
- Ei, professor, hoje eu vou fazer toda a lição. – Disse – Pode encher a lousa que eu vou fazer tudo.
Só que era aula de leitura. Estávamos lendo O pequeno príncipe, quero dizer, estávamos tentando ler O pequeno príncipe. A maioria só abria o livro e começava a conversar, obrigando-me a aumentar o tom de voz, que é um jeito de gritar elegantemente. Mas o Maciel quis ler neste dia e quis ler em voz alta. E leu... e bem. Daí em diante o moleque mudou na minha aula. Não que ficasse quieto, porque isso ele não conseguia mesmo. Mas fazia todas as atividades e terminava primeiro que todo mundo. Só depois é que começava a bagunçar.
- O Maciel só faz a lição do senhor, professor. – Diziam os outros alunos. E ele fazia mesmo. Rápido e bem feito... a letra não era das melhores, mas dava pra perceber que ele se esforçava. Às vezes eu ficava até envergonhado, não imaginava porque todo aquele apego a mim. Eu, que andava sempre tão estressado. Eu, que tinha tão pouco tempo e pouca paciência sempre. Mas a verdade é que eu também me apegava ao menino... e conversava com ele... e gostava de conversar... só precisava dar um freio quando ele começava a querer falar de sexo. Já sabia um bocado de coisas, o danado, e queria me mostrar que sabia, mas eu precisava cortar, afinal de contas aquilo era uma quinta série.
Dois meses antes de seu aniversário, ele já estava me perguntando, o que eu daria de presente a ele. Perguntei o que ele queria ganhar.
- Pode me dar uma moto professor. – Disse e sorriu. – brincadeira, professor, dá o que o senhor quiser. – Emendou e sorriu de novo.
- Beleza.
- Dá um dinheirinho mesmo, professor.
- Tá, quando chegar seu aniversário eu te dou um dinheirinho.
- Aê. – Ele disse e ficou em silêncio uns instantes, pensando, antes de perguntar: - Professor, como é que faz dinheiro?
- Como assim?
- É, como é que faz dinheiro?
- É na casa da moeda. Existem umas máquinas.
- Meus tio são meio burro né professor. Era só roubar uma máquina dessas e aí ficava fazendo dinheiro em casa, não precisava roubar mais nada.
- Maciel!
- Mas não é professor! Bastava uma máquina, de fazer logo nota de cinqüenta. Uma vez meu pai me deu uma nota de cinqüenta.
- Deixa de bobagem, Maciel.
Dei-lhe algum dinheiro, quando chegou seu aniversário. Adverti que não dissesse a ninguém, pois poderia me complicar.
- Tá achando que eu sou alcagüete, professor?
- Não, Maciel, não.
***
O tempo, sempre senhor de tudo, transcorreu. O fim do ano se aproximava e numa tarde de novembro o menino chegou com ar preocupado na minha mesa.
- Que foi, Maciel?
- Nada não, professor.
- Como nada, e por que é que você tá todo jururu?
Silêncio.
- Fala, Maciel.
- Sabe o que é, professor? O ano ta acabando , né? E o senhor mora longe, né? Queria saber se no ano que vem o senhor vai dar aula aqui?
Respirei fundo. Êta pergunta danada de difícil de responder. Ainda bem que não caiam perguntas desse tipo nos concursos. Tinha de dizer a verdade.
- Já pedi a remoção, Maciel, ano que vem vou trabalhar noutra escola mais perto da minha casa.
- Hã... tá bom. – Ele disse e eu pude ver o brilho das lágrimas umedecendo seus olhos, contudo não chorou. Estava calejado, o Maciel. Era só um menino, mas já tinha aprendido a agir como o mais duro dos homens. Eu, por meu lado, me sentia um traidor, um tremendo mau caráter. “É a vida”. Eu dizia de mim para comigo em cima da minha lambreta enquanto pilotava até a outra escola. Como se pudesse me enganar... Como se pudesse disfarçar aquela coisa ruim que me oprimia o peito.
***
- Depois de amanhã é o penúltimo dia de aula, professor. A gente vai fazer uma apresentação lá no CEU. Eu vou ser o Michel Jackson, professor. – Ele diz e aí começa a imitar os passos do artista recém-falecido, talvez até melhor que o próprio Michel. – O senhor vai lá ver, né, professor?
- Que hora vai ser a apresentação?
- Uma hora da tarde.
- Puxa vida, Maciel. Eu saio da outra escola, lá do outro lado da cidade, meio dia e meia.
- Tudo bem professor. – Ele diz baixando o olhar como se tivesse levado um tapa na cara.
- Vou ver se consigo sair mais cedo, Maciel, não prometo nada. Mas vou ver se dou um jeito de chegar a tempo.
- Faz um esforço, professor. Queria que o senhor me visse lá amanhã.
- Vou ver. – Eu digo e dentro de mim mesmo me prometo que vou fazer o que for preciso pra ver o menino dançar.
***
Não consegui chegar no início da apresentação, mas o Maciel percebeu quando cheguei e sorriu. Embora ele sorrisse o tempo inteiro, achei que sorrisse por causa da minha chegada.
Ao final, ele e as outras crianças agradeceram à platéia se curvando como se fossem artistas famosos. O público, formado principalmente por alunos da escola onde eu trabalhava e do CEU, estava delirando com a apresentação. Batiam palmas, assobiavam, gritavam.
Voltamos a pé pra escola. Era perto. No caminho o Maciel estava empolgado. Era o centro das atenções. Tinha arrebentado. As meninas do CEU ficaram babando. E quando ele tinha feito o Moon Walker, então? Moon o que, professor? Aquele passo que você desliza pra traz. Aquele passo é o maior boi professor, difícil foram os outros que eu mesmo fui inventando na hora. Deu tudo certo, né professor?
- É, Maciel, deu tudo certo.
No final da aula, era praticamente a última, ele me pediu que o levasse para casa de moto. Seria da hora. Disse que não podia. Não tinha um capacete pra ele e seria perigoso. Entristeceu de novo. Dei um abraço nele e uns tapas no ombro. Eu estava sem jeito.
- Então tchau, professor.
Abracei de novo. Os outros alunos tiraram sarro. Briguei com eles.
- Se cuida, carinha. Você é gente boa demais. É o moleque mais firmeza do Parque Bristol, Clímax, da zona Sul – Falei
- Beleza, professor. – Disse e foi deslizando pra trás, fazendo o Moon Walker do Michel Jackson.
Na hora de vir embora chovia. No caminho, acabei caindo da moto. Eu tinha escolhido ser professor, porque já tinha sido menino. Diabo, eu não era bom com o tal do Adeus. Era um péssimo professor. E eu sentia uma coisa ruim por dentro. E pensava nos meus filhos. E tinha vontade de chorar. E me preocupava com o que o futuro e o mundo guardavam pro Maciel. Mas tinha de terminar de fechar as médias da outra escola. Que merda de mundo burocrático.
***
Não sei porque hoje eu estava triste. A velha depressão contra a qual eu tenho lutado desde menino. Coloquei umas músicas... e... me lembrei do Maciel. O que ele estaria fazendo neste feriado de carnaval? Seria que tinha caído já no crime? Pensei em orar pra Deus por ele. Brigo muito com Deus, sou meio mal humorado às vezes, mas, sempre que me vejo em enrascadas, apelo pra ele. Desisti de orar. Sempre quis ser artista, então, em vez de orar, escrevi esta história. A arte é a oração do artista. Boa sorte, Maciel.

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* Daniel de Souza Lopes é professor da rede pública estadual e municipal de São Paulo. Tem textos publicados nas revistas literárias eletrônicas Germina e Amálgama. Edita o blog: www.pianistaboxeador21.blogspot.com . Lançou em 2008 o livro É preciso ter um caos dentro de si para criar uma estrela que dança.

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sexta-feira, 5 de março de 2010

Soares Feitosa: Oraculum, oraculi (Nilto Maciel)



(Da esquerda para a direita, sentados: Nilto, Jorge Tufic e Soares Feitosa, nos jardins da reitoria da Universidade Federal do Ceará)



Recebi (em 96 ou 97) um embrulho volumoso e pesado, de remetente desconhecido. Seria mais um escritor novato em busca de leitor e crítico? Naquela noite, eu pretendia dar mais uns retoques num conto iniciado havia mais de uma semana. Jantaria, conversaria com a família, comentaria os fatos do dia. No entanto, o pacote sobre a escrivaninha me chamava a rasgar seu invólucro. Jantei, pouco conversei e nem prestei atenção às notícias da televisão. Quem seria aquele Soares Feitosa? Violei o papel, sem fúria. E aos meus olhos se mostrou um objeto colorido, de capa dura e muitas páginas, chamado Réquiem em Sol da Tarde. Todo feito em computador, em casa, artesanalmente. Pus-me a ler e me fui fascinando. Sentei-me, para não desmaiar. Permaneci lúcido, acordado, por muitas horas. O resto da noite passei a ler aquela poesia, ao mesmo tempo, seca e úmida, mineral e vegetal, leve e pesada. E fui me entorpecendo, até pegar no sono sobre o dorso do livrão. Pela madrugada, minha companheira me acudiu. Eu adormecera, entorpecido de prazer, como se tivesse me enchido de ópio. Dias depois, mandei carta ao poeta. Ora, eu não sabia de sua existência. Eu e quase ninguém. Porque inédito, escondido, a poetar sem alardes, recluso em casa.

Conheci Soares Feitosa em Brasília, alguns anos depois daquela noite de papoulas imaginárias. Conversa rápida, porque anda sempre com pressa, em razão das lides forenses, viaja para cá e para lá e não dispõe de tempo para parlendas inúteis em bares e outros lugares onde poetas barrigudos ou esguios, e sem tino, costumam destilar (ou dedilhar) suas folhas (ou falhas) literárias. Deu-se numa tarde melancólica, num sábado qualquer. Fui ao encontro dele, endereço anunciado por telefone. Apresentamo-nos, sem necessidade, porque já nos conhecíamos literariamente. E isto basta. Falou e falou, durante quase todo o tempo da reunião. Não falou de si ou de sua poesia. Falou tão-somente do Jornal de Poesia, com um entusiasmo de adolescente. Editor de revistas havia mais de vinte anos, fiz-lhe perguntas de entrevistador: Como você seleciona os poemas e contos? E ele, como se se irritasse (parece estar sempre irritado, de mau-humor), não titubeou: Não faço seleção nenhuma; que o façam os leitores e os críticos. Insisti: Certamente nem tudo é publicado. De certa forma, há uma seleção. Ele se irritou mais, depois sorriu. Ou gargalhou: Sim, há os cupinchas. Se for meu cupincha...

De volta a Fortaleza, em 2002, procurei-o. Eu tencionava, havia muito, criar um jornal do conto na Internet. Marcamos dia, hora e local do encontro. Convidei dois ou três amigos para a visita. Abraçou-nos, ofereceu água e café. Vínhamos esbaforidos, suados, cansados. Não, café não combinava com o nosso sarau. Pelo telefone interno, chamou uma serviçal: Traga rapadura. Um minuto depois, uma cesta com pedaços de rapadura nos foi apresentada. Comam. Essa é a comida do sertanejo. Vocês precisam mesmo é de rapadura da serra. Enquanto comíamos, ele voltou a falar de literatura. E do Jornal de Poesia.

Soares Feitosa não tem papas na língua. Fala tudo, sem rodeios (ou arrodeios), sem vergonha, feito criança. Embora meninão, não faz perguntas, mas afirmações. Mesmo as que mais chocam ou melindram o interlocutor? Você nunca leu a Bíblia; não sabe onde fica o sertão; está perdendo tempo com esse tipo de literatura. Além disso, conhece todo mundo: dos poetas gregos aos cantadores de feira, dos romancistas russos ao mais esquecido escritor dos cafundós. Fala, com desenvoltura, de uns e outros. O cego fulano, o louco sicrano, a mocinha de Cabedelo, o mocinho de Maria Farinha. Nunca os viu e não tem interesse de vê-los. Tem memória como poucos: O poeta beltrano, autor de A mocinha de Cabedelo... Parece ter lido há poucos minutos a obra completa do interlocutor: Nilto, quando o cabra que virou bode saltou, nu, a janela da casa do “coroné”, já sabia que um bode expiatório se preparava, no meio do mato, para salvá-lo da morte.

Soares não faz elogios à-toa, assim como não perde tempo em espicaçar poetas, contistas e romancistas. Se gosta da obra, faz hermenêutica. Destrinça tudo, escarafuncha as vísceras do pergaminho. Não diz trivialidades ou frases pomposas, dessas que se ouvem e leem nas academias, nos jornais, nas esquinas, nos bares (fulano é gênio; a poesia de beltrano é digna de Camões). Talvez nem as ouça: entram por um ouvido e saem pelo outro. Parece ter lido tudo. Ou o essencial de tudo: gregos e troianos, poetas e cronistas bíblicos, latinos e trovadores medievais, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Fernando Pessoas (assim mesmo, no plural), cordelistas, cegos aderaldos. Além disso, aprendeu, como poucos, gramática e etimologia. Seria um sábio, um mestre. Ri disso. Tem imaginação de profeta. Sorri. Ora, se não tem vocação para sábio, mestre e profeta, só pode ser poeta. Entretanto, diz ter escrito o primeiro poema após completar 50 anos de idade. É possível.

Os mais moços (eu e ele somos sexagenários) chamam-no rabugento, porque o procuram para ouvir elogios e ver seus versos no Jornal de Poesia. Ele, porém, fala de poemas centenários. E eles não o ouvem. Certa noite, ao redor de uma mesa, num bar do centro cultural Dragão do Mar, ele falava do Gênesis. E contava a história do amor de Jacó por Raquel, e citava versículos da Vulgata: “Habebat vero filias duas: nomen maioris Lia, minor appellabatur Rahel; sed Lia lippis erat oculis, Rahel decora facie et venusto aspectu. Quam diligens Iacob ait: Serviam tibi pro Rachel filia tua minore septem annis”. (Na tradução de João Ferreira de Almeida: “Ora, Labão tinha duas filhas: Lia, a mais velha, e Raquel, a mais moça. Lia tinha os olhos baços, porém Raquel era formosa de porte e de semblante. Jacó amava a Raquel, e disse: Sete anos te servirei por tua filha mais moça, Raquel”). Um engraçadinho, metido a sabichão, pôs-se a declamar: “Sete anos de pastor Jacó servia / Labão, pai de Raquel, serrana bela” (...). Irritado, por ser interrompido, Feitosa se calou e fez menção de se retirar. Pedi-lhe calma, permanecesse, continuasse a história. Entretanto, à sua frente, um poeta e uma poetisa se lambiam. Talvez impulsionados pelo conto genesíaco. Feitosa se irritou mais ainda, não sei se por não o ouvirem, não sei se por quererem representar em público. E sapecou: Isso é uma esculhambação.

Estou devendo mais uma visita a Feitosa. A degustação da rapadura da serra. A disposição para ouvir sua fala de homem com raiva do analfabetismo, da ignorância, da cegueira, da surdez de muitos catedráticos, eruditos, mestres. Estou lhe devendo uma visita para compreender um pouco mais de mim mesmo. Porque Soares Feitosa é também leitor de mentes. Ou de entrelinhas. De entrementes? Melhor dizê-lo oráculo.

Fortaleza, fevereiro de 2010.
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segunda-feira, 1 de março de 2010

Livro italiano sobre Fernando Pessoa tem ensaio de Adelto Gonçalves


(Adelto Gonçalves)

O ensaio "Ambiguità e ossimoro: simboli dell'universo e del mistero in Fernando Pessoa" (Ambiguidade e oxímoro: símbolo do universo e do mistério em Fernando Pessoa), do jornalista e escritor Adelto Gonçalves, professor do curso de Direito da Universidade Paulista (Unip) e de Jornalismo Impresso da Universidade Santa Cecília (Unisanta), de Santos, faz parte do livro Studi su Fernando Pessoa, a ser lançado dia 9 de março por Edizioni dell'Urogallo, de Perúgia, sob a direção do professor Brunello De Cusatis, responsável pelas Cátedras de Literaturas Portuguesa e Brasileira e de Línguas Portuguesa e Brasileira da Universidade de Perúgia. Segundo De Cusatis, a obra reúne onze estudos de alguns dos maiores especialistas hoje na obra de Fernando Pessoa em todo o mundo.

Na apresentação do livro, De Cusatis explica que a obra estava prevista para sair à luz em 2008, à época do 120º aniversário de Fernando Pessoa (Lisboa, 13/6/1888), mas "razões profissionais e familiares" acabaram por retardar o seu lançamento. O livro é dedicado à memória do crítico cubano René Pedro Garay, diretor do Departamento de Literaturas Hispano-americana e Luso-brasileira da The City University New York (Cuny), falecido em 30/4/2006 e co-autor com Raúl Romero do ensaio "Epifanía y poema en prosa: El Livro do Desassossego de Fernando Pessoa/Bernardo Soares", que também será publicado com o título Il Livro do Desassossego di Fernando Pessoa/Bernardo Soares: epifania e poema in prosa em Studi su Fernando Pessoa. Nesse ensaio, os autores apontam o livro Fernando Pessoa: a Voz de Deus, de Adelto Gonçalves (Santos: Universidade Santa Cecília, 1997), como texto pioneiro em referência ao poema em prosa na obra de Fernando Pessoa.

Além dos ensaios de Adelto Gonçalves e de Raúl Romero-René Pedro Garay, a obra traz estudos: do próprio Brunello De Cusatis; de Alfredo Margarido, poeta, artista plástico e professor da Universidade Lusófona, de Lisboa; de José Blanco, bibliógrafo pessoano e ex-administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa; de Manuel G. Simões, ex-responsável pela cátedra de Língua e Literaturas Portuguesa e Brasileira das Universidades de Bari e Veneza; de Ivo Castro, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; de Jerónimo Pizarro Jaramillo, colombiano com doutorado em Literatura Portuguesa pela Universidade de Lisboa e em Literatura Romana pela Universidade de Harvard; de Fernando J. B. Martinho, crítico literário e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; de Vera Lúcia de Oliveira, professora brasileira da Faculdade de Letras da Universidade de Perúgia; e de Andrea Marcigliano, jornalista e professor de Filosofia e História.

O ensaio "Ambiguidade e oxímoro: símbolos do universo e do mistério em Fernando Pessoa", agora traduzido para o italiano por Brunello De Cusatis, foi publicado originalmente na revista Forma Breve, nº 4, 2006, pp.303-313, da Universidade de Aveiro, Portugal. Já o ensaio "Epifanía y poema en prosa (El Livro do Desassossego de Fernando Pessoa/Bernardo Soares)" foi publicado originalmente em castelhano na revista Forma Breve, nº 2, 2004, pp. 71-79, e na Revista do Centro de Estudos Portugueses (Cesp) da Universidade Federal de Minas Gerais, de Belo Horizonte, v. 25, nº 34, jan-dez, 2005, pp.13-22.

Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa e mestre na área de Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana pela Universidade de São Paulo (USP). Fez trabalho de pós-doutorado com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) na Universidade de Lisboa em 1999-2000.

Jornalista desde 1972, trabalhou em O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, Editora Abril e A Tribuna, de Santos. Foi correspondente em Lisboa da revista Época em 1999-2000. É colaborador do quinzenário As Artes entre as Letras, do Porto, e dos jornais Diário dos Açores, A Tribuna, de Santos, Jornal Opção, de Goiânia, A Tarde, de Salvador, e revistas Vértice e Colóquio/Letras, de Lisboa, Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, e Forma Breve, da Universidade de Aveiro, entre outras. É sócio-correspondente da Academia Brasileira de Filologia (Abrafil), do Rio de Janeiro.

Estreou na literatura em 1977 com o livro de contos Mariela Morta. Em 1980, ganhou menção honrosa do Prêmio Nacional José Lins do Rego da Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, com o livro Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981). Em 1986, obteve o Prêmio Fernando Pessoa da Fundação Cultural Brasil-Portugal, participando do livro Ensaios sobre Fernando Pessoa.

Conquistou os prêmios Assis Chateaubriand de 1987 e Aníbal Freire de 1994, ambos da Academia Brasileira de Letras. Em 2000, com Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), seu trabalho de doutorado, ganhou o Prêmio Ivan Lins de Ensaios da União Brasileira de Escritores e Academia Carioca de Letras.

Em 1999, publicou o seu primeiro livro em Portugal: o romance Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999), que saiu no Brasil em 2002 pela Publisher Brasil, de São Paulo. Em 2003, publicou pela Editorial Caminho, de Lisboa, Bocage: o perfil perdido, seu primeiro trabalho de pós-doutorado. Escreveu prefácios para dois livros de contos de Machado de Assis publicados em 2006 e 2007 pelo Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, Rússia, em edição bilíngüe russo-portuguesa, com o apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

Atualmente, com bolsa da Unip, desenvolve pesquisas no Arquivo Público do Estado de São Paulo sobre a atuação de ouvidores, juízes de fora e juízes ordinários na capitania de São Paulo (1709-1822). Tem prevista a publicação pela Ateliê Editorial, de Cotia-SP, do livro Aventureiros paulistas: a formação da capitania de São Paulo no século XVIII.
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