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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Passeio em Madalena (Astrid Cabral)


(Mercado da Madalena, Recife)


Para mim o mundo começou em Madalena, no Recife.

No colégio, tempos depois, as freiras me falaram no Éden de Adão e Eva, e mais tarde, já na escola pública, a mestra apontou no mapa a Mesopotâmia como o berço da civilização humana. Mas nenhum desses lugares tinha a ver comigo, com a minha pequenina história pessoal. Esses imensos retrocessos de milênios me deixavam perdida, eram pontos longínquos de alcançar, abstrações grandes demais para cabeça de menina, onde um laço borboleta de tafetá sempre me incomodava.

Em Madalena é que me experimentei no mundo e me senti viva, carregando o corpo, os cinco sentidos e adivinhando a alma. Foi lá que vi auroras acendendo os dias pelas frestas da janela, lua e estrelas se esparramando na colcha azul do céu, pregadinhas lá no alto sem que tombassem no chão pertinho de mim. Eu me perguntava por que não caiam que nem a chuva e imaginava como não seria tocar com os dedos os pontos de luz tremelicando, ter a lua nas mãos feito uma tapioca cintilante, impossível de morder.

Era bom saber que claridade e escuridão iam se alternando sempre, de tal jeito que ao me deitar à noitinha ouvindo os grilos cantando naquela hora sem cor, já sabia que ao acordar com os galos dos quintais, tudo estaria claro e colorido novamente. Lá estaria de novo o céu azulzinho e enfeitado de algodão, as árvores verdes com suas cabeleiras tão diferentes, umas meio carecas, outras tão copadas que escondiam as paredes das casas e tudo que estivesse atrás delas, até mesmo pedaços de céu. Estariam os muros caiados de branco, as telhas alaranjadas e as calçadas cinzentas. Também haveria os vendedores com as carroças de abacaxi, sapoti e goiaba, com suas cores e sabores, cascas lisas e ásperas. E o peixeiro anunciando aos gritos seus camarões rosados e cinzentos, os peixes cegos, quietos, brilhando e cheirando a mar.

E havia a música dos sinos acompanhando o princípio e o fim dos dias e às vezes, para variar, o barulho da chuva, que acordava o odor da terra quente, não respeitava dia nem noite e, de instável intensidade, podia até vir acompanhado do rumor da ventania e dos trovões, se o tempo andava zangado. O gostoso da chuva é que ela nos lambia o corpo e molhava os cabelos até que nos afastavam das calhas e nos conduziam para dentro de casa, falando sempre no perigo de gripes, febres e catarros.

Tudo começou naquela casa geminada, de oitão à direita, em cima de uma calçada alta a que se chegava subindo degraus de pedra na lateral. A rua de areia branca era certamente o antigo leito do rio vizinho, e as imponentes calçadas, defesa contra possíveis enchentes, pois de vez em quando as águas costumavam se lembrar de sua ex-moradia e podiam querer retomar a primitiva posse.

Era bom dispor daquela areia branca de fundo de rio e tê-la nas mãos para as brincadeiras. Lembro-me de no oitão da casa, junto com a meninada, engessar as pernas do menino amiguinho que ficara paralítico. Primeiro fora vítima da pólio, depois de desastrada queda da roda-gigante instalada no bairro. Ele se deitava no chão e todos nos empenhávamos em cobrir-lhe as pernas raquíticas com areia úmida, sempre na intenção de que ele se levantaria dali sarado, correndo que nem nós outros. Mas qual, éramos médicos medíocres, tudo o que conseguíamos era o sorriso inocente daquele companheirinho. Aquilo era caso que pedia milagre e muita reza. Foi ali que me veio nítida pela primeira vez a consciência do que era o destino. Por que ele e não eu? E havia outras diferenças, pernas e corpos de variadas peles, cabelos armados e lisos, tudo muito variado e sem explicação. E a flagrante diferença entre ser menina ou menino, o que acarretava muitas outras. Até o modo de tratar os inúmeros pombos que moravam em nosso quintal e nos arredores. Os garotos bancando os valentões e desafiando os bichos, enquanto nós meninas queríamos era alisar as penas ou que viessem comer bicando em nossas mãos.

Enfim, éramos uma miúda irmandade improvisada no convívio de tardes e manhãs, parceiros nos jogos e nas cantigas de roda. Dividíamos as alegrias e as pitombas dos cachos que trocávamos por moedas com os garotos pobres que nos ofereciam à venda batendo às portas. Também nos mandávamos porta afora em direção ao beco que fechava a rua, em busca das bagas de tamarindo caídas no chão. Ali foi quando aprendi a lição entre o permitido e o interdito, pois havia uma cerca isolando, reservando o pé de tamarindo para o dono do quintal. E o arame farpado ali estava para deter a cobiça de mãos e braços avançando em direção aos frutos agridoces. E eram tão poucos os disponíveis à nossa gula que as bocas ficavam salivando de desejo e babando de raiva com a sovinice.

Sim, naquela pequena rua de Madalena, chegavam os rumores musicais do carnaval. Havia vozes cantando à distância coisas que eu não distinguia, mas o ritmo do batuque atrapalhava meu sono, suspenso na expectativa curiosa do que podia acontecer. E certa manhã aconteceu e pude enfim ver o carnaval com olhos surpresos e deslumbrados. Estava à janela, vendo o vendedor de abacaxis com seu tabuleiro empilhado das frutas amarelas de espetadas coroas verdes, quando um bando de mascarados me tocaram com seus braços cheios de fitas e guizos. Tamanho foi meu susto que me recolhi e me escondi. Tive medo. Queriam eles me levar? Quem seriam eles atrás de máscaras pretas e chapéus coloridos? Havia uma dona bem gorda com imensas argolas e uma saia de muitos babados vermelhos. Um preto cuja boca se abria num sorriso de muitos dentes. E mais outros de que não me lembro. Fiquei de coração na boca, escondida, esperando que fossem embora. Até que, impaciente, resolvi voltar à janela e novamente eles apareceram e me puxaram o cabelo, gritando vem, vem brincar com a gente. Dessa vez saí correndo pra dentro da casa, gritando por mamãe, e me rendi ao medo, sonhando, sem conseguir, ser mais corajosa e me entregar à alegria da aventura.

Também em Madalena, veio-me a consciência de um mundo bem maior que o da casa, da rua, do Recife, que se espichava e crescia todas as vezes que eu ia à praia de Boa Viagem tomar banho de mar. Um dia, meu pai anunciou que teríamos um eclipse da lua àquela noite, um espetáculo muito bonito. Não seria alegre como os do circo ou do parque de diversões, onde costumava me levar para voar de aviãozinho ou cavalgar os cavalos de madeira do carrossel. Mas seria grandioso, pois poderia ser apreciado em muitos lugares da terra. E mais, seria no palco do céu. Assim, quando foi ficando escuro, lembro-me bem, meus pais e toda a vizinhança, foram colocando cadeiras bem no meio da rua, como na platéia de um improvisado teatro. E lá ficamos, as crianças brincando enquanto os grandes conversavam. Todos esbranquiçados e pálidos pela luz do luar, mastigando mudubins e esperando o blecaute cósmico. Lembro-me da longa espera, do peso das pálpebras nos olhos, mas não do momento triunfal em que a lua se escondeu. Meus pais garantiram que tentaram me acordar, mas não conseguiram. Fiquei frustrada. A mãe me consolou dizendo que o melhor de qualquer festa era esperar por ela, e o pai falou que as coisas imaginadas eram mais bonitas que as reais, que o sonho era sempre o melhor espetáculo.

Nos dias de hoje, Madalena adquiriu para mim a condição de sonho que acalento e me consola de certas frustrações. Com a morte de meu pai, tive que abandoná-la de vez, tomando outro rumo, trocando de paisagem. Mas Madalena permanece em mim, um imutável local ameno. É o reduto onde ainda sou menina e onde meu pai continua vivo.
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